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Após a vitória de Bolsonaro

Nem rir nem chorar, apenas entender

Denis CollinLogotipo do La Sociale

La Sociale

(Tradução de Jean Michel Bouchara)

A vitória de Bolsonaro no Brasil, depois da de Trump nos Estados Unidos ou da de Rodrigo Duterte nas Filipinas, e depois dos sucessos dos partidos supostamente populistas na Europa – Lega na Itália, acensão da AfD na Alemanha, vitórias de Viktor Orban na Hungria e do PIS na Polônia, entre outras – produziu numerosas “análises” gerais na imprensa. Presenciamos o impulso triunfante dos populistas nacionalistas, a sombra negra da extrema direita que se estende sobre o mundo, e assim por diante.

Essas generalizações são ao mesmo tempo desesperantes e paralisantes. Tomemos como exemplos o Brasil e a Itália. É verdade que Salvini, assim como Marine Le Pen, apoia Bolsonaro. Mas Bolsonaro se situa a léguas de distância da política e dos propósitos da Lega de Salvini. Ele não se opõe ao liberalismo econômico. Ao contrário, é um ultraliberal, condena todas as formas de intervenção do Estado e deve qualificar como comunista a política de Salvini! Bolsonaro tem o apoio dos EUA. Ele quer tirar o Brasil dos Brics, que aparecem como uma alternativa à dominação do dólar sobre o mercado mundial, e não pretende mais que voltar a subordinar o capitalismo brasileiro ao americano. Portanto, ao contrário dos “populistas” europeus, ele não é nem protecionista, nem defensor da soberania. Os comentaristas de plantão substituem essas diferenças tão importantes por generalizações vazias.

(O artigo completo)
A vitória de Bolsonaro no Brasil, depois da de Trump nos Estados Unidos ou da de Rodrigo Duterte nas Filipinas, e depois dos sucessos dos partidos supostamente populistas na Europa – Lega na Itália, acensão da AfD na Alemanha, vitórias de Viktor Orban na Hungria e do PIS na Polônia, entre outras – produziu numerosas “análises” gerais na imprensa. Presenciamos o impulso triunfante dos populistas nacionalistas, a sombra negra da extrema direita que se estende sobre o mundo, e assim por diante.

Essas generalizações são ao mesmo tempo desesperantes e paralisantes. Tomemos como exemplos o Brasil e a Itália. É verdade que Salvini, assim como Marine Le Pen1, apoia Bolsonaro. Mas Bolsonaro se situa a léguas de distância da política e dos propósitos da Lega de Salvini2. Ele não se opõe ao liberalismo econômico. Ao contrário, é um ultraliberal, condena todas as formas de intervenção do Estado e deve qualificar como comunista a política de Salvini! Bolsonaro tem o apoio dos EUA. Ele quer tirar o Brasil dos Brics, que aparecem como uma alternativa à dominação do dólar sobre o mercado mundial, e não pretende mais que voltar a subordinar o capitalismo brasileiro ao americano. Portanto, ao contrário dos “populistas” europeus, ele não é nem protecionista, nem defensor da soberania. Os comentaristas de plantão substituem essas diferenças tão importantes por generalizações vazias.
Dirão ainda que todos eles são inimigos da democracia, portanto fascistas. Aí novamente, se remove tudo o que faz a realidade da vida política. Que eu saiba, nem a AfD3, nem a Lega, nem os partidos “populistas de extrema direita” europeus que governam às vezes coligados a partidos de “esquerda”, como na Eslováquia, ou então a partidos liberais, como na Dinamarca e na Áustria, são inimigos da democracia. Não questionam o pluralismo, a separação de poderes ou as liberdades fundamentais. É verdade que não é o caso dos dirigentes húngaros e polacos, que agridem claramente o “estado de direito”. Mas nem a Polônia do PIS4 nem a Hungria5 são ditaduras fascistas, a não ser que se mude o significado dessas palavras. Se o único critério a adotar é o estrito respeito à democracia, então devemos estender nossa lista de regimes que lembram “as horas sombrias de nossa história”: por exemplo, China, Coreia do Norte, Cuba, Venezuela, Rússia e todos os países muçulmanos devem entrar no mesmo saco.

A imaginação, cujas capacidades muitas vezes são limitadas, nos leva a isolar este ou aquele aspecto de realidades bem diferentes e assim chegar a generalizações. Por sua vez, a razão exige que façamos as distinções adequadas e determinemos com precisão o objeto de nosso estudo. Todavia, tentemos definir regras gerais e abstrações razoáveis que nos permitam entender a realidade por meio do raciocínio e prever o desenvolvimento provável dos acontecimentos.

O primeiro dado é que a globalização6 está em crise. Os profetas autoproclamados anunciaram o fim da história e o triunfo da democracia individualista e da economia de mercado. No entanto, muito pelo contrário, a história não se aposentou após a queda de muro de Berlim. O mercado sem fronteiras tornou a concorrência entre os países mais acirrada e fez surgir novas forças que também disputam sua fatia do bolo. O colapso dos sistemas de proteção social, de um lado, e a explosão das desigualdades, de outro, semearam o medo e tornaram todas as sociedades potencialmente mais violentas. Os movimentos migratórios provocam novos temores em toda parte. É um traço encontrado em quase todos os lugares, se bem que em formas muito distintas e até mesmo antagônicas. No Brasil, as classes dominantes, acostumadas a resolver os conflitos sociais pelo assassinato – os esquadrões da morte –, enfrentam a violência de um banditismo muito similar à delas. Na Europa, ao contrário, os povos esperam a proteção do Estado. Os movimentos que levaram a Bolsonaro e Duterte7 são, portanto, diametralmente opostos àqueles que fortalecem Le Pen e Salvini.

A crise da globalização expressa a profunda crise geral do modo de produção capitalista. Face às graves consequências da “crise ecológica” decorrente do desenvolvimento capitalista, as classes dominantes estão alarmadas. Os mais lúcidos sabem que é preciso mudar, e rapidamente. Mas nos EUA, como no Brasil, os ricos se recusam a encarar o destino que os espera. Decidem que o futuro do planeta não passa de um pretexto falacioso de seus inimigos e que se deve prosseguir como sempre, como se nada houvesse, gastando hidrocarbonetos sem controle, destruindo os recursos naturais e a biodiversidade para produzir soja e engordar gado em escala industrial. Trump e Bolsonaro compartilham dessa cegueira que não é só deles, mas de uma classe dominante que se torna mais gananciosa e predatória ao se saber condenada, e espera salvar-se a si própria e o mundo que se dane. Nenhuma semelhança com os “populistas” europeus, que desejam parar a marcha insana do capitalismo e engatar a ré, sem questionar o capitalismo em si. Uma posição incoerente, mas profundamente diferente da de Trump e Bolsonaro.

Devemos ainda sublinhar que a democracia liberal tradicional agoniza. Foi substituída pelos toscos de uma “direita sem complexos”. Trump, Bolsonaro e Duterte são dirigentes sem “superego” que exercem a violência da dominação do capital sem maquiagem. Por outro lado os partidos “centristas” viraram aparelhos oligárquicos que desprezam a democracia e reforçam os laços entre o Estado e o capital financeiro. Os exemplos de Emmanuel Macron8 na França e de Matteo Renzi9 na Itália ilustram essa tendência perfeitamente, ainda que Renzi tenha quebrado a cara diante da resistência do parlamentarismo italiano.

Finalmente, há outro ponto comum a todas as situações que citei: o colapso do que chamávamos de “esquerda”. Na Itália como na França, na Alemanha ou no Brasil, a esquerda ruiu. Na Itália ela pura e simplesmente desapareceu, e só o M5S10, que está no poder em aliança com a Lega. poderia encarnar o que dela sobrou. Na França, representa agora um quarto do eleitorado. Na Alemanha, o SPD11 não para de cair, perdendo em poucos anos a metade de seus eleitores. O PT do Brasil, atolado na corrupção e na “gestão leal” do capitalismo, há muito abandonou toda vontade de transformação social. Quando a burguesia passou para a ofensiva em 2013, com as grandes manifestações contra a corrupção, o PT foi incapaz de reagir, assim como ficou paralisado quando seu aliado Temer organizou o verdadeiro golpe que foi a destituição da presidenta Dilma Rousseff. A coligação com os “liberais” do MDB literalmente matou o PT. A popularidade de Lula, símbolo dos tempos de glória do PT, não bastou nem para criar um movimento popular pela libertação do ex-presidente, nem para desenvolver uma preparação suficiente para fazer do PT a força viva de uma frente de defesa da democracia. Para encerrar este ponto, convém lembrar que o PT, como os velhos partidos social-democratas da Europa ocidental ou o Partido Democrata americano, deixou de dar prioridade à defesa dos trabalhadores em proveito de pautas identitárias (transgêneros, homossexuais, etc.), o que contribuiu muito para a perda de boa parte de seu eleitorado.Esses traços gerais assumem aspectos diferentes em cada país, segundo as relações entre as classes, as tradições ou a demografia. Países em envelhecimento, como a Itália ou a Alemanha, não têm de forma nenhuma a propensão à violência de cunho fascista que se pode encontrar em um país jovem como o Brasil. Torna-se necessário não ceder ao desespero e parar de repetir a ladainha das “horas sombrias de nossa história”, que mais confunde do que explica. A catástrofe brasileira – que ninguém pode prever que impacto terá sobre o resto da América Latina – serve ao imperialismo dominante norte-americano, enquanto o questionamento da disciplina férrea da União Europeia serve à soberania popular, enfraquece o belicismo antirrusso e vai no sentido da necessidade de cooperações renovadas entre os povos.

30 de outubro de 2018

O cientista político francês Denis Collin edita a revista digital La Sociale (la-sociale.viabloga.com). É autor de Morale et Justice Sociale (“Moral e Justiça Social”, Editora Seuil, Paris, 2001), La Matière et l’Esprit. Sciences, Philosophie et Matérialisme (“A Matéria e o Espírito. Ciências, Filosofia e Materialismo”, Armand Colin, Paris, 2004), Revive La République! (“Reviver a República!”, Armand Colin, 2005), Compreender Marx (Armand Colin, 2006, e Editora Vozes, 2008), Le Cauchemar de Marx (“O Pesadelo de Marx”, Max Milo Editions, Paris, 2009) e La Longueur de la Chaine: Essai sur la Liberté au XXIe Siècle (“O Tamanho da Cadeia: Ensaio sobre a Liberdade no Século 21”, Max Milo, 2011).

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