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Trabalho informal e redes de subcontratação

Repórter BrasilDinâmicas urbanas da indústria de confecções em São Paulo

Carlos Freire da Silva*

Este estudo discute as redes de subcontratação e o trabalho informal no circuito das confecções em São Paulo. A partir de uma região periférica na zona leste da cidade tratou-se de averiguar as relações entre trabalho e o espaço urbano no qual essas confecções têm se instalado. O processo de reestruturação produtiva da indústria de confecções durante a década de 1990 fez multiplicar as chamadas oficinas de fundo de quintal e o trabalho a domicílio nos bairros das ex-costureiras das fábricas pelas vias de redes de subcontratação e do trabalho informal.

As ex-operárias mobilizam familiares e vizinhos no trabalho, estabelecendo redes sociais pelas quais circulam as encomendas de costura. Associado a esta dinâmica, esse circuito também vem mobilizando os fluxos da migração clandestina dos bolivianos, que já podem ser encontrados nos locais mais distantes do extremo leste da cidade.

Esta dissertação teve como ponto de partida o projeto “Cidade, trabalho e seus territórios: um estudo sobre mobilidade ocupacional e reconfigurações urbanas na cidade de São Paulo” (CNPq, 2003-2006), coordenado pela profa. dra. Vera da Silva Telles. Tratava-se de pesquisa qualitativa com famílias moradoras de duas regiões periféricas da cidade, nas zonas sul e leste, em que se buscava reconstituir as trajetórias sociais e urbanas (de trabalho e moradia) dos indivíduos e suas famílias. As questões trabalhadas nesta dissertação foram formuladas com base na pesquisa de campo realizada nos distritos de Guaianazes, Lageado e Cidade Tiradentes, região muito populosa, marcada por ocupações irregulares e considerada entre as mais pobres da cidade de São Paulo.

À medida que o trabalho de campo se desenvolveu foram surgindo evidências da importância da indústria de confecções na região. Apareciam casos recorrentes de mulheres (geralmente com mais de 40 anos) que tinham passado pela experiência do trabalho assalariado nas fábricas do Brás e do Bom Retiro e agora trabalhavam em pequenas oficinas de costura em casa ou na vizinhança, prestando serviço subcontratado para as mesmas fábricas da região central. Outro aspecto que chamava a atenção era a presença marcante de muitos bolivianos nestes bairros mais afastados, também trabalhando em oficinas de costura montadas em suas casas para prestação de serviços subcontratados. Em ambos os casos, algumas destas oficinas de costura procuravam distribuir parte de uma produção própria entre os ambulantes de Guaianazes,

Foi possível constatar que em torno destas oficinas de costura mobilizavam-se redes sociais profundamente implicadas na região e se estabeleciam dinâmicas urbanas que muito concretamente traçavam uma vinculação entre estes bairros da zona leste e o tradicional polo da indústria de confecções da cidade. À medida que este assunto foi se definindo, o campo de pesquisa se estendeu também para as regiões mais centrais do Brás e do Bom Retiro.

A expansão destas oficinas de costura subcontratadas e do trabalho informal ocorreu principalmente durante os anos 1990 e acompanhou a recuperação da indústria de confecções ao longo das últimas duas décadas. Neste período o setor passou por um processo intenso de reestruturação produtivo. As empresas passaram a fabricar produtos mais variados em menores quantidades, diminuíram o tamanho de suas plantas e externalizaram as etapas da produção mais intensivas em mão de obra, como a costura. Buscava-se a adaptação a estruturas mais flexíveis que acompanhassem as oscilações de tendências de mercado e resistissem à força da concorrência gerada pela abertura econômica. Neste movimento aumentou o número de oficinas de costura e do peso do trabalho informal, ao mesmo tempo em que diminuíram as vagas de emprego formal nas fábricas.

Nesta pesquisa procuro discutir o significado desta crescente informalidade das relações de trabalho. Diante do contexto alterado pela reestruturação produtiva e pela articulação econômica em escalas cada vez mais globalizadas, a informalidade parece assumir outras dimensões e coloca questões diferentes dos termos nos quais tradicionalmente ela é discutida. Este crescimento aponta para transformações nas formas de dominação e exploração do trabalho que afetam os modos de regulação constitutivos do mercado de trabalho. Tomando a cidade como perspectiva analítica destas transformações, procuro problematizar os agenciamentos urbanos em torno destas formas de mobilização do trabalho informal na indústria de confecções.

Leia a dissertação de mestrado de Carlos Freire da Silva, apresentada ao Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP) em novembro de 2008:

Trabalho informal e redes de subcontratação: dinâmicas urbanas da indústria de confecções em São Paulo.

 

* Carlos Freire da Silva, graduado em Ciências Sociais (2005) pela Universidade de São Paulo (USP), fez mestrado em Sociologia no Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

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