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Anexo de ‘1917: Uma revolução confiscada’

Do “canato” de Moscou até a Revolução de Outubro: identidade religiosa, identidade nacional

Reprodução de pintura do acervo Cedem/IAP
Durante as entrevistas que deram origem ao livro 1917: Uma Revolução Confiscada, Vito Letizia enfatizou várias vezes a questão da profunda religiosidade do povo russo como substituta de uma identidade nacional. Por fim, ele decidiu explicar sua visão de forma mais detalhada, para abrir o debate. O texto que publicamos é o resultado dessa exposição.

Quando se pergunta aos camponeses russos quem eles são, eles respondem: “Nós somos ortodoxos.” Eles não respondem: “Nós somos russos.” Como podemos interpretar esse sentimento de pertencimento a essa identidade religiosa, e não nacional, dos camponeses russos?

É. É preciso dizer que nunca existiu uma nação russa. Existiu uma área bizantina, naquela região ao norte da área estépica ocupada por nômades convertidos ao islamismo. Era uma área que se estendia pela maior parte da Ucrânia e do sul da Rússia, e lá surgiram os principados russos. E esses principados foram submetidos pela Horda de Ouro mongol, e uma parte integrou o Estado Mongol. Moscou era o centro dos principados russos que integraram o Império Mongol. Moscou era a capital mongol dos principados russos. Porque a capital anterior, a capital bizantina, era Vladimir, hoje uma cidade que fica a leste de Moscou. Não era Moscou. Moscou ascendeu à posição de cidade capital por causa dos mongóis. E quando a Horda de Ouro desmoronou, os principados se tornaram independentes; e se deram a perspectiva de tornar-se o Estado sucessor do Império Mongol. Na verdade, ali a disputa se deu entre o Canato da Crimeia e Moscou, sobre qual deles seria o Estado sucessor do Império Mongol.

Porque o fenômeno ali foi um pouco diferente do que aconteceu no Ocidente. No Ocidente houve o Sacro Império Romano-Germânico. Que era uma unidade política e num certo momento deixou de ser: criaram-se os reinos, que depois evoluíram para nações. Mas a sede do Império Romano-Germânico, que era a Áustria, permaneceu funcionando, viva, e se tornou uma nação, passou a evoluir para a nação austríaca a partir de 1648.[1] Coisa que Perry Anderson não percebe, quando conta essa história. Mas em todo caso ali ficava a sede, que continuou se reivindicando e continuou se chamando de império. Era um império eletivo, mas continuou sendo império, só deixou de sê-lo com a Revolução Francesa. E na Rússia não. Sarai, a capital da Horda de Ouro, desapareceu, virou uma aldeia. Sumiu. Só ficaram os canatos sucessores. Então a perspectiva de se colocar como Estado sucessor do Império Mongol se tornou presente para os canatos e os principados russos. Como Moscou era a capital, foi disputar isso, basicamente com o Canato da Crimeia. E como Moscou tinha uma vida econômica mais pujante, que se desenvolveu com o comércio com o Ocidente, que foi se desenvolvendo depois da descoberta da América, então Moscou terminou vencendo e se apropriou da área dos Canatos de Kazan e de Astrakhan. Tornou-se um império.

Porque esse negócio é um império, não dá para fazer uma nação com isso. E nunca houve aspiração à criação de uma nação russa, até porque a ideia de nação está ligada ao desenvolvimento de uma burguesia e não havia isso. A perspectiva que se dava à classe dominante russa era se manter como império. Diferentemente da burguesia do Ocidente, que se deu a tarefa de criar as nações do Ocidente, a França, a Inglaterra, a Espanha, Portugal, a Itália, a Alemanha, a Dinamarca e a Suécia. Mais tardiamente vieram outras. Mas assim, basicamente foram essas que se deram, desde o fim do período feudal, a tarefa de constituição como nações. E na Rússia não apareceu essa perspectiva. A perspectiva era expandir um império que surgiu a partir da vitória na sucessão do Império Mongol. Então os camponeses não tinham como se reivindicar como nação russa. Não tinham como se reivindicar como nação russa porque isso não estava na cabeça de ninguém. Nem da classe dominante nem da classe dominada. E havia ainda o fato de ter subsistido o Canato da Crimeia, que era forte, porque se desenvolveu junto com o Império Otomano, acoplado ao Império Otomano, que era uma potência asiática naquela época, maior do que qualquer nação europeia nos séculos 14, 15, 16 e 17.

Criou-se uma fronteira entre a região onde o Canato da Crimeia não permitia que se exercesse a hegemonia russa e o território onde se instalou o Estado sucessor russo do Império Mongol. Estou usando uma terminologia de Toynbee, porque não está em Marx, Marx não abordou essas questões. Estado sucessor é um conceito de Toynbee. Essa fronteira criou o problema eterno dos que têm servos e escravos. Quando não têm um lugar para onde fugir, eles fogem para lá. O que fazer com os que fogem? Devolver para os senhores ou guardar… Imaginem se a Crimeia ia se preocupar com esse problema, não é? Eles enfrentavam diretamente o Estado russo e deixavam os camponeses russos se instalarem no território sobre o qual exerciam uma certa hegemonia. Não ocupavam, era território vago, que eles chamavam de “campo selvagem”, campo que ninguém ocupava. E os camponeses se instalaram ali, dando origem aos cossacos, que se afirmaram como cristãos ortodoxos, num ambiente que era muçulmano. Os camponeses russos, que em geral ficaram com essa mentalidade de pertencer a um império que não era só bizantino, que era também muçulmano, só tinham uma identidade a afirmar, que era a identidade cristã ortodoxa. Não tinham outra. A nação russa não existia. No Ocidente seria óbvio se afirmar como francês, como alemão, etc. Na Rússia essas coisas não vieram à tona de forma que permitissem uma afirmação identitária. O que havia era a religião.

Isso vem desse processo histórico, que para ser abordado exige analisar um pouquinho e estudar um pouquinho a história da Ásia central, o Império Mongol, essas coisas, porque a Rússia foi englobada na história da Ásia central. Que depois os russos negaram: há aquele chavão de que foram oprimidos pelos mongóis, que lutaram pela liberdade. Nas escolinhas russas se contam essas historietas. Mas é mentira. Eles estavam muito bem instalados no Império Mongol e eram chefetes lá dentro. Eram ortodoxos, mas o Império Mongol aceitava isso, não questionava. Quem queria ser ortodoxo tinha direito. Não tinha discriminação religiosa no Império Mongol. Eles tinham discriminação contra os católicos de Roma. Eles massacraram os genoveses em Caffa, nos entrepostos comerciais do mar de Azov, onde estavam os genoveses instalados. Mas os ortodoxos eles deixavam em paz. Faziam parte do povo deles. Ibn Battuta,[2] no livro de viagens que escreveu, disse que ficou ensurdecido com os sinos dos cristãos. Ele não gostava de sinos, porque os muçulmanos não usam. Tinha um monte de igreja em Caffa. Mas isso é preconceito de muçulmano, os sinos tinham um som agradável para um cristão. Eu gosto de som de sino. Em suma, os ortodoxos eles deixavam em paz. E casualmente os sinos de Caffa eram em grande parte de igrejas católicas, porque ali estavam os entrepostos dos genoveses. E para os muçulmanos não pegava muito bem no ouvido aquele sino. E ia assim: massacrava e deixava voltar, massacrava e deixava voltar. Porque por um lado havia o interesse pelo comércio, mas, por outro lado, os genoveses eram católicos, eram representantes do Império Romano do Ocidente, que era o inimigo do Império Mongol.

Mas, digamos, isso é a primeira parte da história. A segunda parte é que os cristãos ortodoxos do Império Russo, que se tinha constituído como Estado sucessor do Império Mongol, estavam subordinados a Constantinopla. E Constantinopla era considerada a sede da nação ortodoxa, que, segundo o sultão, estava integrada ao Império Otomano. A nação ortodoxa era uma parte. Em questões religiosas o patriarca de Constantinopla era a lei, e o sultão não objetava. Era ele o comandante dos cristãos ortodoxos em matéria religiosa, e o sultão não interferia nisso. Aliás, o sultão fazia questão de que quem fosse ortodoxo continuasse ortodoxo. E ele recrutava os janízaros entre os cristãos. Os janízaros eram sua tropa de choque e eram recrutados entre os cristãos das aldeias. Era uma carreira, Toynbee descreve isso, era uma carreira brilhante. Os janízaros tinham um bom salário, tinham aposentadoria, um bom nível de vida. O rapaz que conseguia ser janízaro estava muito bem. E ninguém objetava, não é? Em mandar os filhos, os cristãos, para se tornarem janízaros. Eles podiam continuar cristãos, não eram obrigados a se converter. E constituíam a tropa dos janízaros. Só que a vidinha era boa, eles confraternizavam, uma parte terminava se convertendo, outros continuavam cristãos, e ninguém ligava muito para o que cada um fazia. O problema para o sultão é que as aldeias queriam se converter e isso ele achava ruim. Porque ele não queria recrutar entre muçulmanos, queria recrutar entre cristãos. Por quê? Porque achava que o Império Otomano tinha que ser sustentado por todas as nações do império, e os cristãos tinham que ser uma nação que devia subsistir e se manter como sustentadora do império. Não fazia questão de que se convertessem. Não tinha proselitismo. E os ortodoxos eram considerados como membros da Rússia e membros do Império Otomano informalmente, embora o sultão não mandasse na Rússia. Quem era o executor dessa vontade do sultão era o patriarca de Constantinopla, que regia a religião na Rússia.

Claro que os russos terminaram aspirando à emancipação e criaram o Patriarcado de Moscou. Só que o problema é que a partir da criação do Patriarcado de Moscou foi cometida uma série de violências e arbitrariedades, a Igreja Ortodoxa Russa se cindiu, surgiu o movimento dos que não aceitavam, o dos velhos crentes. Que continuaram sendo uma facção importante da Igreja Ortodoxa Russa. E era gente da zona rural. Isso funcionou mais ou menos sem grandes problemas. Claro, deixando à parte a repressão. Mas repressão teve em toda a parte, mesmo no Ocidente, império é império. Funcionou. O problema surgiu e se tornou uma chaga aberta quando a Rússia se ocidentalizou, a partir de Pedro I. Houve todos aqueles abusos, a obrigação de usar trajes ocidentais, de cortar a barba, o czar interferindo nas mínimas coisas da vida da população para ocidentalizar a Rússia; e a fundação de São Petersburgo e a vitrine ocidental que foi criada ali. Sedimentou-se uma situação que se combinou com o rebaixamento da condição servil na Rússia. Esse rebaixamento tinha sido feito por Ivã IV, mas continuou como uma opressão e finalmente se consolidou como uma estratificação com alto grau de separação entre dois estratos. Um era o estrato bizantino antigo, da sociedade russa antiga, que era basicamente o campo. E o outro, o estrato urbano, que seguiu num processo de ocidentalização crescente, que acompanhou a industrialização da Rússia, impulsionada pela criação do exército russo nos moldes dos exércitos ocidentais, da marinha russa nos moldes das marinhas ocidentais, e assim por diante. A sociedade russa que se criou depois de Pedro I era uma sociedade dual, com alto grau de atrição da de cima sobre a de baixo. O que criou toda aquela situação de estranheza entre a intelligentsia russa e os trabalhadores de origem camponesa, e os próprios camponeses em relação aos SRs, que a gente já abordou.

E a religião continuou sendo o elemento-chave que manteve essa distinção. Claro, a religião cristã ortodoxa continuou sendo a religião oficial, tanto da camada de cima, como da camada de baixo. Mas a rigor era outra religião. Era uma religião mais formal para a classe alta, que serviu para justificar as aspirações do Império Russo sobre Constantinopla e só para isso. E para o povo do campo russo não, para os camponeses significou o meio que lhes restou de se afirmarem como seres humanos. Foi o meio que lhes restou para se afirmarem como seres humanos: “nós não somos candidatos ao extermínio porque nós somos ortodoxos.” Porque os outros eram candidatos ao extermínio. Depois que a Rússia se ocidentalizou, os povos islâmicos eram candidatos ao extermínio. Como os índios aqui na América, a gente aqui está falando da humanidade. E eles, ao se afirmarem como ortodoxos, diziam: “Nós somos ortodoxos, não somos candidatos ao extermínio.” Assim garantiam, pelo menos, a presença como campesinato servil da sociedade russa, do império. Coisa que os muçulmanos não puderam fazer, a “obrigação” deles era limpar o campo, sumir. A área onde eles estavam era área a ser colonizada pelo império. Coisa que não se podia fazer com os camponeses russos ortodoxos, porque, supostamente, sendo eles ortodoxos, não havia nenhuma razão para colonizar e exterminá-los. Era o meio que eles tinham para afirmar o direito de pertencer à sociedade russa. E não serem exterminados. Em suma, serem considerados como membros da humanidade. Uma parte inferior, tudo bem, mas da humanidade de qualquer maneira, com direito à vida. Coisa que os índios aqui na América não tiveram direito nem depois de se converter.

Esse era o papel da religião. É preciso ter bem claro isso na cabeça, porque isso fixou uma situação e fixou uma importância para a religião. Uma religião era uma coisa inevitável, não era uma superstição! É muito diferente Marx ver a religião no Ocidente e ver a religião na Rússia. Ele não viu a religião na Rússia. Era um meio de afirmar o direito à vida. O que não livrou os camponeses de continuarem como classe inferior. Como camada oprimida e numa situação sub-humana, mas de qualquer maneira dentro do âmbito da humanidade dividida em castas e classes. Uma casta inferior tem direito a existir. Como era na Índia. Mesmo os dalit[3] tinham direito a existir. Apesar de ninguém poder tocar, aquelas coisas todas, mas ninguém questionava o direito deles à vida. Ao passo que se fossem muçulmanos na Rússia, o direito de existir deles estava em questão. Catarina II mandou esvaziar a Crimeia de muçulmanos, e não conseguiu. Naquele momento ela não tinha meios para fazer isso.

Esse império, constituído dessa forma, que não era uma nação, onde a religião tinha esse papel, foi o baluarte da reação do Ocidente, porque em 1684 se criou a primeira Santa Aliança,[4] depois se criou a segunda Santa Aliança, em 1815, contra a Revolução Francesa e a realização das aspirações da Revolução Francesa no Ocidente, e os exércitos russos foram exércitos repressores durante a Revolução Francesa. E aqueles livros das escolas russas que foram publicados aqui em português, que contam a história da Revolução Francesa, gastam um tempo enorme contando as manobras de Kutuzov[5] contra Napoleão Bonaparte, aquele negócio, como se tivesse alguma importância. A vitória deles contra Napoleão. Que eles acharam que se podia explicar a partir da eficiência dos russos, ou do inverno russo, e não é nada disso que explica. Não vamos discutir isso agora. Os erros de Napoleão foram erros de escolha, de expandir a revolução para o território russo ou não. Ele escolheu não expandir. Isso é que derrotou Napoleão. Não foi nem o inverno, nem os cossacos, nem os bashkir que foram lá matar os franceses que estavam atravessando o rio Berezina. Naquelas pontes improvisadas lá. Napoleão Bonaparte não quis expandir a Revolução Francesa para o território russo. Não quis libertar os servos da Rússia. Em suma, expandir a Revolução Francesa era isso. Ele achou que era muita ambição querer fazer isso. Ele queria o czar, do jeito que ele era, como aliado. Não vamos discutir isso, não é nossa tarefa, mas os caras ficam discutindo as manobras de Kutuzov. Bobagem. A ciência histórica foi para o espaço depois que a burocracia tomou o poder. Fora as mentiras, não é? As falsificações deliberadas.

Eu chamo a atenção para essa questão da religião, ela tem que ser tratada com cuidado. Não é assim, “eu sou ateu porque sou marxista”. Tá, tudo bem, eu não sou religioso, por ser marxista não vou ser religioso. Mas não dá para dizer que a religião é o ópio do povo, e deu. E resolver.

E a partir da Revolução de Outubro?

Os bolcheviques quiseram ocupar o lugar do czar. Tão simples quanto isso. Porque dentro do sistema ocidental, depois da Guerra das Investiduras, no fim do século 11, começo do século 12, chegou-se à seguinte conclusão: o papa é quem governa a Igreja, e governa os bispados e nomeia os bispos. E os bispados eram unidades políticas. O conflito se deu por causa disso. Quem nomeia um bispo numa cidade está nomeando o poder político na cidade. O poder de Estado na cidade. Então o imperador queria nomear os bispos, evidentemente. Era meio chato para o imperador ser chefe do império e não nomear os que comandavam o poder político nas cidades, só comandar a zona rural. É claro que o conflito era inevitável. E terminou com os bispos sendo nomeados pelo papa e o poder político nas cidades ficou na mão do papa, via bispos. Depois isso foi um pouco amenizado… As capitais, como Paris, ficaram na mão do rei, claro. Não iam ficar na mão do papa. Mas a Sorbonne continuou sendo regida pelo papa e não pelo rei. Tanto assim que a Sorbonne, na Guerra dos 100 Anos, ficou do lado dos ingleses. Porque os ingleses estavam pagando o tributo ao papa religiosamente. Então estava resolvido. “A gente vai ser aliado de quem? Vamos ser aliados dos ingleses.” E foram eles que condenaram Joana D’Arc.[6] Lá era assim. E estava resolvido o problema do imperador. O imperador comandava alguma coisa e o papa comandava o principal, a rigor. Enquanto o papado foi politicamente importante. No Império Bizantino continuou o sistema do imperador Constantino I, que era chefe do império e da Igreja. Da Igreja unificada, não tinha ainda a separação entre ortodoxos e católicos. Em 325 quem pontificou no Concílio de Niceia foi o imperador Constantino. Que não era nem batizado. Mas deu palpite em matéria de fé, e todo mundo acatou. Claro, a Igreja não queria recomeçar a guerra contra o Império Romano; não era boba, não é? Os pais da Igreja, comandados por Paulo de Tarso,[7] já tinham acertado que os bispos eram instituições do império. Já estava acertado. Então, o resto vinha de si. Claro, naquela época isso não funcionava tão bem quanto o imperador gostaria – e quanto Paulo de Tarso gostaria. Porque o povo impunha a sua vontade naquela época.

Tinha o povo. O povo dava palpite na Igreja. Dava palpite e botava o dedo no nariz dos bispos. Depois a coisa foi se tornando mais hierarquizada. Mas no começo era meio confusa. Claro que os padres da Igreja não iam comprar briga com Paulo de Tarso, que já estava morto. Mas os padres da Igreja não iam criar um conflito irremediável com o imperador e aceitaram. Depois o império se dividiu em Império Romano do Ocidente e Império Romano do Oriente e surgiu a Igreja Ortodoxa separada da Igreja de Roma, da Igreja do Ocidente. Em Roma foi resolvido de um jeito e no lado oriental, em Bizâncio, foi resolvido de outro jeito. O imperador bizantino era chefe da Igreja e chefe do império. E o czar era quem ditava as normas ao patriarca em Moscou.

A lógica dos bolcheviques seria qual? A Igreja é uma questão de foro íntimo. Quem acha que tem que acatar o patriarca que faça o que quiser. Que acate. Desde que não boicote, não se erga contra o Estado soviético, está resolvido. Contudo os bolcheviques editaram uma série de normas, organizaram seminários, definiram que igrejas podiam continuar funcionando e quais não. Nomearam o patriarca. Criaram uma igreja oficial do Estado russo. Do Estado russo soviético. É assim que funcionou. O que foi um fator a mais a colocar os camponeses contra os bolcheviques. Todo mundo sabia, aliás eles diziam que eram ateus, todo mundo, não precisava nem investigar. “Mas que é que esses ateus estão fazendo governando a nossa Igreja?” É questão de foro íntimo. Não é essa a nossa doutrina? A religião é uma questão de foro íntimo. Deixa os caras. Isso Carr conta, naquele livro sobre a política interna dos bolcheviques. Mas é evidente que fracassaram. Fracassaram, porque quando a União Soviética caiu a gente viu a massa de gente que se fez batizar nas igrejas ortodoxas da Rússia.

Não tinha como triunfar algo assim, era muito mesquinho para caber na cabeça das pessoas. Era mesquinharia, a rigor, porque os bolcheviques não precisavam fazer isso. Sob Lenin a coisa foi feita de maneira pouco autoritária. Os bolcheviques ficaram com medo de que algum reacionário, como chefe da Igreja, com uma autonomia muito grande, pudesse organizar conspirações contra o Estado soviético. Na realidade, a discussão foi em torno disso: será que eles vão ser um perigo ou não vão ser um perigo para o Estado soviético? Foi em torno disso no tempo de Lenin; e procuraram não interferir muito. Já no tempo de Stalin, imaginem!

Stalin destruiu a principal igreja ortodoxa da Rússia, a Catedral de Cristo Salvador, em Moscou. A única coisa que sobrou foi o Mosteiro da Trindade-São Sérgio,[8] lá em Zagorsk. E tiraram todo mundo que estava lá, e botaram uns funcionários que eram uns debochados; os caras eram uns baita debochados e estavam lá para atender o público. Porque continuaram as peregrinações de fiéis da Europa toda ao santuário de Zagorsk, e ali os fiéis encontravam aquele espetáculo lamentável, dos funcionários que tratavam mal os que chegavam e não eram religiosos, não tinham religião. Eu li alguns relatos, em artigos de revista, de franceses que faziam a peregrinação e ficavam escandalizados com a situação do santuário de Zagorsk. Stalin parou aí, parou em Zagorsk. No tempo de Lenin foi mais brando, ele procurou manter um perfil baixo dos bolcheviques dentro da Igreja Ortodoxa. Stalin, imaginem se ia se preocupar com isso. Ele era o czar! Ali ele se revelou como um czar. O que não era preocupação de Lenin. A preocupação de Lenin era a segurança do Estado soviético, só isso, mais nada.

Mas eu chamo a atenção para essa questão da religião, que é muito mal discutida. Ela pode ter um papel importante na sociedade. Depende de como está organizada a sociedade, como ela está estruturada, como se desenvolve a opressão das classes superiores sobre as inferiores nessa sociedade, de repente a religião pode ser um instrumento vital de sobrevida. De garantia de direitos mínimos, por exemplo. Sem que isso seja afirmado dessa forma. Isso é afirmado como religião. Mas o marxista tem que entender que é isso. Essa é a obrigação dele. O cara não diz outra coisa, ele só diz que tem fé. E diante dessa situação em que o marxista se defronta com alguém que diz que tem fé, e não diz mais nada a não ser isso, o marxista tem que entender que essa pessoa está afirmando muito mais. Está afirmando a necessidade de autodefesa de uma classe ultraoprimida. Essa pessoa não diz que está fazendo isso, mas é isso que ela está fazendo. Se o marxista é incapaz de entender isso, ele não vai conseguir se comunicar com o cara, porque vai dizer: “Não, porque isso aí, na realidade, é uma imagem que vocês se fazem da humanidade…” Como disse Feuerbach,[9] um substitutivo da humanidade, Deus até é. Mas é uma coisa muito mais forte, muito mais urgente. Se o marxista não entender isso, ele não vai conseguir se comunicar.

Isso tem implicações sobre a análise do islamismo e do fundamentalismo islâmico de hoje. Nós não vamos entrar nesse terreno agora, mas não é uma coisa assim: “A Rússia agora é outra, não tem mais aquela camada camponesa que existia no tempo do czar e podemos esquecer o assunto, que é um assunto superado, é um problema russo…” Não! É um problema do planeta. Muito atual.

Só para dar um exemplo de gente que se converteu ao cristianismo para sobreviver e não recebeu o direito de sobreviver: o Reino do Congo. Que pouca gente se deu ao trabalho até de investigar. O Reino do Congo foi encontrado pelos portugueses em 1483. E seu rei abriu o Congo aos portugueses, se converteu ao catolicismo, mandou os filhos para Portugal. Só que os portugueses queriam que o Congo fornecesse escravos. O que significava que para eles era incômodo aceitar o Reino do Congo como um reino de cristãos. Porque pela teoria da Igreja Católica não se podia escravizar cristãos. Então os portugueses destruíram o Reino do Congo, apesar de toda a classe dominante do reino ter se convertido ao catolicismo. E de o rei ter sido reconhecido pelo papa como um rei cristão.[10] Não foi suficiente. Foi um recurso que os portugueses encontraram para obter escravos.

Dentro de toda essa discussão que fizemos, seria importante analisarmos a questão do Islã nos dias de hoje?

Nós vamos ter que discutir a questão do Islã. Eu não sei como vou conseguir aprofundar o que já elaborei e colocar por escrito. Eu nunca me dei ao trabalho de tentar escrever sobre essa questão. Porque é uma questão na qual a interlocução é muito difícil. E implica o estudo de uma série de coisas que não são de interesse. Quem é que se preocupa em ler a história das viagens do Ibn Battuta? Só um louco como eu. Então, são coisas que não interessam muito. É mais curiosidade. Eu sempre encarei como uma curiosidade minha. E não vou escrever um livro para satisfazer minhas curiosidades. Eu vou ler, não é? A história da Ásia central, quem é que se interessa? Mas eu fiquei fascinado. Aí, de repente, vi que para entender certas coisas ter estudado a história da Ásia central foi absolutamente indispensável. Por exemplo, para entender toda aquela baboseira que os russos falam dos mongóis. E entender os russos era um apoio importante para entender o processo revolucionário russo. O que ninguém conta é o que vem antes, o que deu as raízes do processo que se tornou visível depois. Eu não escrevi nada porque tinha coisas mais urgentes a tratar e paralelamente ia lendo para satisfazer minhas curiosidades históricas. Porque eu sou um curioso de coisas. Do universo, não é? Do processo de desenvolvimento da história humana. Então, por causa disso eu não tenho nada. E agora estou numa situação em que passar a fazer essa elaboração seria bastante penoso. Não é uma elaboração fácil.

O que eu posso dizer é que a gente vai ter que abordar essa questão porque de repente se tornou uma questão urgente. A revolução árabe; por trás tem toda essa discussão. Tem uma superfície onde isso não aparece, mas há um fundo onde isso aparece como raiz e como determinante de certas coisas, que se não se souber, se não se tiver uma informação sobre o que foi a origem do que está acontecendo agora, não se vai entender. Então, vamos discutir. Eu vou levantar o que eu tenho para levantar e vamos ver o que se faz. Tenho alguns textos disponíveis, alguns livros que eu li e posso indicar. Mas precisa fazer. Agora precisa fazer. Essa história da revolução árabe colocou isso na ordem do dia. Da revolução árabe e da reação a isso no Ocidente. Agora é um problema nosso. Antes era só a questão palestina. Agora é mais amplo. Então vamos ter que discutir, vamos ver o que se pode fazer.

Nesta nossa conversa estamos discutindo o papel da religião no processo histórico russo, na estratificação da sociedade russa, e a importância disso na forma que assumiu o movimento que desembocou na revolução de 1917. Mas essa discussão nos serve também para ter uma ideia mais ampla do que é o papel da religião no processo histórico da humanidade em geral. Não dá para dizer, minimizar isso como sendo uma mera ilusão. Dependendo do lugar, é uma questão de vida ou morte, não é só uma ilusão. Tem que ter isso na cabeça.

(Imagem do Acervo Cedem/IAP)

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