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Cronologia 1 de ‘1917: Uma revolução confiscada’

Pintura do acervo Cedem/IAPO caráter do Estado Grão-Russo

O caráter de um Estado é dado pelas contradições que constituem sua realidade, as quais são o resultado vivo do processo histórico. No caso russo, é dado pela história da periferia oriental do extinto Império Romano, cujo centro era a Bizâncio da antiguidade helênica (a Constantinopla medieval, hoje Istambul) e de suas relações de fronteira com o mundo islâmico setentrional ou “irânico”, usando um termo de Arnold Toynbee. Por isso, a caracterização do Estado russo exige o conhecimento dos principais eventos desse processo histórico.

A história russa se desenvolveu na vasta planície que se estende da Europa Oriental até a Sibéria. Ao norte, é limitada pelo mar Branco e o Oceano Ártico. Ao sul, pelo mar Negro, o mar Cáspio e as montanhas do Cáucaso. Como descreve o historiador Lionel Kochan, a característica mais importante dessa planície são as colinas que constituem o centro de dispersão do sistema fluvial. Foi ao longo delas que nasceram cidades como Kiev, Novgorod, Polotsk, Chernigov e Smolensk.

O território foi ocupado por distintos povos nômades e seminômades: citas, sármatas, godos, hunos, ávaros, cazares. Entre os séculos 6 e 7, os eslavos já eram o grupo predominante na planície, onde fundaram cidades e criaram importantes rotas comerciais. De acordo com Lionel Kochan, “a área do rio Dnieper onde eles se estabeleceram constituía realmente a porção meridional daquilo que mais tarde havia de ser conhecido como a maior ‘via entre varegues e gregos’, isto é, entre a Escandinávia e Bizâncio”. Do Dnieper, os eslavos avançaram para o norte pelo vale do rio Volga, consolidando o controle do comércio entre os países do mar Báltico e o Império Bizantino. Entre os séculos 8 e 9, entraram em contato com os varegues, ou rus, como foram chamados os grupos escandinavos vikings que dominaram a região e passaram a cobrar tributos dos povos locais.

862 – O chefe varegue Rurik (830-879) assume o governo de Novgorod, uma das cidades mais importantes dos eslavos. Ele é considerado o fundador da dinastia rúrika, que governará até 1598.

879 – O sucessor de Rurik, Oleg (?-912), expande os domínios dos rus, conquista Kiev, uma das mais importantes cidades na rota comercial do Dnieper, e transfere para lá sua capital em 882. É a fundação da Rus de Kiev, o primeiro grande principado da região, hegemônico até o século 12. A partir da tomada de Kiev, aos poucos os varegues serão absorvidos pelos eslavos, numericamente superiores.

907-912 – Oleg arma uma frota e ataca Bizâncio. A vitória militar garante um tratado comercial favorável a Kiev. Em 911, Oleg consegue ampliar as condições favoráveis em um novo tratado. A Rus de Kiev terá uma relação complexa com o Império Bizantino: de um lado, parcerias comerciais e guerras por territórios se alternarão; de outro, Bizâncio promoverá sua cristianização e terá profunda influência em suas leis, cultura e organização social.

912-962 – Igor (878-945) sucede Oleg e faz novas conquistas, ampliando seu território até o Danúbio. Em 940, monta uma expedição contra Bizâncio e é derrotado, mas em 944 um novo tratado de paz é firmado em condições favoráveis à Rus de Kiev. Quando Igor é morto numa batalha contra tribos rebeldes, sua mulher, Olga (890-969) assume como regente do filho, Sviatoslav (942-972). É a primeira governante de Kiev a se converter ao cristianismo.

962-972 – Sviatoslav I torna-se grão-príncipe de Kiev. Seu curto reinado se distingue pelas campanhas militares que levam a uma rápida expansão de Kiev para o sul, ao longo do vale do Volga, da estepe do mar Cáspio e dos Bálcãs, conquistando cazares, búlgaros, alanos e outras tribos. É o primeiro príncipe de Kiev com um nome de origem eslava e não nórdica. Em 969, Sviatoslav invade pela segunda vez a região dos búlgaros e avança para Constantinopla, mas acaba derrotado dois anos depois pelas forças do imperador João I Tzimisces (925-976), que assumira o trono bizantino em 969, e é obrigado a assinar um acordo de paz em que se compromete a abandonar os Bálcãs. Na volta para Kiev, Sviatoslav é morto por pechenegues, os mais recentes nômades a ocupar as estepes. Com sua morte, Kiev não consegue consolidar os domínios conquistados.

973-980 – A divisão de territórios da Rus entre os filhos de Sviatoslav I leva a uma guerra civil. Príncipe de Novgorod, Vladimir I (958-1015) sai vitorioso da disputa, conquista Kiev e torna-se grão-príncipe em 980.

988 – Vladimir I se faz batizar e determina o batismo de todos os moradores de Kiev. A capital se tona a sede da Igreja Ortodoxa russa, o que formaliza a integração da Rus de Kiev à área de influência do Império Bizantino. O batismo se dá simultaneamente ao casamento de Vladimir com Ana Porfirogêneta (963-1011), irmã do imperador Basílio II (958-1025), que ascendera ao trono do Império Bizantino em 976.

Batismo e casamento são consequências naturais das relações de guerra e comércio estabelecidas entre os russos ainda pagãos e o Império Bizantino desde o início do século 10, quando saques se alternavam com intercâmbio de cera, mel, peles e escravos por tecidos e artigos de luxo.

1019 – Iaroslav I (978-1054) assume definitivamente o governo, depois de quatro anos de disputa. Seu reinado é o momento de maior expansão da Rus de Kiev. Com sua morte, a área de ocupação dos rus se fraciona em vários principados, teoricamente vassalos de Kiev, mas cada vez mais independentes. Novgorod, Polotsk, Smolensk, Chernigov e Pereslavl são os mais importantes no século 11.

1054 – O Grande Cisma marca a separação entre a Igreja Católica Apostólica Romana e a Igreja Católica Apostólica Ortodoxa, que não aceita a doutrina da supremacia papal. A ruptura consolida a ligação da Rus de Kiev com Bizâncio, mas, segundo Kochan, não afeta sua relação com a Europa ocidental. As provas mais claras são as alianças consolidadas por Iaroslav I – ele próprio se casa com uma filha do rei da Suécia e casa suas filhas com reis da França, da Noruega e do Reino Húngaro – e a vitalidade dos oito grandes mercados de Kiev, frequentados por comerciantes de Bizâncio, da Escandinávia, da Europa central e do sul e do Oriente.

1055-1157 – Depois da morte de Iaroslav, a unidade da Rus de Kiev entra em perigo. Todos os seus sucessores – cinco filhos e um neto – a governam coletivamente. A rivalidade entre os principados, com guerras cada vez mais frequentes, é o fator inicial do declínio de Kiev, que vai perdendo sua ascendência. Aos poucos, o centro político e econômico da Rus se desloca para o norte, consequência da invasão das estepes do sul pelas hordas nômades dos cumanos (os polovtsian da literatura russa), que desde cerca de 1150 ocupam os vales do baixo Don e do baixo Dnieper e dificultam o comércio com Bizâncio. Novgorod prospera graças aos laços com o Ocidente, já que controla as rotas comerciais do Volga para o mar Báltico. Torna-se um centro regional poderoso e em 1136 forma uma república que se governa de forma independente, embora nominalmente continue ligada à Rus. A nordeste, o principado de Rostov-Suzdal (depois Vladimir-Suzdal) cresce em importância até superar o de Kiev.

1157-1169 – Andrei I Bogoliubsky (1111-1174) assume o principado de Vladimir-Suzdal e completa o deslocamento do eixo de poder da Rus para sua capital, Vladimir, nas margens do rio Klyazma. Andrei assume o título de grão-príncipe para afirmar a precedência de Vladimir sobre os demais principados. Seu sucessor, no entanto, deve ser confirmado pelos demais príncipes, o que torna o cargo eletivo entre eles. Andrei tenta unir as terras da Rus sob seu comando, sem sucesso. Em 1169 suas tropas tomam e saqueiam Kiev, mas ele se recusa a ocupar o trono.

1202-1204 – A 4ª Cruzada não afeta apenas o Império Bizantino, mas é o principal fator externo da decadência de Kiev. A tomada de Constantinopla abre rotas comerciais para o Oriente pelo mar Mediterrâneo, concorrendo com as rotas da Rus e afinal suplantando-as.

1206-1220 – Nas estepes da Ásia central, Gêngis Khan (1162-1227) unifica as tribos mongóis, proclama-se khan supremo e dá início à longa série de conquistas que formarão o Império Mongol. Em seu reinado os mongóis conquistam a Sibéria e a maior parte da China e da Ásia central.

1220-1227 – Os mongóis fazem sua primeira incursão no Cáucaso: destroem os exércitos da Armênia e da Geórgia e avançam para o norte. Na Batalha do Rio Kalka (maio de 1223), impõem uma fragorosa derrota à aliança entre os principados da Rus e os cumanos. Toda a área ao sul de Kiev fica sob dominação dos mongóis, que incorporam a horda cumana. O impacto da Batalha do Rio Kalka acelera o processo de desintegração da Rus, mas depois dela a expedição volta para a Ásia, para se juntar às demais forças mongóis. Antes de sua morte, Gêngis Khan divide seu império entre os filhos, na forma de canatos subordinados ao imperador, ou grande khan. A parte mais ocidental fica para Jochi (1181-1227), mas ele morre antes de Genghis Khan e os territórios são divididos entre seus filhos Batu (1205-1255) e Orda (1204-1251), que formam, respectivamente, a Horda Azul e a Horda Branca.

1237-1240 -Batu Khan invade o vale do alto Volga e em 1238 toma Vladimir, que é incendiada. Em seguida, suas forças destroem a maioria das grandes cidades da Rus. Apenas Novgorod e Pskov escapam. Em 1240, Kiev resiste e é sitiada; quando cai, em dezembro, os mongóis massacram a população e põem fogo à cidade. A Rus de Kiev é conquistada. Nos vales do médio e baixo Volga, Batu cria em 1239 o Canato Qipchaq. Os cumanos, fundidos com os invasores, passam a constituir o povo tártaro, majoritariamente muçulmano.

1243 – Batu Khan forma a Horda de Ouro, que combina as Hordas Azul e Branca, e estabelece sua capital em Sarai, no baixo Volga. Os principados russos se tornam vassalos da Horda de Ouro e o grão-príncipe de Vladimir passa a ser nomeado pelo khan – que normalmente se limita a confirmar a indicação dos príncipes russos.

1283 – Daniel (1261-1303) assume o principado de Moscou, que recebera de seu pai, Alexandre Nevsky (1221-1263), grão-príncipe de Vladimir desde 1252. Nesse período, Moscou era apenas um ostrog (fortim) sem grande importância, mas em seu reinado Daniel amplia e urbaniza a capital, duplica o território de seu principado e aumenta sua influência, dando início ao processo que levará à sua predominância. Erguida entre o alto Volga e o Oka, na margem do rio que lhe dá o nome, Moscou goza de uma posição-chave, ao controlar a via comercial entre o Báltico e mar Cáspio.

1299 – A sede da Igreja Ortodoxa russa é transferida de Kiev para Vladimir. No sul, na fronteira do Império Bizantino, é fundado o principado Otomano, que dará origem ao Império Otomano.

1303-1325 – Yuri (1281-1325), filho de Daniel, assume o principado de Moscou. Em 1317, casa-se com a irmã do khan Uzbeg (1282-1341), que governa a Horda de Ouro desde 1313. Uzbeg passa a Yuri o título de grão-príncipe de Vladimir, depois de depor e executar Mikhail Yaroslavitch (1271-1318). Príncipes de Tver e filhos de Mikhail, Aleksandr (1301-1339) e Dimitri (1299-1326) entram em guerra pelo título com Yuri. Dimitri o mata e é executado por Uzbeg.

1326 – Moscou torna-se a sede da Igreja Ortodoxa russa e passa a ser o centro religioso da área dominada pela Horda de Ouro, em mais um sinal de sua crescente influência.

1325-1353 – Ivã Kalita (1288-1341), irmão de Yuri, herda o principado de Moscou. Em 1327, Tver se rebela contra os mongóis e Ivã reprime a revolta, à frente de uma força de mongóis e moscovitas. Uzbeg passa-lhe o título de grão-príncipe de Vladimir, assim como a incumbência de coletar os tributos de todos os principados russos. Moscou substitui definitivamente Tver como centro político de Vladimir-Suzdal. Em 1353, os mongóis dão ao principado de Moscou autoridade jurídica sobre os outros príncipes da Rus.

1360-1378 – O chefe militar Mamai (1335-1380) assume o comando da Horda Azul, que ocupa as estepes das atuais Ucrânia e Crimeia. Ele rompe com a Horda de Ouro e tenta estabelecer um Estado próprio e obrigar os russos a pagar-lhe tributo. Na Horda Branca, Tokhtamish (?-1406) toma o poder em 1378 e começa uma campanha pela reunificação das duas hordas.

1377-1380 – O príncipe de Moscou Dimitri Ivanovitch (1350-1389) torna-se grão-príncipe de Vladimir em 1363 e rebela-se contra os mongóis. Em 1378, derrota as tropas enviadas para subjugá-lo. Mamai comanda pessoalmente um novo exército contra ele. As duas forças se enfrentam no campo de Kulikovo, perto do rio Don, em 1380, e Dimitri derrota Mamai. Com a vitória, o príncipe passa a ser chamado de Dimitri Donskoy – Dimitri do Don. Os russos consideram a Batalha de Kulikovo como o primeiro marco no processo de libertação do domínio mongol.

1382 – A vitória de Kulikovo tem curta duração. Tokhtamish unifica a Horda de Ouro e lança uma ofensiva militar contra os principados russos. Ele ataca várias cidades e saqueia e incendeia Moscou e Vladimir, forçando Dimitri a render-se e aceitá-lo como soberano. Tokhtamish perdoa Dimitri e o confirma como grão-príncipe e principal arrecadador de tributos dos principados para a horda.

1430-1502 – A Horda de Ouro é sacudida por guerras civis e disputas pelo poder e se fragmenta nos Canatos de Kazan (1438), Crimeia (1441), Kazak (1456), Astrakhan (1466) e Sibir (1468) e na Horda Nogai (1440). O Canato da Crimeia torna-se vassalo do Império Otomano em 1478 e os principados russos conquistam a independência em 1480. Sarai fica limitada a uma pequena área e acaba destruída em 1502 pelo Canato da Crimeia.

1453 – O Império Otomano toma Constantinopla, derrubando o Império Bizantino. Os otomanos o substituirão como a maior potência do Oriente pelos próximos 461 anos.

1462-1505 – Ivã III (1440-1505) assume como grão-príncipe de Moscou. Sob seu governo, Moscou triplica seu território, absorvendo, seja por conquista, compra ou aliança, os principados de Yaroslavl (1463), Rostov (1474), Tver (1485) e Viatka (1489), além de Novgorod. São de Ivã III as primeiras leis autocráticas que darão origem ao absolutismo russo.

1471-1478 – Conquista de Novgorod, o principado mais rico e mais extenso da Rus. A anexação introduz Moscou na órbita do comércio ocidental, pois desde 1229 Novgorod é um entreposto da Liga Hanseática, a união de cidades que monopoliza o comércio no Báltico. Em 1478, Novgorod se revolta e Ivã III massacra a população e expropria sua nobreza, deportando parte dela para Moscou. Ivã III distribui as terras entre seus aliados e os boiardos (grandes proprietários nobres) locais que se submetem, mas sob a condição de que lhe prestem serviços militares. Na conquista de Tver, ele repete o processo. Com isso, define a base do sistema de pomiestie, em que a terra pertence ao Estado e os pomieshchikii só usufruem dela enquanto nobreza de serviço, sem nenhum direito hereditário ou mesmo vitalício, o que implica uma dependência direta do governante.

1480 – Com o enfraquecimento da Horda de Ouro, Ivã III para de pagar tributos e se alia ao Canato da Crimeia. O khan Akhmat (que governou de 1465 a 1481) reúne um exército para puni-lo. As duas tropas se defrontam às margens do rio Ugra, e depois de quase um mês os mongóis se retiram, sem entrar em combate. O enfrentamento marca a independência oficial dos russos com relação à Horda de Ouro.

1493 – Ivã III dá-se o título de gosudar (soberano), além do tradicional grão-príncipe, e se declara herdeiro do extinto Império Bizantino – ele se casara em 1472 com Zoé Paleóloga (1440/49-1503), sobrinha de Constantino XI (1405-1453), último imperador bizantino, que assumira o trono quatro anos antes da queda de Constantinopla. Ivã III adota como emblema de sua soberania a águia de duas cabeças.

1494 – Ivã III fecha o entreposto da Liga Hanseática em Novgorod.

1505-1533 – Vassili III (1479-1533) assume o governo de Moscou. Assim como o pai, Ivã III, ele concentra esforços na unificação das terras russas e anexa os últimos principados e cidades autônomos: Pskov (1510), Volokolamsk (1513), Riazan (1521) e Novgorod-Siversky (1522).

1547-1550 – Coroação de Ivã IV (1530-1584), conhecido como Ivã, o Terrível. É o primeiro governante a se coroar como “czar de todas as Rússias”, título que acrescenta aos de grão-príncipe de Moscou e gosudar. Em seu reinado, Ivã IV consolida a unificação da Rússia e estabelece as bases do despotismo russo, com medidas que limitam os direitos dos camponeses e submetem os nobres. Ainda em 1547, ele se casa com Anastácia Zakharin (1530-1560), da família boiarda Romanov. Dois anos depois, cria o Zemski Sobor (Assembleia da Terra), considerado o primeiro Parlamento russo e muitas vezes comparado aos Estados Gerais da França, com representantes do clero, dos boiardos, da baixa nobreza, de oficiais e de comerciantes. Sua função é decidir sobre assuntos militares, medidas fiscais, aumento de impostos, e, de maneira geral, consolidar e executar os planos da autoridade central. O Zemski Sobor funcionará até 1698, sem periodicidade fixa. Em 1550, Ivã cria sua guarda pessoal, os streltsi, recrutada entre os burgueses e organizada como ordem militar devotada ao czar. Os streltsi são o cerne do primeiro exército permanente da Rússia.

1552-1556 – Ivan IV conquista os canatos de Kazan e Astrakhan. Dos principais sucessores da Horda de Ouro, resta apenas o poderoso Canato da Crimeia, vassalo do Império Otomano, com o qual a Rússia terá uma longa fronteira durante séculos, correspondente aproximadamente à fronteira norte da atual Ucrânia. Ivã IV usa tropas dos cossacos do rio Don na conquista de Astrakhan. Ele dá estatuto especial aos cossacos, que lhes garante administração autônoma, isenção de impostos comerciais e concessões de terras e títulos de nobreza para seus líderes, em troca de serviço militar permanente e proteção das fronteiras.

Os cossacos originam-se de camponeses fugidos para as estepes do que hoje é o sul da Rússia e a Ucrânia, ocupadas pelos nômades qipchaques, que mantinham vastas áreas desabitadas por onde vagueavam seus rebanhos de ovelhas. Os camponeses russos criaram aldeias livres fortificadas, ao longo dos rios Don e Dnieper, pois, diferentemente dos qipchaques, eles cultivavam as terras ribeirinhas e eram sedentários, embora também se tivessem tornado cavaleiros. Os cossacos do vale do Dnieper se diferenciam dos demais, pois a região que ocupam, o Zaporoje, está sob dominação nominal do Reino da Polônia, da qual serão vassalos até 1648.
1553-1555 – Um navio da Companhia dos Mercadores Aventureiros (Company of Merchant Adventurers), comandado pelo inglês Richard Chancellor, chega à foz do rio Dvina, via cabo Norte e mar Branco, abrindo uma rota marítima direta para a Rússia pelo Ártico. A rota tradicional, pelo Báltico, não era direta, pois os territórios russos não chegavam então a esse mar, e implicava o pagamento de pedágio à Dinamarca para passar pelo estreito de Sund. Em 1555 os ingleses fundam uma companhia de comércio em Moscou que obtém isenções de tributos e privilégios do czar. Essa companhia passa a exercer um monopólio de fato do comércio exterior da Rússia, usando a nova rota marítima para ampliar e diversificar suas exportações. Em 1584, os russos construirão um novo porto, Novokholmogori, já no mar Branco, para dar conta do tráfego de navios.

A intensificação das relações comerciais com a Europa faz da Rússia uma área periférica do comércio ocidental. Entretanto, a integração ao comércio ainda não é a integração ao Ocidente. Não só a religião ortodoxa é um fator de isolamento nesses tempos de guerras de religião, como o tipo de comércio com o Ocidente afeta muito pouco a população urbana. Na Rússia de Ivã IV não há cidades manufatureiras como as do Ocidente. Elas são principalmente centros mercantis, com um pequeno artesanato que atende a necessidades locais, ou seja, não há um “terceiro Estado”. E o governo russo não abre espaço à burguesia nos postos administrativos, como fizeram os do Ocidente. Na corte de Moscou predominam prelados, boiardos e burocratas de origem nobre.
1565 – Criação da oprichnina, força militar sob comando direto do czar que chega a ter 6 mil oprichnikii, filhos de boiardos que recebem domínios no sistema de pomiestie. Os oprichnikii devem prestar serviço militar, e eventualmente administrativo, durante a vida inteira. As terras destinadas a eles são expropriadas de boiardos, que resistem à medida mesmo com garantia de indenização. Ivã IV manda executar 3.500 boiardos e logo depois amplia a área de oprichnina. Em 1571 há nova ampliação. O resultado final é que as terras russas e a nobreza ficam divididas em duas partes aproximadamente equivalentes: a área de votchina, pertencente aos boiardos, e a área de pomiestie, entregue à nobreza de serviço.

1570-1572 – Com os oprichnikii Ivã IV estabelece o terror, usando-os contra nobres e cidades que suspeite de traição. As atrocidades cometidas por eles atingem seu auge em Novgorod, em 1570. O czar acusa Novgorod de tentar aliar-se aos inimigos da Rússia na Guerra da Livônia (1558-1583) e lança um ataque que devasta a cidade e deixa milhares de mortos. A reação pública ao massacre e aos abusos marca o declínio dos oprichnikii, já divididos por conflitos internos violentos. No ano seguinte, tártaros da Crimeia invadem Moscou e eles nada fazem para defendê-la. Em 1572, Ivã abole o sistema de oprichnina e desbanda os oprichnikii.

1579 – A conquista da Sibéria tem início com o ataque ao Canato de Sibir (atual Sibéria Ocidental). Para essa operação Ivã IV volta a utilizar forças cossacas, contratando como mercenário o chefe cossaco Yermak Timofeievitch (1532/42-1585).

1581 – Ivã IV suspende por um ano o direito de partida dos camponeses – um direito de saída temporária do domínio senhorial em cada outono, usado cada vez mais pelos camponeses para abandonar definitivamente os maus senhores. O Canato da Crimeia é o lugar para onde os servos russos costumam fugir, mas de acordo com o historiador Richard Pipes, a conquista dos Canatos de Kazan e Astrakhan também abre aos russos uma vasta área para colonização. A suspensão do direito de partida transforma os camponeses em servos verdadeiros, vinculando-os à terra, e será renovada nos anos seguintes até 1587, quando voltará a funcionar com restrições.

Se até meados do século 16 se podia dizer que a Rússia medieval era simplesmente um Estado feudal, como diz Trotsky, forçando o sentido do termo, em sua História da Revolução Russa, não é possível continuar dizendo isso após as reformas de Ivã IV. Antes se podia dizer que havia ali um feudalismo particular, pois era desprovido da tendência à fragmentação que gerara no Ocidente vários graus de vassalagem, por causa do sistema de enfeudamento – na Rússia, além de não terem surgido camadas intermediárias entre os príncipes e os boiardos tradicionais, estes não deviam seus domínios aos príncipes, como os deviam os barões ocidentais a seus suseranos. Entretanto, esse feudalismo particular passa por uma transformação na segunda metade do século 15, durante as guerras de Ivã III contra Novgorod e Tver (principais rivais de Moscou), que resultam nas primeiras transformações de terras de votchina em pomiestie, para beneficiar boiardos de Novgorod voluntariamente submetidos. Ivã IV leva tal tendência à sua conclusão, que é a instauração de um despotismo pan-russo fortemente centralizado. Esse despotismo, termo que vem do grego δεσπότης, com o duplo significado de senhor e proprietário, e designava os príncipes da área central do Império Bizantino, passa a distinguir radicalmente o Estado russo dos ocidentais. Nenhum soberano do Ocidente poderia expropriar a nobreza tradicional para criar outra a seu gosto, enviando 3.500 nobres ao cadafalso. E, principalmente, enquanto no Ocidente a decadência da nobreza territorial dera lugar a uma classe burguesa com poderes crescentes no Estado feudal, na Rússia a decadência dos boiardos abre espaço a uma vasta nobreza de serviço, cuja expansão determina sua evolução de feudalismo bizantino, particular à periferia dessa área, a despotismo bizantino fortemente centralizado, cuja característica marcante é o poder sem limites servido por uma nobreza burocratizada. Mas é totalmente impróprio o termo “despotismo asiático”, usado por Marx. Na “Ásia” do tempo de Marx, deixando de lado o sistema peculiar das castas indianas, o poder de Estado era geralmente exercido por meio de forças de base tribal (beduínos árabes, nômades turcos e mongóis). A relação desse poder com o povo submetido era distante, imitada da relação entre pastor e ovelhas a tosquiar (pagar tributo, no caso de homens), o que é diferente da relação próxima, imitada da relação entre o pater familias da Roma antiga e os homens pessoalmente sujeitos que cultivam suas terras, instituída na Rússia por Ivã IV. Além disso, a burguesia da Ásia e da África setentrional teve tradicionalmente um lugar importante na administração estatal, chegando a ter grande poder em muitas cidades; se essa burguesia agonizava no tempo de Marx é porque fora lentamente sufocada pelo monopólio do comércio marítimo ocidental, imposto a partir das grandes navegações portuguesas. A exceção a isso é a China, onde uma classe de mandarins desde a Antiguidade ocupou o lugar da burguesia na administração estatal. Por outro lado, no mundo islâmico, a condição servil era mais branda, inclusive relativamente à do Ocidente, exceto no Egito, por razões específicas à história do vale do Nilo.
1584-1613 – Teodoro I (1557-1598) assume o trono com a morte do pai, inaugurando um período tumultuado que os historiadores chamam de Tempo das Inquietações ou Tempo das Dificuldades. Diante de revoltas camponesas e intervenções estrangeiras, como a ocupação de territórios russos por polacos e suecos, o novo czar se vê impotente e recorre a regentes. Boris Godunov (1551-1605), seu cunhado e ex-ministro de Ivã IV, cresce em influência e é quem governa de fato pela maior parte do reinado.

1589 – A Igreja Ortodoxa russa ganha a independência. O Patriarcado de Constantinopla, ao qual estava subordinada, lhe concede jurisdição própria e proclama o metropolita (o cargo mais alto da hierarquia local) de Moscou como patriarca. Com isso, o Patriarcado de Moscou e Toda a Rússia adquire a mesma importância dos de Constantinopla, Alexandria, Antioquia e Jerusalém. A Igreja russa mantém a tradição bizantina de permitir a participação ativa do governante nos seus assuntos, o que aos poucos se transforma em submissão ao Estado.

1597 – Godunov volta a suspender o direito de partida e ordena a todos os proprietários rurais que entreguem aos proprietários anteriores os camponeses que tenham fugido há menos de cinco anos, ou seja, 1592. Esta data é o início do que os historiadores denominarão “segunda servidão”, mas que realmente começara em 1581, sob Ivã IV.

1598 – Depois de quase 20 anos de guerra contra o Canato de Sibir, os cossacos mercenários do Don tomam sua capital, Sibir, e constroem fortes na região. Isso permite a expansão do Estado russo para toda a faixa setentrional da Ásia (que fica conhecida como Sibéria, em memória do canato) e depois para o Alasca, no continente americano. Com isso a Rússia se torna capaz de ampliar fortemente sua tradicional exportação de peles, com maior proporção das mais valiosas, como as de zibelina. Até o século 19 a ocupação dessas áreas se limitará à manutenção de fortins para garantir a dominação e a arrecadação das peles que os povos nativos são obrigados a entregar como tributo.

1598-1605 – Com a morte de Teodoro I sem filhos, termina a dinastia rúrika. Na falta de um sucessor, o Zemski Sobor é convocado e elege Godunov czar. Seu governo é marcado pela grande fome de 1601-1603: invernos mais rigorosos e longos do que o normal destroem as colheitas, levando à morte cerca de um terço da população. Distritos rurais inteiros são abandonados por refugiados que se deslocam para a capital, enquanto no campo bandos de foragidos atacam vilas atrás de comida. Além da desorganização da economia, Godunov enfrenta a oposição crescente dos nobres, que o consideram um usurpador, e os rumores de que Dmitri, filho mais novo de Ivã IV, estava vivo (o que não era verdade, ele morrera em 1591). Em 1604, um homem que garante ser Dimitri invade a Rússia à frente de um pequeno exército financiado por nobres poloneses e apoiado por russos inimigos de Godunov. A guerra civil termina em pouco tempo, com a doença e morte inesperada de Godunov em Moscou.

1605-1606 – O filho de Godunov, Teodoro II (1589-1605),assume o trono em abril, mas por apenas dois meses: boiardos aliados ao falso Dimitri dão um golpe e ele acaba assassinado em junho. O falso Dimitri é coroado em julho. No entanto, seu governo não dura um ano. Em maio de 1606, uma revolta dos boiardos, conduzida por Vassili Shuiski (1552-1612), estoura em Moscou e o falso Dimitri é morto.

1606-1613 – A revolta põe Shuiski no trono. Em meio a tanta ilegalidade, ele foi o único czar com poder autocrático explicitamente delimitado por um documento constitucional, elaborado pelos boiardos. Mas seu poder não vai além de Moscou: Tula e Riazan amotinam-se e Astrakhan declara independência. Ao mesmo tempo, um segundo falso Dimitri (desta vez alegando ser o primeiro falso Dimitri) reivindica o trono e, de novo com apoio de nobres poloneses e russos, invade a Rússia, instala um governo paralelo em Tushino e sitia Moscou por dois anos. Shuiski consegue a ajuda da Suécia, que está em guerra com a Polônia, e se mantém no poder graças às suas tropas. Em retaliação, a Polônia declara guerra à Rússia e a derrota em 1610. Os boiardos depõem Shuiski em seguida e negociam com os poloneses, cujas forças ocupam Moscou. O acordo não sobrevive às diferenças da Polônia católica com os russos ortodoxos e a guerra é retomada.

1613-1618 – O Zemski Sobor é convocado e finalmente resolve o problema sucessório, elegendo Miguel Romanov (1613-1645), que inicia a dinastia que permanecerá no poder até 1917. Sua escolha não é um rompimento com o passado, visto que Anastácia, primeira mulher de Ivan IV, era da família Romanov. Miguel I encerra a guerra com a Suécia em 1617 e com a Polônia em 1618, mantendo a independência russa em troca de concessões territoriais. Com isso, seu pai, o patriarca Filareto (1553-1633), volta do exílio imposto pelos poloneses e passa a governar em conjunto com o filho – na prática, ele é o governante de fato até sua morte. O tratado com a Suécia implica a cessão de todos os territórios no mar Báltico, obrigando a Rússia a organizar seu comércio com a região a partir do mar Branco. O porto de Novokholmogori, rebatizado de Arcangel, será a principal rota de comércio exterior da Rússia até o século 18.

1625 – Miguel I tem que se apoiar no Zemski Sobor para governar. Em paralelo funciona uma Duma (Parlamento) de boiardos, com autoridade política menor que o Zemski Sobor, porém mais apta a interferir nas intrigas das famílias de boiardos aparentadas com a casa real. Por instigação do patriarca Filareto, essas duas instituições dão a Miguel o título de autócrata, samoderjaviets em russo (o termo é proveniente de derjava, que significa poder ou potência).

Trata-se na realidade de um ato de renúncia aos direitos políticos dos corpos sociais que ambas as instituições pretendem representar. Samoderjaviets não é um título de direito divino, não decorre da consagração religiosa do monarca e tampouco vem de algum costume “asiático”, pois é uma invenção da corte de Moscou. É um título por definição exterior às leis vigentes. Seu caráter extra-humano se manifesta na assinatura das proclamações do czar, que é a impressão da palma de sua mão com os dedos abertos, como a marca de uma fera.
1632-1645 – O Zemski Sobor é convocado de novo em 1632, 1637 e 1642, mas com reduzida importância. Miguel I também toma novas medidas para tentar estancar a migração de camponeses para as estepes cossacas, onde não se seguem as leis servis: em 1637, a pena de prisão para os servos fugidos sobe para nove anos e em 1641, para dez anos.

1645-1676 – Aléxis I (1629-1676) assume o trono e impõe ainda mais restrições à liberdade dos camponeses. Em 1649, institui um novo código que obriga os servos a voltar às propriedades onde tinham sido registrados quando do recenseamento e prevê multas a proprietários que acolham ou retenham servos sobre os quais não têm direito. Em 1658, outro decreto cria agentes especiais destinados a procurar camponeses fugidos, e em 1661 Aléxis estabelece multas ainda mais severas em dinheiro para proprietários que acolham fugitivos, além da obrigação de ceder quatro camponeses para cada servo acolhido ilegalmente. Os proprietários passam a vender e trocar servos e dividir famílias, ou seja, tratam-nos como propriedades, embora não possam torná-los escravos, o que os dispensaria de pagar impostos.

Os servos e os citadinos pobres não aceitam pacificamente essa extorsão do Estado e do proprietário – agravada pelos constantes aumentos de impostos para financiar guerras com a Polônia e a Suécia, que se estendem de 1654 a 1667. Em 1648, um imposto sobre o sal provoca revoltas em Moscou. Em 1650, ocorrem levantes em Pskov e Novgorod, e em 1656, quando o czar substitui a moeda de prata por cobre, estouram novas revoltas em Moscou, levando à deportação, tortura e morte de milhares de descontentes.
1648-1654 – Os cossacos do Zaporoje (na atual Ucrânia) se rebelam contra o domínio da Polônia, tomam Kiev no ano seguinte e segue-se uma longa série de batalhas, com vitórias de lado a lado. Em 1653, o exército polonês inicia uma pesada ofensiva e os cossacos, que já negociavam o reconhecimento da Rússia à sua independência, pedem ajuda. Os russos declaram guerra à Polônia e no ano seguinte Aléxis firma um acordo com os cossacos, que aceitam se tornar seus vassalos, desde que como Estado autônomo, com direito a continuar elegendo seu líder (atamã) e preservando o status do Patriarcado de Kiev, ligado ao de Constantinopla. Na prática, o acordo começa a ser descumprido já em 1667 quando, com o fim da guerra, a Polônia consegue manter a posse da Ucrânia ocidental e Aléxis inicia uma política de cassação das liberdades da liderança tradicional cossaca, a hetmanchtchina.

Perry Anderson chama a luta dos cossacos de “revolução ucraniana”, expressão proveniente da historiografia stalinista, que apresenta um falso Zaporoje, ansioso por sacudir o jugo da Polônia e unir-se à Rússia, invenção que reabilita a velha mitologia imperial grã-russa. Na realidade, os cossacos do Zaporoje, mais abrigados das incursões dos nômades, alcançaram um desenvolvimento maior e, ao tomarem Kiev, tentam criar um Estado independente. Nas negociações com a Rússia, pretendiam ser reconhecidos como Estado vassalo, e não como aldeões vassalos, mas, sendo de religião ortodoxa, aceitam a suserania russa em 1654, buscando bloquear as pretensões da Polônia católica. Erro grave, que permitirá a instalação de uma administração russa em Kiev e tornará mais difícil a construção do almejado Estado independente.
1654-1656 – O patriarca Nikon (1605-1681) empreende, com apoio do czar, uma série de reformas na liturgia ortodoxa, a pretexto de corrigir erros de tradução dos antigos pergaminhos gregos para o russo. O arquimandrita (abade) do mosteiro de Solovetzky convoca uma assembleia de monges e popes (curas) de todo o país, conhecida como “Concílio Negro”, que rejeita os novos textos litúrgicos do Patriarcado de Moscou. Forma-se um movimento contra as reformas, liderado pelo protopope (vigário) Avvakum Petrov (1620-1682) – seus integrantes são conhecidos como velhos crentes. Em 1656, um concílio sanciona as reformas e proíbe os rituais da forma antiga e os velhos crentes passam a ser reprimidos. Apesar disso, seu movimento continua a crescer.

Além de corrigir erros de tradução, as reformas do Patriarcado instituem a nomeação dos popes, que antes podiam ser eleitos pelos fiéis. Trata-se, portanto, de uma resistência popular ao enquadramento do baixo clero e do povo das paróquias no Estado despótico, que até então se limitara a enquadrar a nobreza.
1667-1682 – Um concílio extraordinário da Igreja Ortodoxa é convocado para resolver o conflito aberto pelos velhos crentes. A participação de prelados gregos e sírios, chamados pelo czar Aléxis, permite condenar o movimento dissidente como raskol (cisma), o que sujeita seus membros à morte na fogueira. A repressão que se segue leva muitos raskolnikii ao suicídio, como forma de protesto. Em 1676, cerca de 20 mil raskolnikii são condenados à fogueira; Avvakum é queimado em 1682.

Apesar da repressão, que variou muito ao longo da história russa, o raskol nunca foi erradicado e teve várias fases. Inicialmente nele predominaram aldeões pobres do norte da Rússia. Mais tarde, passou a recrutar amplamente na classe média russa em geral. Max Weber o equipara ao calvinismo, por muitos de seus membros serem artesãos e de espírito empreendedor. É, na realidade, uma forma passiva da resistência à opressão. Hoje, mesmo após a experiência da União Soviética, os velhos crentes ainda contam com mais de 2 milhões de adeptos.
1667-1671 – Stepan Razin (1630-1671), chefe dos cossacos do Don conhecido como Stenka Razin, lidera a maior revolta camponesa do reinado de Aléxis, ocupando quase toda a área do extinto Canato de Astrakhan. Em 1670, ele proclama a “República Cossaca”, prometendo igualdade para todos e fim dos privilégios. Em seu auge, Stenka Razin chega a ter 7 mil combatentes. O levante é derrotado pelo exército czarista em janeiro de 1671 e Stenka Razin é capturado e executado. Apenas em novembro as forças do czar conseguem ocupar Astrakhan, último bastião dos rebeldes.

1676-1682 – Filho mais velho de Aléxis, Teodoro III (1661-1682) torna-se czar, mas morre seis anos depois, sem descendência. Sua sucessão provoca uma luta pelo poder na família. O irmão mais novo de Teodoro, Ivã V (1666-1696), é o seguinte na linha sucessória, mas é considerado incapaz para governar, por isso a escolha recai sobre seu meio-irmão Pedro I (1672-1725), filho do segundo casamento de Aléxis. A irmã de Ivã V, Sofia (1657-1704), não aceita a decisão e, apoiada por uma revolta dos streltsi, consegue impor uma solução intermediária: Ivã e Pedro dividem o trono, sob sua regência, já que ambos são menores de idade. Durante o governo de Sofia, Pedro não vive na corte, mas numa cidade próxima, e recebe uma educação desleixada, tendo mais convívio com soldados do que com nobres.

1686-1689 – A Rússia adere à Liga Santa, aliança formada dois anos antes pelo Sacro Império Romano-Germânico, a Comunidade Polaco-Lituana e a República de Veneza para defender a Áustria, invadida pelo Império Otomano. A Grande Guerra Turca se estenderá até 1699 e significará a perda de boa parte das possessões do Império Otomano na Europa. Em 1687 e 1689, os russos atacam a Crimeia e são derrotados. Sofia, enfraquecida pelo fracasso militar, instiga nova revolta dos streltsi na tentativa de recuperar seu poder, mas o golpe se volta contra ela, que é derrubada; a regência passa para a família de Pedro.

1696 – Com a morte de Ivã V, Pedro assume o trono sozinho. Seu governo dará a total dimensão do título samoderjaviets. É o czar que completa a obra de Ivã IV, mas agora com a determinação de transformar a Rússia numa potência ocidental. Para isso, ao longo de seu reinado faz reformas em todas as áreas: ele muda o sistema administrativo do país, submete a Igreja e cria uma frota e um exército modernos, que inaugura em 1696, quando conquista Azov numa disputa com o Império Otomano. Paralelamente, Pedro promove a modernização industrial, trazendo grande número de técnicos estrangeiros para desenvolver a construção naval, a produção de armamentos e a siderurgia. Para financiar todas as mudanças, ele aumenta impostos, um dos motivos das várias revoltas que marcam seu reinado.

1698 – Os streltsi organizam um novo levante em favor de Sofia. Pedro I suprime o levante e decide acabar com esse corpo militar de elite, que ganhara grande influência política desde sua criação por Ivã IV. O czar executa centenas de revoltosos – seus corpos são deixados a apodrecer nas ruas de Moscou – e desmantela seus regimentos. A função dos streltsi como guarda pessoal dos czares passa a ser desempenhada pelos regimentos da Guarda Imperial Preobrajensky e Semionovsky, criados a partir do recrutamento de servos.

1699 – Criação do exército permanente, baseado na conscrição de servos (um conscrito de cada 20 servos) e na conscrição universal dos nobres, que substitui o velho exército criado por Ivã IV, composto por tropas fornecidas pelos pomieshchikii e pelas milícias dos boiardos. Esse exército é completado por homens livres voluntários e pelos cossacos do Don, que se tornam vassalos de Pedro I na disputa das estepes do sul com o Império Otomano. Eles obtêm a garantia da posse de suas terras em troca do serviço militar e constituem uma cavalaria boa e barata (os cavalos são deles). Quando não estão em missão de guerra, permanecem estacionados nos confins do império, onde funcionam como guarda de fronteira – mais tarde, no século 19, quando as fronteiras com as nações islâmicas do Cáucaso e da Ásia Central se tornam linhas divisórias internas, os cossacos tomarão gosto pelo papel de cães de guarda de povos não russos. No mesmo ano, Pedro I promove a reforma do calendário, que não é mais datado da criação do mundo (a contagem estava no 7.208º ano), como o fora em Constantinopla, mas sim do início da era cristã, como no Ocidente; e o começo do ano passa ser em janeiro, e não mais em setembro, como na tradição bizantina. Mas é adotado o calendário juliano, o que dá um atraso de dez dias (naquela data) em relação ao calendário gregoriano usado no Ocidente.

1700-1705 – Uma aliança entre Rússia, Dinamarca, Polônia e Saxônia dá início à longa Grande Guerra do Norte, contra o domínio da Suécia sobre o mar Báltico. Pedro I busca recuperar os territórios perdidos em 1617 e, com isso, uma saída direta da Rússia para o Báltico. Em 1703, conquista a área em torno da desembocadura do rio Neva e inicia a construção de São Petersburgo, aos moldes das cidades ocidentais mais modernas da época. O impulso modernizador do czar chega a detalhes comportamentais, como ordenar que todos os nobres, funcionários da corte e comerciantes cortem suas longas barbas ou paguem um imposto anual de cem rublos para mantê-las e troquem as roupas tradicionais russas por trajes de corte francês. Na entrada das cidades são afixados cartazes com imagens das roupas permitidas. Quem estiver com roupas tradicionais russas será abordado por soldados e precisará pagar uma taxa ou ter sua roupa cortada da altura dos joelhos para baixo.

1705-1708 – Cossacos do Don e camponeses se rebelam em Astrakhan contra os repetidos recrutamentos, programas de trabalho forçado e impostos opressivos. A decisão do czar de enviar tropas para a região em busca de servos fugidos, vista pelos cossacos como uma ameaça à sua autonomia, amplia a revolta em 1707, sob o comando do atamã Kondraty Bulavin (1660-1708), que ganha a adesão de povos oprimidos não russos, como bashkires e tártaros. Tropas russas reprimem brutalmente o movimento e Bulavin é morto.

1708-1709 – Atamã dos cossacos do Zaporoje desde 1687, Ivan Mazepa (1639-1709) lidera uma revolta, acusando Pedro I de desrespeitar o tratado de 1654. O movimento é consequência da hetmanchtchina, a política de cassação das liberdades da liderança tradicional cossaca iniciada pelo czar Aléxis I em 1667. O exército derrota Mazepa, que foge para o Império Otomano. Em 1709, os russos tomam a capital do Zaporoje, Baturyn, que é destruída, e massacram cerca de 7 mil habitantes. Em 1722, o czar suprimirá o direito dos cossacos zaporojes de eleger seu atamã e o Zaporoje autônomo será reduzido a uma província russa, a Ucrânia.

1711 – Supressão da Duma dos boiardos, consequência lógica de sua inutilidade enquanto representação de interesses boiardos, evidenciada por sua subserviência em 1625.

1712 – Mudança da capital para São Petersburgo, porto voltado para o Ocidente. Pedro I passa todo o comércio com a Europa para São Petersburgo, substituindo a rota de Arcangel.

1714 – Extinção das terras de votchina e conversão de todas as terras dos boiardos em pomiestie. Desta vez não há resistência. A decadência da nobreza tradicional russa já está consumada.

1720-1721 – Pedro I assume o controle da Igreja russa a partir de uma série de reformas que incluem a abolição do Patriarcado de Moscou e sua substituição por um órgão estatal, o Santíssimo Sínodo Governante – situação que vai perdurar até a Revolução de 1917. O czar também aumenta a opressão sobre os velhos crentes, que são obrigados a usar vestimentas específicas e pagar um imposto extra. No fim de 1721, a Rússia vence a Grande Guerra do Norte e conquista os territórios bálticos da Suécia, firmando-se como a nova potência marítima do norte. Com a vitória, Pedro I muda o nome do país para Império Russo e se proclama imperador.

1721 – O avanço da siderurgia faz da Rússia um país exportador de ferro, graças à disponibilidade de florestas para fornecimento de carvão. Para que não falte mão de obra às novas indústrias, o czar realiza em 1721 a reforma do sistema servil, transformando a sujeição baseada na servidão da terra (instaurada com a supressão do direito de partida) em servidão direta ao senhor, que passa a ter o direito de deslocar seus servos para qualquer lugar, tratando-os como sua propriedade. A redução dos direitos dos servos a zero é a base de toda a modernização da Rússia, pois disponibiliza uma mão de obra praticamente gratuita: o serviço em fábricas e construções é considerado como barshchina, ou seja, o trabalho devido pelo servo no campo de seu senhor (um tipo de corveia), o que significa que não é necessário pagar salários por ele.

Com a reforma servil desaparece a última característica comum da sociedade russa com o feudalismo ocidental. Tanto no Ocidente como na Rússia, a relação original senhor-servo continha certa reciprocidade: servo era o homem comum, que não devia a terra ao senhor, mas apenas tributo em meios de subsistência e serviços, teoricamente em troca da proteção recebida. Era o tempo em que se dava aos camponeses russos o tratamento expresso pelo termo liudi (gente, homens comuns). Essa relação começara a ser demolida sob Ivã IV, com o fim do direito camponês de ausentar-se da terra. Desde então, o servo já é krepostnoi, termo que também significa sujeição pessoal. Mas Pedro I vai além e reduz os direitos dos servos a zero; estes podem até ser vendidos ou comprados, legalmente. No Ocidente, os servos perderam muitas liberdades a partir do século 14, e mais ainda após o desfecho autoritário das guerras de religião em 1648, mas nunca foram rebaixados a esse ponto. Aliás, o texto da reforma russa assemelha a relação do servo com o senhor à do escravo (rab), o que é expresso pela língua russa, cujo termo rabota significa simplesmente trabalho, seja de escravo ou de homem livre. Parece paradoxal que justamente a introdução dos costumes ocidentais na Rússia tenha favorecido o aprofundamento do despotismo bizantino. Superficialmente, pode-se explicar isso com a exposição histórica de inúmeras modernizações técnicas e administrativas que acentuaram ou deram sobrevida a regimes autoritários. No caso da Rússia, porém, há uma cisão da sociedade em dois estratos fortemente distanciados: um superior, de origem nobre ou burguesa, que se localiza principalmente nas grandes cidades, vive de atividades administrativas ou comerciais, paga poucos tributos e é cada vez mais influenciado por ideias e costumes ocidentais; e um estrato inferior, recalcado na velha aldeia bizantina, em estado de servidão ou com poucos direitos civis, e arcando com 90% da receita fiscal do Estado. A elite deste estrato inferior é constituída pelos velhos crentes, que o czar, percebendo que não pode extirpar, tributa em dobro. Nessa ocasião, a força do raskol se manifesta na afirmação da velha crença, apesar do ônus fiscal, inclusive por artesãos das cidades.
1722 – A nobreza tradicional russa sofre o golpe final com a promulgação da Tabela de Patentes, que a integra numa hierarquia de 13 graduações militares e 14 civis, como um simples corpo de funcionários. As graduações mais baixas deixam de ser hereditárias e são equiparadas a meros postos funcionais.

1723 – Fim do sistema de manufaturas estatais, incluindo os estaleiros que fizeram da Rússia a maior potência naval do mar Báltico, as siderúrgicas e as fábricas de canhões e fuzis. As manufaturas estatais são ofertadas a particulares, que também podem abrir novas fábricas. O czar, que em tudo imita o Ocidente, quer fomentar a criação de uma burguesia manufatureira semelhante à da Holanda.

Mas Pedro I não tenta reproduzir no campo as relações sociais vigentes na Holanda. O resultado dessa omissão é o desenvolvimento de uma nobreza industrial, e não de uma burguesia industrial na Rússia. Isso porque só a nobreza dispunha de mão de obra abundante, uma vez que, sob a nova legislação servil, podia transferir seus servos para onde quisesse, ao passo que os burgueses das cidades interessados em montar fábricas não tinham como forçar os artesãos urbanos a aceitar o nível de vida que os nobres impunham a seus servos. É por esta razão que uma classe industrial burguesa só começará a se desenvolver a partir da “semiabolição” da servidão em 1861, muito lentamente e bastante dependente de contratos do Estado, dada a pobreza do mercado interno para manufaturados. A industrialização russa iniciada pelo czar também não segue o modelo do Ocidente: em vez de criar um mercado de trabalho a partir da transformação de camponeses sem terras em assalariados livres, agrava e amplia a servidão. Durante o século 18 os servos passam de 40% para 50% da população russa.
1725-1762 – Depois da morte de Pedro I, a Rússia tem nada menos que seis governantes em menos de 40 anos. Catarina I (1684-1727), segunda mulher de Pedro I, o sucede, mas morre dois anos depois. Sua maior distinção é ter sido a primeira mulher a governar o império. Pedro II (1715-1730), neto de Pedro I, é proclamado czar aos 12 anos de idade e morre aos 15 anos. Ana (1693-1740), filha de Ivã V, é escolhida para substituí-lo. A rápida sucessão de governantes favorece as intrigas na corte e fortalece a nobreza. Ana privilegia os nobres de várias formas: em 1730, abole a lei da primogenitura, que os impedia de dividir suas propriedades entre todos os filhos; no ano seguinte, entrega à nobreza a função de recolher os impostos de seus servos e funda a academia militar, cujos estudantes vão ocupar postos superiores no exército e na burocracia, evitando as promoções nas fileiras; em 1736, o serviço militar obrigatório passa de vitalício para 25 anos e, caso o pai tenha vários filhos, um está desobrigado do serviço militar para se encarregar das propriedades da família. Antes de morrer, Ana declara como seu sucessor Ivã VI (1740-1764), seu sobrinho de apenas dois meses de idade. Treze meses depois, Isabel (1709-1762), filha de Pedro I, dá um golpe de Estado com ajuda do regimento Preobrajensky e assume o trono. No seu reinado, também favorece os nobres, que aumentam seu poder nos governos locais. Sem filhos, como Ana, Isabel escolhe seu sobrinho Pedro III (1728-1762) como sucessor em 1742.

Estes 37 anos de governos conturbados não enfraquecem a posição da Rússia como potência europeia. Muito pelo contrário, em todas as guerras e negócios diplomáticos do século 18 (a Guerra dos Sete Anos, as guerras com o Império Otomano e a partilha da Comunidade Polaco-Lituana, entre outros), a Rússia aumenta sua influência.
1762 – Com a morte de Isabel, Pedro III torna-se czar e imediatamente conquista a oposição da nobreza pelas políticas de aproximação com a Prússia e a favor da difusão do protestantismo. Seis meses depois, instigado por sua mulher, Catarina II (1729-1796), um golpe de Estado dos regimentos da Guarda Imperial o força a abdicar. Pedro III é preso e morre em seguida. O trono é ocupado por Catarina II, a “déspota esclarecida” da Rússia, que viverá a Revolução Francesa. Nascida Sophie von Anhalt-Zerbst (muda de nome ao casar-se e converter-se), ela leva ao último grau o despotismo bizantino inaugurado por Ivã IV, ao mesmo tempo em que completa a ocidentalização de todas as cidades importantes da Rússia, iniciada por Pedro I. Concede vários privilégios à nobreza, incluindo a liberação do serviço militar obrigatório, e faz reformas para homogeneizar a administração do império, criando as bases para a política de russificação que se tornará um marco de seus sucessores. Catarina II desenvolve uma política de expansão agressiva, conquistando territórios à custa da Polônia e do Império Otomano. Também é a czarina que elimina definitivamente as regiões autônomas de cossacos no sul e introduz o sistema russo de servidão na Ucrânia e na Crimeia.

1763 – Catarina II entra em conflito com o clero, que se contrapõe a suas ideias “iluministas”. O resultado é a secularização dos bens da Igreja Ortodoxa, o que transforma 900 mil servos do clero em servos do Estado.

1768-1774 – O Império Otomano declara guerra à Rússia, mas não consegue sustentar a campanha, em que Catarina II conta com a ajuda inglesa, principalmente para levar sua frota pelo mar Mediterrâneo. Já em decadência, assim como os demais Estados orientais, sufocados economicamente pela dominação europeia dos mares, o Império Otomano é derrotado e tem que ceder territórios no Dnieper, no Cáucaso e no mar Negro. Pelo Tratado de Kuchuk-Kainardji, de 1774, a Rússia recupera Azov, perdida em 1711, e anexa Kerch e a fortaleza de Yeni Kale, com o que consegue finalmente estabelecer portos no mar Negro e garantir sua livre navegação e passagem pelos estreitos do Bósforo e do Dardanelos. Além de perder a hegemonia marítima na área, o Império Otomano perde também a soberania sobre a Crimeia, que se torna um Estado independente, mas já sob forte influência russa.

1772 – Primeira Partilha da Polônia. Rússia, Prússia e Áustria fecham acordo para dividir parte da Comunidade Polaco-Lituana, que perdera influência no plano europeu, enfraquecida por sucessivas disputas internas. Usando como pretexto a guerra civil que nobres travam contra o governo, protegido da Rússia, tropas dos três países invadem a comunidade e ocupam os territórios que cada um pretende anexar. A resistência dos nobres rebeldes dura pouco menos de um ano e no fim de 1773 o governo polaco-lituano se vê obrigado a endossar a ação dos invasores; nessa partilha, a Comunidade perde quase um terço de seu território original.

1773-1775 – Yemelyan Pugatchev (1742-1775) lidera a maior revolta cossaca e camponesa da história russa. Pugatchev, que alega ser o czar Pedro III e ter escapado da morte (a ressurreição de monarcas e cortesãos assassinados parece ser uma tradição na Rússia), consegue mobilizar cossacos, servos e tribos tártaras e bashkires em um exército que no seu auge chega a 40 mil homens e ocupa a maior parte do território entre o rio Volga e os montes Urais. Ele instala um governo alternativo, decreta o fim da servidão e promete autonomia e restauração de direitos para as minorias étnicas. Comprometida com a guerra contra o Império Otomano, Catarina II só consegue reunir tropas suficientes para debelar a revolta no fim de 1774. Depois da destruição da fortaleza de Stich, centro político dos cossacos do Zaporoje, onde se refugiavam os rebeldes, Pugatchev é capturado e executado em janeiro de 1775. Catarina II não se limita a punir o líder rebelde. Ela renomeia todos os lugares ocupados pelos insurgentes – é quando o rio Yaik ganha seu nome atual, Ural – e suprime ainda mais privilégios dos cossacos, que serão expulsos de suas terras e gradualmente assentados em outras regiões de fronteira do império. A Ucrânia perde o que lhe resta de autonomia e sua nobreza é em parte eliminada, em parte assimilada à nobreza de serviço russa.

Tropas russas são mantidas na Crimeia mesmo após a paz com os otomanos por causa dessa revolta, que Trotsky apresenta como expressão de um processo comparável ao da Revolução Francesa no campo. Comparar é sempre possível, mas Pugatchev começou sua carreira dissidente como raskolnik, do mesmo modo que muitos líderes de revoltas camponesas. E isso significa que ele é também expressão das aspirações dos camponeses contra o despotismo, que os rebaixa ao nível de escravos.
1783 – A Rússia anexa a Crimeia, medida que considera necessária para a defesa de seu sistema servil, abalado pelas revoltas de cossacos e camponeses que se serviam desse território como refúgio. Catarina II enfrenta mais de 50 revoltas em seu reinado, entre as quais se destacam, além da de Pugatchev, as da Ucrânia em 1734, 1750 e 1768, as dos cossacos do Ural em 1766 e 1771, e a dos camponeses exilados para a Sibéria em 1772 (a czarina adotara o exílio como política de colonização dessa região). A partir de 1783, com as revoltas camponesas já esmagadas e a velha área de fuga dos servos ocupada, Catarina introduz a servidão, modelo russo, na Ucrânia e na Crimeia. Para os ucranianos e os tártaros da Crimeia, o despotismo “asiático” veio da Europa.

1787-1792 – O Império Otomano declara guerra à Rússia, que acusa de desrespeitar o Tratado de Kuchuk-Kainardji ao anexar a Crimeia. A campanha é um desastre para os turcos, que acabam derrotados e são obrigados não só a reconhecer a posse da Rússia sobre a Crimeia como a ceder a costa norte do mar Negro de Kerch até a foz do rio Dniester.

1791-1795 – A Comunidade Polaco-Lituana aprova em 1791 uma Constituição inspirada na Revolução Francesa. Nobres que se opõem às reformas pedem a intervenção da Rússia, que invade o país em 1792. A guerra tem curta duração, principalmente depois que a Prússia se junta aos russos; a Comunidade tem sua Constituição revogada em 1793 e perde metade da área que lhe restava, quase toda açambarcada pela Rússia, no que é conhecida como a Segunda Partilha da Polônia. Um ano depois, os poloneses se insurgem contra os invasores, mas são derrotados. Rússia, Prússia e Áustria fecham um acordo para dividir a Comunidade entre si, acabando com sua existência como país – é a Terceira Partilha da Polônia. As guerras de Catarina II adicionam à Rússia 518 mil quilômetros quadrados.

Mais do que isso, é Catarina II quem introduz plenamente a Rússia no jogo de poder europeu, colocando nele o peso de sua massa de soldados e cavaleiros contra a Revolução Francesa, que depois seus sucessores porão à disposição do absolutismo monárquico da Santa Aliança (criada com Áustria e Prússia em 1815), que será, assim, salva de uma derrota decisiva nos movimentos revolucionários de 1848-1849.
1796-1801 – Paulo I (1754-1801) assume o poder e suspende todas as ações militares em curso, em oposição às políticas expansionistas da mãe. Em 1798, porém, frente ao avanço das forças de Napoleão Bonaparte na Europa, organiza com a Áustria a Segunda Coalizão, que inclui Inglaterra, Império Otomano, Portugal, Nápoles e os Estados Papais. Essa coalizão acumula derrotas e Paulo I a deixa em 1799, rompendo com a Inglaterra e aproximando-se de Napoleão. No ano seguinte, Rússia, Prússia, Suécia e Dinamarca formam a aliança conhecida como Neutralidade Armada e congelam o comércio do Báltico com a Inglaterra, que reage atacando a Dinamarca e enviando sua frota contra São Petersburgo. O confronto não chega a ocorrer: uma conspiração de nobres russos, irritados com reformas que retiram alguns de seus privilégios e com a perda do mercado inglês – o principal destino de produtos como madeira, linho e cânhamo –, culmina no assassinato de Paulo I, e seu sucessor, Alexandre I (1777-1825), apressa-se a abrir negociações de paz.

1801-1807 – Logo no início de seu governo, Alexandre I faz as pazes não só com a Inglaterra como com Napoleão. Mas o segundo acordo tem vida curta, pois a Rússia toma parte na Terceira Coalizão contra a França, formada em 1805 com Inglaterra, Áustria e Suécia, e na Quarta Coalizão, no ano seguinte, que inclui a Prússia. Derrotado em 1807, Alexandre I assina novo tratado de paz em Tilsit, pelo qual perde todas as suas vantagens na Polônia (Napoleão cria em seu lugar o Ducado de Varsóvia).

1806-1812 – Encorajado pelas derrotas impostas pelas forças napoleônicas aos russos, o Império Otomano volta a declarar guerra. O Tratado de Tilsit com a França força uma trégua entre os dois países até 1810, quando o confronto é retomado. Os otomanos são derrotados dois anos depois e obrigados a ceder a Bessarábia a Alexandre I.

1812-1815 – Napoleão invade a Rússia. Suas tropas avançam quase sem resistência até Borodino, a 125 quilômetros de Moscou, onde se trava uma das piores batalhas das Guerras Napoleônicas. Os russos se retiram e evacuam Moscou, que as forças francesas ocupam sem com isso conseguir a capitulação de Alexandre I. Napoleão acaba tomando a decisão de recuar e, a partir daí, a campanha russa torna-se uma catástrofe para os franceses, sem víveres, castigados pelo começo do inverno e por ataques russos. A derrota marca uma mudança de rumo nas Guerras Napoleônicas e abre caminho para a primeira derrota de Napoleão, em 1814. Para a Rússia, significa sua integração definitiva à política europeia. No Congresso de Viena, realizado em 1815 para reorganizar a Europa, ela tem papel proeminente na criação e condução da Santa Aliança. Também fica com a maior parte do território do Ducado de Varsóvia, que é extinto – a nova possessão é batizada de Reino da Polônia ou Polônia do Congresso.

1816-1821 – Oficiais de famílias aristocráticas formam a União de Salvação (Soyuz spaseniya) em São Petersburgo, com os objetivos de abolir a servidão e instaurar um regime constitucional. Essa organização, assim como sua sucessora, a União da Prosperidade (Soyuz blagodenstviya), criada em 1818, e outras que surgiram na época são consideradas pelos historiadores como precursoras dos dezembristas, o movimento constitucionalista de membros da aristocracia e parte da burguesia, basicamente oficiais do exército, influenciados pelas ideias da Revolução Francesa.

1825 – Com a morte de Alexandre I, os dezembristas tentam dar um golpe militar para impedir a posse de seu irmão Nicolau I (1796-1855); em seu manifesto, reivindicam a abolição da autocracia e a eleição de uma Assembleia Geral para determinar uma nova forma de governo. A revolta é suprimida e seus líderes são presos e condenados à morte ou à prisão perpétua. É a primeira revolta constitucionalista na Europa depois da restauração que se seguiu à derrota da Revolução Francesa. Não se trata de precocidade da burguesia russa, pois o mal organizado movimento é dirigido por nobres industrialistas ocidentalizados, desejosos de uma modernização do sistema político, que, após a queda de Napoleão, se tornara sufocante ao extremo graças ao zelo conservador que fizera de Alexandre o sustentáculo principal da Santa Aliança.

1825-1855 – Talvez como reação à tentativa de golpe, o conservador Nicolau I faz um governo caracterizado pela repressão, com uma política intensiva de censura e controle da população. O aumento da opressão provoca uma onda de revoltas camponesas: o registro oficial é de 712 insurreições entre 1826 e 1854. Na Europa, Nicolau I reforça o papel da Rússia como braço armado da Santa Aliança, enviando soldados para reprimir as revoluções liberais de 1830 e 1848-1849 em vários países, pelo que ganhou o apelido de gendarme da Europa. No Oriente, retoma a política expansionista, arrancando do Irã seus últimos territórios no Cáucaso entre 1826 e 1828. Na Guerra Russo-Turca de 1828-1829 conquista a maior parte da costa oriental do Mar Negro e a região da foz do rio Danúbio. Também obriga o Império Otomano a reconhecer sua soberania sobre a Geórgia e partes da Armênia, aceitar que a Moldávia e a Valáquia (na atual Romênia) se tornem seus protetorados e dar autonomia à Sérvia.

1830-1831 – Nicolau I anula liberdades constitucionais no Reino da Polônia e reduz sua autonomia, o que leva à Revolução de Novembro e à formação de um governo provisório independente. Os poloneses resistem por um ano às tropas do czar, mas acabam derrotados. Segue-se dura repressão: a Constituição é revogada e o Reino da Polônia rebaixado à condição de uma simples província russa, mais de 60 mil nobres perdem seus títulos e os católicos passam a sofrer perseguições.

1853-1856 – Uma série de disputas diplomáticas não resolvidas sobre os direitos dos cristãos ortodoxos no Império Otomano leva Nicolau I a invadir a Moldávia e a Valáquia. Os otomanos vão à guerra, mas são derrotados e têm sua frota destruída. Reino Unido, França e Sardenha formam uma aliança de apoio ao Império Otomano e em 1854 atacam as tropas russas na península da Crimeia. Em outubro, sitiam o porto de Sebastopol, sede da frota russa no mar Negro, que cai 11 meses depois, marcando o fim da Guerra da Crimeia. Nicolau I morre antes disso e é seu filho e sucessor, Alexandre II (1818-1881), quem assina o tratado de paz, em março de 1856, pelo qual a Rússia tem que devolver os territórios conquistados e renunciar a qualquer pretensão sobre os Bálcãs, além de ser proibida de manter bases ou forças navais no mar Negro.

1855-1861 – O governo de Alexandre II se caracteriza pelo abrandamento das políticas repressivas. Ele liberta os exilados dezembristas sobreviventes, revisa as leis de censura, perdoa impostos em atraso e faz várias reformas liberais.

1861 – Alexandre II aprova a emancipação dos servos, razão pela qual os bajuladores o chamam de “o libertador”. A “libertação” não é espontânea: entre 1855 e 1861 ocorrem nada menos que 80 levantes camponeses; nem gratuita, pois os camponeses se tornam “dependentes temporários”, como devedores de resgate por meio século. A emancipação prevê a distribuição de terras entre os servos libertos, pois a preocupação do czar é evitar o risco de uma comoção social com o surgimento de uma imensa massa de pessoas sem terras e miserável. E a “solução” encontrada para compensar os grandes proprietários na prática obriga o camponês a pagar por sua libertação: o Estado dá o dinheiro das terras aos grandes proprietários como uma espécie de adiantamento que os ex-servos têm de lhe devolver ao longo de 49 anos, com juros.

1863-1864 – Os poloneses iniciam um segundo levante contra a dominação russa. Derrotados depois de pouco mais de um ano, sofrem represálias violentas, incluindo a destruição de vilas inteiras, deportações em massa, enforcamentos, novos confiscos de terras e a imposição de tributos exorbitantes. O ensino da língua polonesa é proibido, assim como seu uso em locais públicos. As escolas também são proibidas de ensinar a história da Polônia.

1864 – Como parte de sua reformas liberais, Alexandre II cria os Zemstvos, uma forma de autogoverno de distritos rurais e províncias com poder para decidir questões econômicas locais, como impostos, organização de escolas e serviços médicos, manutenção de estradas, distribuição de alimentos, etc. Seus membros são eleitos por voto censitário, o que dá o controle aos nobres, grandes proprietários de terras. Além deles, os Zemstvos têm representantes de pequenos proprietários, burgueses ricos, comerciantes, artesãos e camponeses.

1867 – A Rússia vende o Alasca aos Estados Unidos.

1874-1879 – Com a emancipação dos servos, os narodnikii – membros das classes altas e médias urbanas da Rússia influenciados pelas ideias iluministas e socialistas do Ocidente – iniciam um movimento que fica conhecido por “ir ao povo” (khojdenie v narod). Eles se deslocam para as aldeias e buscam se aproximar de sua realidade com o intuito de mobilizar e organizar os camponeses. A campanha fracassa e a perseguição da polícia secreta czarista, a Okhrana, leva os grupos narodnikii à clandestinidade e a se unir na Zemlia i Volia (Terra e Liberdade) em 1876. Essa organização se cinde em 1879, dando origem à Narodnaia Volia (Vontade do Povo), adepta do terror como forma de luta, e à Tchorni Peredel (Partilha Negra), que prioriza a propaganda e a mobilização popular.

1881 – Alexandre II é assassinado por integrantes da Narodnaia Volia, no quarto atentado do grupo contra ele. Seu segundo filho, Alexandre III (1845-1894), torna-se czar. Extremamente conservador, reverte várias reformas liberais feitas por seu pai, intensifica a censura, dá novos poderes à Okhrana e reforça a política de russificação, tornando obrigatório o ensino e o uso da língua russa em todo o império e perseguindo minorias étnicas.

1883 – Dirigentes da Tchorni Peredel, Georgi Plekhanov (1856-1918), Vera Zasulitch (1849-1919), Pavel Axelrod (1850-1928) e Leo Deutsch (1855-1941), já no exílio em Genebra, se aproximam do marxismo e fundam o grupo Osvobozhdenie Trudá (Emancipação do Trabalho). Esse grupo participará de atividades da 2ª Internacional e será a base para a formação do Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR).

1885-1892 – O governo passa a receber grande volume de recursos do exterior, principalmente de investidores franceses, ingleses e alemães. Com isso, financia seu desenvolvimento industrial, embora este não chegue aos níveis da Europa industrializada. A produção de carvão, ferro e petróleo triplica entre 1890 e 1900, e o número de ferrovias mais do que dobra – em 1891 começa a construção da Ferrovia Transiberiana, que vai ligar Moscou a Vladivostok. A mão de obra fabril e urbana cresce no mesmo ritmo acelerado. Entre 1885 e 1886, as péssimas condições de trabalho motivam uma onda de greves, centrada na indústria têxtil – a mais famosa é a da tecelagem Morozov, nas cercanias de Moscou, que paralisa 8 mil trabalhadores por dez dias e leva à prisão mais de 600 grevistas. Apesar da repressão, o movimento é forte o suficiente para garantir algumas mudanças, como a abolição do trabalho noturno de mulheres e crianças e a proibição de que crianças com menos de 12 anos trabalhem em minas.

É a partir do reinado de Alexandre III que o movimento operário russo adquire importância política real, acompanhando o desenvolvimento industrial patrocinado pelo Estado, já metido no “grande jogo” interimperialista pela dominação da Ásia. Não é casual que a 2ª Internacional comece a se organizar na Rússia durante os anos 1880 e influencie até os movimentos anarquistas, o que decorre do fato de que todos os movimentos revolucionários russos têm base social urbana influenciada pelo Ocidente. O operariado russo se defronta com uma burguesia fortemente ligada ao sistema de dominação czarista. Parte dela provém da nobreza de serviço passada às atividades industriais e seu conjunto ainda vive um estágio capitalista primitivo, dependente da miséria camponesa para dispor de mão de obra e do Estado para garantir contratos e insumos, provenientes de áreas submetidas pelo Império Russo. É, portanto, uma burguesia antes de tudo czarista, embora em parte não absolutista, desejosa de uma Constituição que lhe permita influir na escolha do governo, como na Alemanha e na Áustria. Mas, por sua ligação com o czarismo, é uma classe sem capacidade de fazer concessões ao movimento operário ascendente, a não ser que tal ascensão se dê muito lentamente.
1889-1890 – Alexandre III toma medidas para enfraquecer e controlar os Zemstvos. Entre elas, cria o posto de zemski nachalnik (capitão ou comandante da terra). Esses funcionários, de origem nobre, são encarregados de supervisionar o trabalho dos conselhos, com poderes para reverter decisões e determinar punições. Em 1890, os camponeses perdem o direito a eleger seus representantes: eles podem sugerir nomes, mas a escolha é prerrogativa da direção dos Zemstvos, ou seja, dos grandes proprietários. No mesmo ano, uma nova lei estipula que qualquer decisão de um Zemstvo só é válida se aprovada pelo governador de sua província.

1894 – Nicolau II (1868-1918) assume o trono e mantém a linha conservadora do pai, aumentando a censura e a repressão a movimentos sociais e operários. Mas é no seu governo que os anseios de maior representação política estouram, mesmo com as dificuldades impostas pelo veto à criação de partidos e sindicatos. A burguesia e parte dos nobres liberais se reúnem em torno dos Zemstvos e reivindicam uma monarquia constitucional na qual tenham mais voz. Do lado dos trabalhadores, as manifestações e greves se intensificam rapidamente. Surgem várias organizações clandestinas e pequenos círculos socialistas que, ao longo do reinado de Nicolau II, ganham força, se unem e acabam por formar os principais partidos operários russos.

1895-1897 – Círculos socialistas de São Petersburgo criam a União de Luta pela Emancipação da Classe Operária, organizada por Vladimir Ilitch Ulianov (1870-1924), que se tornará conhecido como Lenin, Julius Martov (1873-1923) e Aleksandr Potresov (1869-1934) – pouco depois, eles são presos e deportados para a Sibéria. Em 1897, é formada a União Geral dos Trabalhadores Judeus (Bund), o único grupo marxista de alcance nacional. Nesse mesmo ano, o governo, pressionado, estabelece limites para a jornada de trabalho, de 11 horas e meia durante o dia e de 10 horas à noite.

1898 – Representantes do Bund e das Uniões de Luta de São Petersburgo, Moscou, Kiev e Ekaterinoslav se reúnem no 1º Congresso do Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR): fundam o partido, redigem seus estatutos e escolhem um comitê central. No encerramento do encontro, são todos presos. O POSDR nesse momento é mais o símbolo de uma luta comum de organizações que funcionam de forma independente do que um partido propriamente.

1899-1901 – Durante a Revolta dos Boxers, na China, tropas russas ocupam o sul da Manchúria. Nas negociações de paz, a Rússia recusa-se a devolver o território à China e em seguida transfere sua frota do Pacífico para lá, em Port Arthur, na península entre a Coreia e a China. O Japão exige que a Rússia volte atrás, pois vê na ocupação uma ameaça à sua soberania na região, e seguem-se mais de dois anos de negociações, sem resultado.

1899 – Estudantes das principais universidades do país fazem greve entre fevereiro e março. Em julho, o governo decreta “regras temporárias” que permitem a conscrição imediata no exército de estudantes envolvidos em manifestações.

1900 – Libertados, Lenin, Martov e Potresov vão para a Suíça. A União de Luta pela Emancipação da Classe Operária e o grupo Emancipação do Trabalho fundam o jornal Iskra (Faísca), onde apresentam não só discussões políticas, como um programa marxista e um plano de ação para as organizações clandestinas da Rússia. O jornal é publicado no exterior e reimpresso clandestinamente em gráficas locais na Rússia.

1901 – Fundação do Partido Socialista Revolucionário (SR), herdeiro do movimento narodnik, que propõe a realização do socialismo a partir da revolução camponesa. Seu programa prevê a socialização da terra e isso lhe dá muita influência entre os camponeses, que formam sua base. O partido, cujo principal líder é Viktor Chernov (1873-1952), também atrai setores importantes da pequena burguesia e tem um crescimento rápido, principalmente a partir de 1905.

O POSDR e o SR nascem da mesma aspiração geral (igualdade do povo, o que exigia a entrega da terra aos camponeses) e da mesma camada social (a intelligentsia urbana e ocidentalizada). Mas seu movimento foi inexoravelmente levado a separar-se em duas correntes, que correspondiam à divisão da sociedade russa em um estrato urbano, sensível às ideias do Ocidente, e um estrato rural, afundado na terra bizantina escravizada. E as lideranças de ambas só poderiam vir das cidades, a maioria sendo atraída para a luta pela libertação do campesinato “profundo”, mas nela introduzindo elementos do movimento socialista alemão, e a minoria integrada na 2ª Internacional e estreitamente ligada ao Partido Social-Democrata Alemão. Isso dá a verdadeira dimensão do que Lenin queria dizer quando falava em direção revolucionária “vinda de fora”, apesar de sua racionalização teórica.
1901-1902 – O ministro da Educação, Nikolai Bogolepov (1846-1901), determina a conscrição de 183 estudantes da Universidade de Kiev, participantes de um protesto contra a expulsão de três colegas. Um mês depois, ele é assassinado por militantes SRs. Sergei Zubatov (1864-1917), diretor da seção moscovita da Okhrana, cria os primeiros sindicatos legais pró-governo, financiados pela polícia, com o objetivo de controlar o movimento operário, prática que ganha a pecha de “socialismo policial”. Em 1902, SRs assassinam Dimitri Sipiagin (1853-1902), ministro do Interior desde 1899. Ele é substituído por Vyacheslav von Plehve (1846-1904), chefe da polícia, que será um dos ministros mais influentes do reinado de Nicolau II.

1903 – O Partido Operário Social-Democrata Russo faz seu segundo congresso, em Bruxelas e depois em Londres. Lenin e Martov divergem em relação a organização, táticas e estratégias, o que acaba dividindo o partido: num certo momento do congresso, a fração leninista consegue a maioria dos delegados e por isso se denomina bolchevique (maioria em russo) e à fração minoritária, liderada por Martov, de menchevique (minoria). A controvérsia, embora gire sobre questões menores, se aprofundará nos anos seguintes até levar a uma separação definitiva. Os mencheviques apegam-se à ideia de que primeiro é preciso que ocorra a revolução democrático-burguesa e só depois a socialista e proletária; eles não aceitam a proposição de Lenin, lançada já em 1898, de que há um laço inseparável entre as duas etapas. Nesse mesmo ano, o padre Georgiy Gapon (1870-1906) funda a Assembleia de Operários das Fábricas da Rússia, com aprovação do governo. O sindicato, apesar de suas limitações e da falta de independência, torna-se bastante popular. Segundo o historiador Richard Pipes, no fim de 1904, já conta com 11 mil membros.

A Revolução de 1905
1904-1905 – Forças japonesas atacam a base naval russa de Port Arthur, como consequência do impasse sobre a Manchúria, dando início à Guerra Russo-Japonesa. Desde os primeiros meses, a Rússia sofre pesadas derrotas, uma após a outra. Port Arthur é sitiada e os japoneses montam uma barreira no mar, bloqueando a saída dos navios russos. A campanha se arrasta até o fim de 1904, quando a base se rende aos japoneses. Ainda em outubro, Nicolau II envia a frota do Báltico, que faz uma viagem de mais de seis meses para chegar à área dos combates, apenas para ser derrotada fragorosamente em maio de 1905, na batalha de Tsushima. Em menos de um ano, a Rússia perde toda a frota do Pacífico e quase toda a do Báltico e se vê obrigada a fazer um acordo de paz humilhante em setembro de 1905: tem que retirar suas tropas da Manchúria, devolver a parte sul à China e ceder não só Port Arthur como suas concessões e ferrovias no sul ao Japão. Para se rearmar, precisa contrair empréstimos que agravam a situação da economia, já arruinada pela guerra.

1904 – A guerra tem forte impacto sobre a economia, levando à alta dos preços e à escassez de alimentos. O descontentamento com a situação cresce com a sucessão de derrotas na Manchúria e a agitação social aumenta. O czar faz algumas concessões ao longo do ano, mas são apenas simbólicas. Em junho, o governo amplia a autoridade da polícia. No mês seguinte, o ministro do Interior, Von Plehve, é morto em um atentado a bomba dos SRs. De outubro a dezembro sucedem-se greves, assim como manifestações estudantis pelo fim da guerra e por uma Assembleia Constituinte, reprimidas com violência. Os liberais iniciam uma campanha pela Constituição e em novembro o 1º Congresso Nacional dos Zemstvos aprova várias resoluções, entre as quais a proposta de instituição de um Parlamento eleito e com direito a voz na preparação do orçamento. Nicolau II devolve algumas das prerrogativas dos conselhos e promete amenizar a censura e a repressão, mas se recusa a considerar a demanda por representatividade política.

Janeiro de 1905 – Operários da usina metalúrgica Putilov, a maior de São Petersburgo, entram em greve contra a demissão de quatro colegas. Nos dias seguintes, greves de solidariedade se espalham pela capital, elevando para 150 mil o número de trabalhadores parados em 382 fábricas. As notícias da rendição de Port Arthur elevam a tensão. O ascenso do movimento operário se combina com a desmoralização do Estado imperial, responsável pelo desastre da guerra. Em 9 de janeiro (22 pelo calendário gregoriano), o padre Gapon lidera uma enorme marcha até o Palácio de Inverno para entregar uma petição ao czar por melhores condições de trabalho, o fim da guerra e a eleição de uma Assembleia Constituinte por sufrágio universal. As tropas que protegem o palácio abrem fogo contra a multidão, matando cerca de mil pessoas. O Domingo Sangrento, como fica conhecido o massacre, provoca comoção e forte reação dos trabalhadores, que organizam greves por todo o império, dando início à Revolução de 1905.

Fevereiro e março de 1905 – No fim de fevereiro, metade da força de trabalho da Rússia europeia está parada. Apesar da repressão, que deixa 130 mortos em Riga e mais de 100 feridos em Varsóvia, as greves se estendem para o Cáucaso em fevereiro e no mês seguinte para os Urais e além. As manifestações de estudantes são retomadas.

Abril de 1905 – Com a revolução, as divergências no POSDR se ampliam: as duas facções acreditam que naquele momento o que a revolução pode realizar são as tarefas democrático-burguesas, mas os mencheviques defendem a tese de que, justamente por isso, cabe à burguesia russa liderar o movimento, com apoio dos trabalhadores; já o grupo de Lenin argumenta que o operariado tem de tomar a frente e não se subordinar. A divisão se efetiva: os bolcheviques promovem um congresso exclusivo em Londres, enquanto os mencheviques se reúnem numa conferência em Genebra.

Maio de 1905 – Em 11 e 12 de maio (24 e 25 pelo calendário gregoriano) dirigentes dos Zemstvos se reúnem em Moscou e aprovam uma resolução que pede a criação de organismos de representação popular em nível nacional. No dia 24 (6 de junho), Nicolau II recebe uma comissão dos Zemstvos e promete convocar uma assembleia de representantes do povo. Nos meses seguintes, o governo faz duas propostas de criação de uma Duma (Parlamento) nacional, mas com caráter apenas consultivo. A rejeição às propostas une liberais e socialistas e serve de combustível para greves e manifestações.

Junho e julho de 1905 – Os reveses da guerra criam um clima de desmoralização e revolta nas unidades de reserva das forças armadas, principalmente na frota do mar Negro depois das notícias do desastre de Tsushima. Em 27 de junho, um protesto dos marinheiros do encouraçado Potemkin pelo uso de carne estragada em sua comida vira um motim de grandes proporções quando o capitão manda executar os queixosos. Os demais marinheiros se recusam a obedecê-lo, se amotinam e matam metade dos oficiais, tomando o encouraçado. Por 11 dias, eles enfrentam outros barcos enviados para contê-los e participam do levante em Odessa, duramente reprimido pelas tropas do governo, com um saldo de mais de 3 mil mortos. No fim, os marinheiros levam o Potemkin para a Romênia, onde se entregam e obtêm asilo.

Outubro de 1905 – Uma greve dos ferroviários paralisa os transportes, espalha-se para outras categorias em São Petersburgo e Moscou e rapidamente se transforma numa greve geral de cunho político, que reivindica a jornada de trabalho de 8 horas, liberdades democráticas, anistia e uma Assembleia Constituinte. Em poucos dias o movimento atinge todas as cidades industriais importantes, envolvendo mais de 2 milhões de operários até o fim do ano.

13 (26) de outubro – É criado o primeiro Soviete de Deputados Operários de São Petersburgo. Nos 50 dias de sua existência, é a autoridade que organiza todos os aspectos da revolução, da distribuição de alimentos à impressão de jornais e à requisição e distribuição de armas. O exemplo da capital é seguido por outras cidades e pelo menos 43 sovietes são fundados até o fim do ano.

17 (30) de outubro – Nicolau II recua ante a revolução, outorga uma Constituição e promulga concessões parciais. Seu Manifesto de Outubro prevê a criação da Duma do Estado, com poder para rejeitar leis propostas pelo governo; a ampliação do número de pessoas com direito a voto; a garantia de liberdade de expressão e de reunião, assim como de criação de partidos e sindicatos. Ao mesmo tempo, a repressão às manifestações e greves é retomada de forma brutal. Entre as promessas e as pancadas, o movimento arrefece. O manifesto satisfaz os liberais e moderados, que dão os protestos por encerrados e passam a preparar a eleição para a Duma. O Soviete de São Petersburgo e os socialistas consideram as medidas insuficientes e preparam novas ações.

18 (31) de outubro – Com o fim da proibição a partidos, é fundado o Partido Democrático Constitucional, que fica conhecido como Kadet, por causa das iniciais de seu nome em russo (Konstitutsionno-Demokraticheskaya Partiya). Liderada pelo historiador Pavel Miliukov (1859-1943), será a principal agremiação da burguesia liberal, dos nobres e de intelectuais constitucionalistas.

Outubro a dezembro de 1905 – Ao contrário do esperado pelo czar, a revolução não termina com seu manifesto. A situação no campo é explosiva, com revoltas em muitas províncias, e ocorrem vários motins de soldados e marinheiros – os mais significativos são os de Kronstadt, em 26 de outubro (8 de novembro), Vladivostok, no dia 30 (12), e Sebastopol, em 11 (24) de novembro. O governo reage com violência: sufoca os motins e decreta lei marcial nas bases navais, nas províncias de Chernigov, Saratov e Tambov e na Polônia. Para isso, usa os soldados que voltam da Guerra Russo-Japonesa. O Soviete de São Petersburgo promove uma greve geral em solidariedade, exigindo o fim da lei marcial e a libertação dos presos. Em 26 de novembro (9 de dezembro), seu presidente, Georgy Khrustalyov-Nosar (1877-1918), é preso. O Soviete continua suas atividades e em 2 (15) de dezembro publica seu manifesto financeiro, em que propõe o boicote ao sistema bancário e o não pagamento da dívida externa. No dia seguinte, a polícia prende 260 membros do Soviete, que deixa de existir. No fim do ano, os bolcheviques decidem boicotar as eleições para a Duma. Também resolvem tentar a reunificação com os mencheviques, organizando um congresso conjunto em que os delegados serão eleitos com base na plataforma que apoiarem.

Dezembro de 1905 – A revolução tem um pouco mais de alento em Moscou: no dia 7 (20) uma greve geral marca o início da insurreição e já no terceiro dia tropas do governo e trabalhadores entram em choque. Sob a direção do Soviete, os operários montam barricadas e usam táticas de guerrilha. Mas no dia 16 (29) o governo envia o regimento Semionovsky de São Petersburgo, que usa artilharia pesada e demole várias partes da cidade. Dois dias depois, o Soviete de Moscou se rende. Os combates deixam cerca de mil mortos.

A limitação da Revolução de 1905 foi seu caráter urbano. O campo praticamente não se moveu nesse momento, o que garantiu a fidelidade do exército ao czar. Os sovietes lideraram o movimento, encontrando receptividade excepcional nas camadas médias das cidades, revoltadas com a vergonhosa derrota na guerra recém-terminada. Afinal, até então o autoritarismo czarista parecia servir pelo menos para garantir à Rússia um lugar honroso no “concerto das nações”, fato de que se orgulhavam principalmente os grão-russos. Praticar a exorbitante matança do Domingo Sangrento nesse momento de extrema fraqueza levou o regime quase ao naufrágio. É muito significativo que os bolcheviques tenham conseguido arrastar à insurreição a maior parte da população de Moscou, o velho centro do imperialismo grão-russo. Em princípio, é um fato histórico comum que as cidades desencadeiem um processo revolucionário antes que apareçam inquietações no campo. Na Rússia, porém, uma revolução iniciada pelas cidades não poderia liderar o campo agitando as bandeiras da liberdade e da igualdade, vindas do Ocidente, mesmo traduzidas em palavras de ordem contra a autocracia sanguinária. O campo russo se moveria pela terra, para ascender à vida humana pura e simples.
Janeiro de 1906 – O Partido Socialista Revolucionário faz seu primeiro congresso e aprova o boicote às eleições para a Duma e uma campanha de terror. Nos meses seguintes, promove atentados contra ministros, governadores de províncias, policiais e outras autoridades do governo. Em junho, o ministro do Interior, Pyotr Stolypin (1862-1911), informa à Duma que só contra funcionários de seu ministério houve 827 atentados, com 288 mortos. Estima-se que entre 1906 e 1907 atentados terroristas matam ou ferem gravemente 4.500 funcionários ou autoridades.

Março de 1906 – O governo formaliza algumas das promessas feitas no ano anterior, como o direito de assembleia e de associação, incluindo a criação de sindicatos, e as liberdades de religião e de imprensa. Mas as greves continuam proibidas e as leis preveem outras limitações: manifestações, por exemplo, precisam de autorização da polícia, assim como a criação de associações sindicais ou políticas depende de permissão governamental; a imprensa deixa de sofrer censura prévia, mas crescem as hipóteses em que um jornal pode ser processado por seus artigos. Ao mesmo tempo, o governo passa a usar com mais frequência o mecanismo que lhe permite submeter qualquer localidade à lei marcial, com suspensão de todos os direitos civis.

Março a julho de 1906 – A primeira Duma do Estado é eleita, em votação boicotada pelos SRs e pelos social-democratas. Os kadets são os principais beneficiados pela ausência dos partidos mais à esquerda, conseguindo a maior bancada oposicionista, 179 das 478 vagas. A Constituição, chamada de Leis Fundamentais, é outorgada poucos dias depois e marca um recuo com relação ao Manifesto de Outubro, limitando drasticamente o poder do novo Legislativo, pois mantém o czar como autócrata, com poder de vetar as leis aprovadas, governar por decreto em situações de emergência e dissolver a Duma e convocar novas eleições a qualquer tempo. Os deputados tomam posse em 27 de abril (10 de maio) já em clima de confronto com o governo. O Partido Kadet, interessado em consolidar sua maioria entre os eleitores, adota um discurso radical e cobra mais reformas democráticas e anistia para presos políticos. O czar não aceita o tom oposicionista e dissolve a Duma em 8 (21) de julho.

Abril de 1906 – Bolcheviques e mencheviques formalizam sua reunificação no Congresso de Estocolmo, apesar das divergências, que não são resolvidas. Em maioria, os mencheviques aprovam sua plataforma e controlam o comitê central. Lenin declara que continuará na defesa de seus argumentos e mantém sua fração bolchevique. O POSDR admite a entrada do Bund e dos partidos social-democratas letão e polonês.

Julho e agosto de 1906 – Stolypin torna-se primeiro-ministro e, com a Duma dissolvida, governa por decreto. Uma de suas primeiras ações é dar início a uma dura campanha contra o terrorismo e os distúrbios no campo. Entre outras medidas, amplia a lei marcial nos distritos “problemáticos” e institui o julgamento sumário dos acusados por “tribunais” formados localmente com oficiais militares. Em agosto, 82 das 87 províncias da Rússia estão sob algum tipo de intervenção. A prática dos julgamentos sumários in loco só é abandonada em abril de 1907 e estima-se que foi responsável por cerca de mil sentenças de morte.

Setembro de 1906 a janeiro de 1907 – À repressão no campo, Stolypin adiciona um novo ingrediente para tentar acabar com os distúrbios a médio prazo: reformas que beneficiam uma parte do campesinato, elevando o número de proprietários de terras. Em outubro, ele derruba as restrições à livre movimentação dos camponeses, igualando seu status ao dos demais setores da sociedade civil. A reforma agrária de Stolypin inclui ainda o direito do camponês de se desvincular do Mir (a organização rural tradicional russa, em que a posse e o uso da terra são comunitários), o aumento da oferta de terras para venda, com linhas de crédito especiais, e a abertura de novas áreas de colonização na Sibéria e na Ásia central. Em janeiro de 1907, o governo anula as dívidas originárias da emancipação dos servos de 1861. Seja pela repressão ou pelas reformas, os distúrbios no campo diminuem nos anos seguintes.

Fevereiro de 1907 – O SR, o POSDR e outros grupos à esquerda decidem participar da disputa para a segunda Duma e elegem um total de 222 deputados, dos quais 65 são do POSDR e 37 do SR. Com isso, dominam a oposição e o Partido Kadet, cuja representação cai para 98 deputados, fica em segundo plano. O resultado é que a Duma que inicia seus trabalhos em 20 de fevereiro (5 de março) é ainda mais radical e conflituosa do que a primeira.

Maio de 1907 – No 5º Congresso do POSDR, em Londres, a fração bolchevique, com apoio dos social-democratas letões e polacos, se sobrepõe à coligação dos mencheviques com os delegados do Bund, aprova sua plataforma e consegue a maioria no comitê central. Apesar da vitória, Lenin mantém a fração bolchevique. No congresso, as divergências são enormes e vão se acentuar nos meses seguintes. Entre os mencheviques cresce a avaliação de que a ação revolucionária de 1905 não foi realista e é necessário impulsionar a democracia burguesa; para isso, argumentam, é preciso substituir a atividade clandestina pela construção de um partido legal e de massas, apostar na conquista de vagas na Duma e em uma aliança com a burguesia liberal. Do lado bolchevique, predomina o radicalismo: muitos querem boicotar as eleições e alguns vão mais longe e se manifestam contra qualquer participação em atividades legais, inclusive nos sindicatos.

Junho a novembro de 1907 – A segunda Duma dura pouco mais de cem dias e é dissolvida em junho. O governo altera a lei eleitoral de forma a aumentar o peso dos votos dos proprietários de terras e burgueses e reduz o número de vagas de operários industriais, minorias étnicas e camponeses. Novas eleições se realizam em setembro e a terceira Duma começa a funcionar em novembro. É a primeira – e a única – a completar o mandato previsto de cinco anos. Ao contrário das anteriores, é extremamente conservadora – dois terços dos deputados são de partidos monarquistas e nacionalistas, enquanto os kadets têm 54 representantes e os socialistas apenas 32.

Junho de 1907 a 1910 – Assim que dissolve a Duma, o governo passa a concentrar a repressão nos grupos socialistas, nos sindicatos e na imprensa. As manifestações políticas são proibidas, militantes são presos em massa e aumentam as condenações à morte – num detalhe de humor negro, parlamentares começam a chamar a forca de “gravata de Stolypin”. A perseguição, que se estende pelos anos seguintes, esvazia o movimento operário e desmantela as organizações socialistas; com a cabeça a prêmio, vários dirigentes, entre eles Lenin, fogem para o exterior e muitos militantes abandonam a ação política. Segundo o historiador Pierre Broué, o POSDR, que já tivera 100 mil membros, chega a 1910 com menos de 10 mil. Os SRs têm seus quadros terroristas praticamente destruídos. O refluxo no movimento também azeda as brigas internas, enfraquecendo ainda mais as organizações. Estima-se que entre 1908 e 1909, 16.440 pessoas foram condenadas por crimes políticos, das quais 3.862 à morte e as demais ao exílio e trabalhos forçados.

1910-1911 – A economia se estabiliza e começa um período de crescimento que se estenderá até a 1ª Guerra Mundial e ajudará a financiar o rearmamento da Rússia. De acordo com Pipes, o número de operários aumenta em mais de um terço. O movimento operário é retomado: em 1911, as greves envolvem 100 mil trabalhadores. Manifestações estudantis ocorrem ao longo de todo o ano. Em setembro, Stolypin é assassinado.

1912-1913 – Em abril, a greve nas minas de ouro do rio Lena, na Sibéria, termina em tragédia quando tropas do governo atiram nos grevistas que fazem uma passeata, deixando 200 mortos. A reação é explosiva: uma onda de greves se espalha pelo país e mobiliza até o fim do ano 683 mil trabalhadores – número que não será muito diferente no ano seguinte. O salto com relação a 1911 marca a predominância cada vez maior das paralisações de cunho político sobre as econômicas. Os grupos socialistas buscam se reorganizar, a muito custo e quase sempre a partir do exterior, onde seus líderes estão exilados. As divergências entre bolcheviques e mencheviques se acentuam. Em janeiro de 1912, na conferência de Praga, a fração bolchevique rompe de vez com os mencheviques e passa a denominar-se Partido Operário Social-Democrata da Rússia (bolchevique). Os mencheviques, o grupo de Leon Trotsky (1879-1940) e outros convocam em agosto uma conferência de reunificação, mas os bolcheviques se recusam a participar dela e concorrem com candidatos próprios às eleições para a 4ª Duma, que abre seus trabalhos em novembro.

1914 – O movimento grevista atinge um novo patamar no primeiro semestre, envolvendo mais de 1 milhão de parados. No fim de julho, a Áustria-Hungria declara guerra à Sérvia, protegida da Rússia, que se mobiliza para apoiá-la. A Alemanha, aliada dos austríacos, exige que a Rússia volte atrás e, frente à sua recusa, declara guerra; França e Reino Unido, aliados da Rússia na Tríplice Entente, entram na disputa dias depois. A 1ª Guerra Mundial, com a conscrição em massa e as medidas de exceção – volta da censura, repressão a manifestações, perseguição a militantes –, paralisa o movimento operário russo e desorganiza de novo os grupos socialistas. O clima patriótico toma conta dos países envolvidos nas hostilidades e na maioria deles os partidos social-democratas se aliam a seus governos, aprovando recursos para as operações militares. Na Rússia, ao contrário, os deputados bolcheviques e mencheviques votam juntos contra os créditos de guerra.

Agosto a dezembro de 1914 – São Petersburgo é rebatizada de Petrogrado – trocando o final burgo, que significa cidade em alemão, pelo equivalente em russo. A Rússia invade o leste da Prússia e sofre uma derrota de grandes proporções: os alemães praticamente aniquilam seu 2º exército e forçam o 1º exército a se retirar para a Polônia. As tropas russas, mal preparadas e mal equipadas, sofrem outras derrotas e no inverno faltam armas, munição, uniformes e até comida. Em novembro, dirigentes e deputados bolcheviques são presos, condenados pela campanha antiguerra e deportados para a Sibéria.

1915 – A Alemanha monta uma poderosa ofensiva no front oriental, impondo derrota sobre derrota às tropas russas, que perdem a Polônia e, a partir de julho, desmoralizadas, retrocedem para a Rússia. A reação interna é de estupefação e profundo descontentamento com a condução da guerra. A oposição acusa o comando militar de incompetência, recrimina o governo e cobra a troca de ministros; até os partidos conservadores se voltam contra o governo. A Duma, suspensa em janeiro, volta a funcionar em julho, e os kadets e outros partidos moderados se aliam no Bloco Progressista, que reúne 300 dos 420 deputados e reclama reformas liberais. No fim de agosto, o czar suspende a Duma novamente, substitui alguns ministros e assume pessoalmente o comando da guerra, instalando-se no quartel-general do exército, em Moguilev. Em Petrogrado, quem assume o governo é a czarina Alexandra (1872-1918). Inexperiente e muito influenciada pelo místico Grigori Rasputin (1869-1916), ela substitui ministros com frequência e toma decisões que irritam tanto os políticos governistas como a oposição, provocando instabilidade.

1915 e 1916 – Os bolcheviques e outros grupos internacionalistas realizam duas conferências na Suíça para discutir os rumos da social-democracia. Tanto o encontro de Zimmerwald (5 a 8 de setembro de 1915), como o de Kienthal (24 a 30 de abril de 1916) condenam a guerra imperialista e a posição nacionalista dos dirigentes social-democratas, que levaram seus partidos a apoiar seus governos na guerra. A crise levará à dissolução da 2ª Internacional.

1916 – O exército russo consegue resolver a falta de armas e se recupera o suficiente para lançar uma grande ofensiva em junho. Mas os problemas internos aumentam conforme se acentua a desorganização da economia provocada pela guerra. A escassez de bens de consumo, principalmente de alimentos, gera uma inflação crescente e provoca a ira da população contra o governo. Reconvocada em fevereiro, a Duma volta a pressionar por reformas e consegue derrubar o conservador primeiro-ministro Ivan Goremykin (1839-1917), que é substituído por Boris Stürmer (1848-1917). O número de greves e manifestações volta a crescer, assim como episódios de violência e quebra-quebra – em outubro há 187.134 paralisações na Rússia. Com a retomada do movimento operário, os socialistas começam a se reorganizar, mas em grupos locais e autônomos, já que a maioria de seus dirigentes está presa ou no exílio. Será apenas com a Revolução de Fevereiro e a anistia política que os bolcheviques reconstruirão sua organização nacional.

9 (22) de janeiro de 1916 – O aniversário do Domingo Sangrento leva às ruas 67 mil trabalhadores de 55 fábricas de Petrogrado.

Outubro e dezembro de 1916 – A insatisfação nas cidades chega a tal ponto que a própria polícia, em relatórios internos, a compara a 1905. No fim do ano, a situação alimentar e de combustíveis se torna desesperadora nas grandes cidades. Petrogrado e Moscou recebem apenas um terço das suas necessidades de comida e a população passa fome. Também faltam mantimentos e roupas adequadas para as tropas, que sofrem tantas baixas pelo frio e pela fome como pelo fogo inimigo; com a desmoralização, a indisciplina e o número de desertores crescem.

Novembro de 1916 – Liberais e socialistas intensificam os discursos contra o governo. Na abertura da nova sessão da Duma, o kadet Miliukov ataca a gestão de Stürmer e cobra sua demissão. O deputado trabalhista Alexander Kerensky (1881-1970) vai mais longe: argumenta que o verdadeiro inimigo não está na linha de frente das batalhas, mas “em casa”, e exige a derrubada de Nicolau II. Dias depois, o czar demite Stürmer e nomeia primeiro-ministro Alexander Trepov (1862-1928), que tem uma postura mais reformista. Mas Trepov é demitido pelo czar pouco mais de um mês depois, em 28 de dezembro (9 de janeiro de 1917).

Dezembro de 1916 a janeiro de 1917 – Enquanto a Duma reivindica soluções políticas, um grupo de nobres e políticos de direita parte para a ação. Convencidos de que a influência de Rasputin é uma ameaça ao império, eles o assassinam em 17 (30) de dezembro. Nicolau II e Alexandra sentem-se isolados e cercados de traidores – nesse período circulam várias propostas de afastar o czar, impulsionadas pela situação do país. No inverno de 1916-1917, os relatórios sobre as tropas russas no front são desanimadores. O movimento grevista, a fome, as derrotas militares e o caos governamental se misturam para criar uma situação revolucionária, mas Nicolau II nega qualquer possibilidade de mudanças. Em uma conversa, afirma: “No dia de minha coroação prestei juramento de poder absoluto. Devo deixar esse juramento intacto para meu filho.”

9 (22) de janeiro de 1917 – O aniversário do Domingo Sangrento é lembrado em Petrogrado com uma greve de 145 mil trabalhadores. Neste mesmo dia, Lenin, ainda no exílio, ao dar uma palestra sobre 1905 para jovens trabalhadores suíços, diz ter dúvidas sobre se “os velhos”, como ele (que está com 46 anos), viveriam “para ver as batalhas decisivas da revolução vindoura”. Semanas depois dessa palestra, a revolução explode na Rússia.

(Imagem do Acervo Cedem/IAP)

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