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O início da grande greve

Jornal o Trabalho e Tribuna Metalúrgica, 1978-1979 (Acervos Mário Pedrosa e Sérgio Buarque de Holanda).

Os últimos anos da década de 70 viram renascer um novo movimento sindical. Depois de uma ausência que seguiu a brutal repressão às greves de 1968 de Osasco e Contagem, a classe operária voltou à cena em grande estilo, aprofundando a crise da ditadura e questionando os limites da “abertura lenta, gradual e segura” dos ditadores Geisel e Figueiredo.

A repressão ao movimento operário e sindical começou logo depois do golpe militar de 1964. O AI-2 de 1965 tornava crime qualquer tipo de protesto ou demonstração pública contra o governo militar e determinava a cassação de direitos políticos de quem deles participava. Em 1968, o AI-5, o mais brutal dos atos institucionais, nos seus 12 artigos, concedia ao Presidente da República, os poderes de cassar mandatos, intervir em estados e municípios, suspender direitos políticos de qualquer indivíduo e, o mais relevante, decretar recesso do Congresso e assumir suas funções legislativas. O AI-5 também suspendeu o Habeas Corpus para crimes políticos. Por conseguinte, jornais oposicionistas ao regime militar foram censurados, livros e obras “subversivas” foram retiradas de circulação e vários artistas e intelectuais tiveram de se exilar.

1978

É neste momento que uma força maior começa a borbulhar pelos arredores do Estado de São Paulo. A repressão, o medo e a insatisfação perante a conjuntura atual conceberam um novo movimento sindical sólido e íntegro.
Em 12 de maio de 1978, uma assembleia reunia mais de 2 mil operários, professores, motoristas, médicos e trabalhadores autônomos na fábrica da Saab-Scania em São Bernardo do Campo (SP). Começava a greve contra o arrocho salarial da ditadura. Os trabalhadores entraram nas fábricas, baterão os cartões e permaneceram de braços cruzados. A repressão não se fez esperar. O Decreto-Lei nº 1.632, de 4 de agosto de 1978, dispunha sobre “a proibição de greve nos serviços públicos e em atividades essenciais de interesse da segurança nacional” e redefinia as atividades consideradas essenciais. No entanto a repressão não conseguia deter o avanço do movimento operário e as greves não cessaram e foram retomadas nos anos seguintes.

1979

No ano seguinte, em 15 de março, toma posse o último presidente militar João Batista de Oliveira Figueiredo. Ao mesmo tempo 400 mil trabalhadores pararam as fábricas do ABC e de outras grandes cidades indústrias do estado de São Paulo. Não se tratava apenas de salário e do direito a vida digna, agora e existência da ditadura vista como responsável pelo arrocho e repressão estava sendo diretamente questionada. Em sua edição de 23 de março, o jornal O Trabalho relatava a situação:

“TODOS CONTRA O ARROCHO – No dia da posse do general Figueiredo como quinto presidente da ditadura, 400 mil trabalhadores levam em frente a vigorosa campanha salarial dos últimos. Seis categorias querem um salário melhor, o direito de greve, um sindicato livre, liberdade para lutar por suas aspirações sem qualquer ameaça da polícia. Tudo aquilo, enfim, que lhes vem sendo tomado por diversos governos dos patrões, principalmente pelo regime militar instaurado em março de 1964, e que se ergueu sobre o arrocho salarial, as péssimas condições da vida e nenhum respeito pela vontade de mais de 90% da população brasileira. Parando as máquinas, a classe operária obriga o regime e os patrões a ouvirem sua voz.” (Jornal O Trabalho. Edição de 23 de março, 1979).

 

Após dez dias de greve, com manifestações, atos e mobilizações, as negociações entre patrões e empregados chegaram num impasse. O TRT-2 (Tribunal Regional Trabalhista da 2º Região) declarou ilegal a greve, os três principais sindicatos, que passaram a ser controlados pelo Ministério do Trabalho e seus diretores demitidos.

Com a decretação da intervenção nos sindicatos, o governo intensificou a repressão. Tropas da Polícia Militar ocuparam São Bernardo do Campo. Com o fechamento do sindicato, as reuniões passaram então a ser feitas em igrejas.

Em paralelo, desenvolveu-se na sociedade um amplo movimento de solidariedade à greve, com recolhimento e doação de alimentos e dinheiro. Essas atividades eras coordenadas perincipalmente por entidades sindicais, religiosas e estudantis.

Nesse quadro, Luiz Inácio Lula da Silva o Lula, presidente do sindicato dos metalúrgicos de São Bernardo do Campo, defendeu a suspensão da greve por 40 dias, e a retomada das negociações salariais.  Em maio, foi assinado um acordo entre o sindicato e a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) e, no dia seguinte, com o Grupo 14 da FIESP (formado por 22 sindicatos patronais da indústria metalúrgica). O acordo concedia 63% de aumento, sem escalonamento, determinando que, acima desse teto, seria aplicado o índice oficial de reajuste de 44%.

O acordo foi aprovado pelas assembleias, que agruparam cerca de 60 mil operários em São Bernardo do Campo, 3 mil em Santo André e 500 em São Caetano do Sul. Em junho, o ministro do Trabalho, Murilo Macedo, permitiu o retorno da antiga direção do sindicato.

Pesquisa e redação por Thiago S Annunziato

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