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Análise: 400 contra 1

Um filme sobre política, sobrevivência e amizade

Para o historiador Danilo Nakamura, é preciso destacar que 400 contra 1 – Uma história do crime organizado é um filme sobre política e formação política. Não no sentido clássico do termo, nem num sentido individual ou de classe. Na contramão das críticas que classificam o longa-metragem como apologia ao crime, glamorização da vida de bandido ou estetização da violência, ele diz que a vida de William e dos presos que continuaram a gritar nos cárceres é a vida do indivíduo a ponto de se transformar num trapo.

“Sempre achei que o tempo da prisão era um tempo de formação.”

Alípio de Freitas, em “Resistir”

“A prisão é um depósito de carne humana. Não possibilita a ressocialização do preso.”

William da Silva Lima, em “Senhora Liberdade”

Muita coisa já foi dita sobre o longa-metragem 400 contra 1 – Uma história do crime organizado (2010), dirigido pelo cineasta e diretor Caco Souza.1Este texto é fruto do debate que ocorreu no dia 1º de setembro de 2010 na Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo. Antes do debate, assistimos ao longa-metragem 400 contra 1 – Uma História do Comando Vermelho e aos curtas Senhora Liberdade e Resistir. “Apologia do crime”, “glamorização da vida de bandido”, “estetização da violência”, “um filme que não sabe muito bem o que quer: se justificar o surgimento do crime organizado, se defendê-lo (o que seria indefensável, indecente), se lembrar a importância dos presos políticos dessa época no sentido de ensinar organização aos criminosos”. Também já o rotularam de filme do gênero “favela movie” e o compararam com diversos filmes: Carandiru (2002), Cidade de Deus (2002), Quase dois irmãos (2005) e outros. O que ainda foi destacado muito pouco é que 400 contra 1 é um filme sobre política.

Expliquemos melhor nosso ponto de vista a partir dos dois personagens e das duas frases que aparecem acima como epígrafe. Alípio de Freitas nasceu em Portugal, estudou num seminário e se tornou padre. Segundo suas palavras no curta Resistir, já conhecia a pobreza em Portugal, mas no Brasil conheceu a miséria. Em São Luís do Maranhão, diante dessa nova realidade, ajudou a Associação dos Trabalhadores Agrícolas do Maranhão (Atam) a organizar os camponeses. Passou por treinamentos em Cuba, ajudou a organizar os camponeses da Liga Camponesa e, durante a ditadura militar, aderiu à luta armada pela Ação Popular (AP). William da Silva Lima, também segundo suas palavras no curta, ao andar pela cidade percebeu as diferenças e as exclusões. Também chamado de “professor”, William é conhecido como um dos fundadores do Comando Vermelho (CV). Já cumpriu mais de 36 anos de prisão e hoje se encontra foragido. O que há em comum entre eles? Ambos estiveram presos durante a ditadura militar.

Comentemos o filme, pois ele remonta ao contato de William com militantes de esquerda. 400 contra 1 começa com imagens do assalto do Banerj em 1980 que, segundo William, foi o assalto mais espetacular que ele e mais nove foragidos fizeram. A sequência do filme é uma narrativa não linear.

1971 – William começa a narrar sua vida. No início o filme mostra William e outros presos chegando à Ilha Grande, junto com a advogada Carmem, que vai ao presídio como uma pesquisadora e militante da causa dos direitos humanos. A narrativa de William já revela a divisão do presídio em bairros, fala dos jacarés (que dominavam o presídio) e da grade que dividia os presos políticos dos presos comuns. Grade que não existia em suas outras passagens pela Ilha.2Sobre a construção da grade, ver: Quase dois irmãos (2005).

1980 – William e Neco (preso político que com a queda do seu aparelho foi para o crime) programam o assalto. Num bar, a advogada aconselha os foragidos a não fazerem isso.

1980 – novamente as cenas do assalto ao Banerj.

1976 – presos que trabalhavam no terreno do presídio fogem.

1971 – William narra o contato entre presos políticos e presos comuns. Tráfico de livros, linguajar emprestado (caixinha, luta de classes) e fala que isso é algo que vem desde os comunistas presos pelo Estado Novo e depois com os sargentos e marinheiros presos com o golpe de 64.

1973 – presos políticos e presos comuns debatem a necessidade da grade.

1979 – William e Teresa são abordados por policiais, pois estavam namorando num local perigoso.

1973 – novamente a questão da grade aparece. William conversa com Neco. Este diz que a grade é necessária para mostrar a existência de presos políticos para a ditadura. Depois, os presos comuns discutem o livro de Marighela. No dia da visita dois presos são mortos por tentarem fugir. E o diretor diz que as reivindicações dos presos políticos serão atendidas, eles serão transferidos para um presídio no continente. Nova discussão sobre a igualdade entre os presos.

1980 – novo assalto e compra de um barco para resgatar os presos. Protestos se intensificam, os presos comuns queimam o uniforme. Com a transferência dos presos políticos, os comuns iniciam uma greve de fome. Mas não há nenhum tipo de comoção. Um preso morre – segundo William –, o primeiro a morrer numa greve de fome no sistema carcerário brasileiro. Guerra entre os presos comuns se inicia. Fundão se impõe perante os jacarés. Após o conflito, o diretor do presídio escreve um relatório e nomeia o pessoal do fundão de Falange Vermelha (FV), ou Comando Vermelho (CV). Eles assumem o nome e, segundo William, promovem mais de 300 assaltos e mais de 100 fugas são financiadas com as caixinhas.

1979 – fuga de William e outros companheiros.

1981 – Assalto que dá errado, muitos são mortos e outros torturados. Destaque para a batalha de Cavanha contra 400 policiais no conjunto residencial dos bancários. William volta para a cadeia.

É importante destacarmos como William descreve o Comando. Ele diz: “O Comando é um comportamento, uma forma de sobrevivência.” O lema Paz, Justiça e Liberdade também diz respeito ao comportamento. Paz entre o coletivo, Justiça é a nossa lei e Liberdade para fugir, para pular o muro. É interessante também percebemos que nas cenas de liberdade são poucos os momentos em que não estão correndo o risco de voltarem para a cadeia. Tirando o momento em que estão numa laje fazendo um samba ou quando estão num churrasco entre as famílias, todos os outros momentos são marcados pela tensão do assalto. Mesmo quando William está namorando no carro com Tereza, ele é abordado por dois policiais.

Mas voltemos para nosso problema inicial, o contato entre presos políticos e presos comuns. William, que já tinha passado pela cadeia, enfatiza que antes o convívio era mais fácil. Ele relembra que esse convívio é antigo, remonta ao período do Estado Novo e, posteriormente, à prisão de sindicalistas, marinheiros e sargentos. Algo de que ele também falou no curta Senhora Liberdade: “Eles conviveram com a massa. E tanto eles assimilaram a teoria nossa (…) eles não conheciam a teoria de esquerda. Eram simplesmente sindicalistas rebeldes, mas tinham um modo de viver comum, começamos então a formar um grupo de estudo e eles se integraram a esse grupo de estudo e também uma convivência mais produtiva, eles faziam bolsas e material artesanal. E quando a repressão os chamou, o sargento que era a liderança (…) Antonio Prestes de Paula e Marco Antonio Silva Lima, que foi morto em Copacabana pela repressão com a esposa dele. Chamaram eles para separar, eles disseram que era a massa. Eles não quiseram separar, eles queriam conscientizar mais a massa através dum trabalho, através de coisas concretas.”3Ver: Senhora Liberdade, parte 1 e parte 2. Quando foi para Ilha Grande, já era outro tipo de preso político. Eram intelectuais, pessoas de classe média, pequenos burgueses (PBs), imediatistas. “Organizados éramos nós!” “Não foram os presos políticos de 64 que determinaram nada.”

Alípio de Freitas tem uma versão um pouco diferente. Ele não nega que alguns presos políticos recusaram o convívio com os presos comuns. Também não nega que isso tenha a ver com a natureza social dos grupos. Mas enfatiza: “Quem enfrentou a ditadura, do ponto de vista radical, foi a pequena burguesia.” E mais: “O que eu posso afirmar e reafirmo, é que sempre que houve necessidade e interesse da parte deles de divulgar os problemas deles, nós fizemos através dos meios de que nós dispúnhamos, que eram certamente mais do que eles tinham.”4Ver: Resistir, parte 1 e parte 2.

Longe de querer condenar um dos lados e longe de querer condenar, por exemplo, a tática dos presos políticos de quererem se diferenciar, pois, a nosso ver, era tarefa deles denunciar a existência de presos políticos durante a ditadura militar e, como sabemos, a publicização das torturas e das mortes pela ditadura ajudou a desestabilizar o regime. Todavia, as torturas continuaram para uma parcela da sociedade e não podemos deixar de dar ouvidos às palavras de William se quisermos realmente entender o que aconteceu e o que vem acontecendo. Afinal, numa sociedade de desassalariamento sistêmico, de programas sociais compensatórios e de desagregação da condição de classe, os encontros e desencontros que aconteceram lá nos presídios nos revelam o fosso ainda aberto entre a classe média militante e a ralé estrutural das periferias quando o assunto é fazer política.5Como bem lembrou José Arbex, em artigo na revista Caros Amigos, se por um lado o Brasil vai muito bem , crescimento econômico, sede de eventos internacionais, por outro, “um indício indiscutível da barbárie é dado pelas estatísticas sobre a extrema violência policial combinadas com a ação de esquadrões da morte e milícias contra as populações de jovens e trabalhadores que vivem nas favelas e periferias. Se, em outubro de 1992, o massacre de 111 presos do Carandiru causou comoção, hoje as execuções somam UM CARANDIRU POR DIA, segundo estimativas conservadoras da ONU. Os fatos são inegáveis: o Estado brasileiro pratica uma política de terrorismo contra os trabalhadores e jovens da cidade e do campo de maneira direta e indireta (não apenas na forma da violência física, mas também nas medidas típicas de regimes racistas, como o uso do expediente inconstitucional do mandado de busca coletiva em favelas).”

Diz William sobre os presos da luta armada: “Esse luta pela sua reintegração dentro do sistema que ele não quer mudar, ele não quer mudar. Temos provas aí, estão candidatos a deputado, presidente… Que mudar nada!” “Foi uma questão de… Choque de costumes, porque aqueles não vão querer que aquele companheiro que assaltou um banco, que é do morro, nascido numa sociedade completamente heterogênea, né? Seja igual àquele que é da Liga Camponesa.” “O Partidão a gente sabia que era ortodoxo e também ia discriminar os lúmpens.”

André Borges, outro personagem do curta Resistir (foi preso comum e preso político), concorda com William, mas tira uma conclusão “ortodoxa”: “Há luta de classes, tá! Há…” E conclui: “Se comprovou o quê? De que aquilo que a gente colocava, que a revolução não ia pra frente porque eles eram incompetentes, não eram pessoas habilitadas… Ora, conduzir um processo desse, era um processo de luta armada, um processo longo, que requer disciplina, conhecimento histórico e fibra, tá entendendo, a história hoje comprovou que a gente estava certo.”

Só um parênteses, a comparação com o filme Quase dois irmãos é interessante para pensar esse problema, pois a história desse filme se inicia antes da separação entre os presos e chega nos dias de hoje. Lá, Miguel e Jorge, dois amigos de infância, veem seus caminhos se juntarem e se separarem por uma questão de classe. Ambos foram presos na Ilha Grande durante a ditadura militar e ambos assistem à construção do muro que separou os presos políticos dos presos comuns. Passada a ditadura, Miguel se torna senador e coordenador de projetos sociais e Jorge, preso novamente, comanda o tráfico da cadeia. Miguel decide reencontrar o amigo para conversar sobre projetos sociais na favela. Nessa conversa o destaque fica nas justificativas, quase demagógicas, e nas afirmações de ambos os lados sobre seus destinos (violência e tráfico de drogas de um lado e políticas públicas de compensação social e parcerias com ONGs de outro). Ambos não negam, os dois lados perderam, mas Jorge enfatiza: “Vocês perderam bonito.”

É essa separação e são esses destinos que as duas frases – que destaquei na epígrafe – revelam. Para Alípio, o tempo da cadeia foi um tempo de formação. Um período de aprendizado para quem sobreviveu à tortura e soube sublimar a experiência em uma avaliação sobre os erros e os acertos. Formação, tal qual pensavam os românticos, mas adaptada a nosso contexto nacional, ou seja, uma experiência pela qual a figura realizada é constantemente confrontada com sua própria limitação, mas que em seu (des)caminho conduz à autonomia dos homens. Pôde assim avaliar a luta armada como um erro e continuar na luta pelo socialismo. Já para William, a prisão não possibilita a ressocialização do preso. Ela o teria transformado num trapo humano se ele não tivesse fugido. É algo que como uma bola vai e volta e isso reflete na sociedade.

Poderíamos, como fez W. Benjamin com F. Biberkopf – operário e ex-presidiário –, personagem do romance Berlin Alexanderplatz (1929), de Alfred Döblin, falar de uma Educação Sentimental dos marginais. Afinal, assim como o operário dos anos 1920 na Alemanha, a história de William tem algo de épico e “nos momentos em que o detento consegue ajudar-se, sua existência não pode mais nos ajudar”. Ou ainda, entender seu percurso como uma experiência parecida com a do personagem Malik El Djebena do filme Un Prophète (2009), de Jacques Audiard. Trata-se da história de um descendente de árabes preso na França. Esse passa por um longo aprendizado para sobreviver num presídio dominado por máfias (italiana e árabe). No final do filme, ele sai da prisão formado, pronto para liderar o crime (acompanhado, não por acaso, da música “Mackie Messer”, da Ópera dos três vinténs, de Kurt Weill e Bertolt Brecht). Todavia, por mais que o mundo dos marginais seja homólogo ao mundo burguês, como quer Benjamin, e William confirme isso – “As raízes da exclusão, tá dentro do problema socioeconômico, isso aí é indiscutível” – e por mais que possamos ver no percurso de William algo de individual, como para o árabe Djebena, o filme 400 contra 1 aborda a coisa de outra maneira.

Não se trata aqui de Formação no sentido clássico do termo. Nem num sentido individual, nem no sentido das classes sociais. A vida de William e dos presos que continuaram a gritar nos cárceres é a vida do indivíduo a ponto de se transformar num trapo. A classe – bem – essa aparece dissolvida nas correrias e nas virações que a vida impõe a cada um. No entanto, para que esses homens sobrevivessem, o filme destaca a necessidade de terem uma organização, não por conta do aparelho, mas sim da amizade e da afetividade. “Essa cresceu entre nós e é indestrutível.” Enfim, a esquerda histórica, para sobreviver, já soube que isso era imprescindível. Hoje, enquanto a amizade carcerária se espalha por toda a periferia, a esquerda procura reatar esse fio afetivo que esquecemos o que é e o que significa.

NOTAS

1. Este texto é fruto do debate que ocorreu no dia 1º de setembro de 2010 na Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo. Antes do debate, assistimos ao longa-metragem 400 contra 1 – Uma História do Comando Vermelho e aos curtas Senhora Liberdade e Resistir.

2. Sobre a construção da grade, ver: Quase dois irmãos (2005).

3. Ver: Senhora Liberdade, parte 1 e parte 2.

4. Ver: Resistir, parte 1 e parte 2.

5. Como bem lembrou José Arbex, em artigo na revista Caros Amigos, se por um lado o Brasil vai muito bem , crescimento econômico, sede de eventos internacionais, por outro, “um indício indiscutível da barbárie é dado pelas estatísticas sobre a extrema violência policial combinadas com a ação de esquadrões da morte e milícias contra as populações de jovens e trabalhadores que vivem nas favelas e periferias. Se, em outubro de 1992, o massacre de 111 presos do Carandiru causou comoção, hoje as execuções somam UM CARANDIRU POR DIA, segundo estimativas conservadoras da ONU. Os fatos são inegáveis: o Estado brasileiro pratica uma política de terrorismo contra os trabalhadores e jovens da cidade e do campo de maneira direta e indireta (não apenas na forma da violência física, mas também nas medidas típicas de regimes racistas, como o uso do expediente inconstitucional do mandado de busca coletiva em favelas).”

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