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A educação pública e o direito ao ensino de qualidade

Walter Takemoto*

Quando se fala de escola pública e do desempenho dos alunos que nela estudam, se fala da baixa qualidade, dos adolescentes e jovens desinteressados, das famílias que não se responsabilizam pela educação dos filhos, dos professores despreparados, entre outras coisas como, por exemplo, o Maluf dizer que professora reclama do salário por ser mal casada ou o Serra falar que o problema do desempenho dos alunos de São Paulo é responsabilidade dos filhos dos imigrantes, ou seja dos nordestinos que foram para a cidade grande.

Um dos problemas da escola pública é decorrência direta do autoritarismo e do desprezo da elite em relação aos pobres e excluídos. Anísio Teixeira, mais de 50 anos atrás, já dizia que quando as escolas públicas foram abertas para os pobres, negros e excluídos, reduziram a carga horária, suprimiram disciplinas e amontoaram os alunos em três ou até quatro turnos. Ou seja, bastava ensinar a ler e escrever para que pudessem ser explorados como mão de obra.

Faz pouco tempo, menos de 20 anos, que quase todas as crianças passaram a ter acesso à escola pública, pelo menos o direito de frequentar uma sala de aula, que até então nem isso era possível a todos. Mas ainda persiste o fato de que muitos vão às escolas, mas nem todos aprendem. Ou seja, o direito de ter uma aprendizagem de qualidade, ter sucesso escolar, ainda é reservado para poucos.

E as crianças pobres ainda precisam superar outras barreiras. Nas periferias das cidades conseguir chegar às escolas é uma delas, pois o preço das passagens de ônibus pesa no orçamento familiar, basta vermos que mais de 50% das pessoas com renda familiar de até um salário mínimo andam a pé ou de bicicleta.

Nas zonas rurais caminhar a pé, em estradas de barros, sacolejar na carroceria de um caminhão, viajar de ônibus por até duas horas até chegar a escola, é outra demonstração do que precisam superar as crianças para frequentar uma escola.

E nessas situações de vencer uma batalha a cada dia para estar fisicamente na escola também se encontram muitos professores, não raro entregues à própria sorte, sem nenhum apoio do poder público.

Quando olhamos para a realidade da escola pública, seus alunos e professores, e constatamos a distância existente entre os projetos e programas oficiais que dizem pretender transformar a educação, como os planos milagrosos para o ensino médio “inovador”, é que aumenta ainda mais a certeza de que ou os educadores, alunos e pais assumem a tarefa de pensar e construir um projeto educacional para o país, ou então nada mudará efetivamente.

E ai é preciso lembrar do que escreveu e cantou Caetano Veloso:

“E na TV se você vir um deputado em pânico mal dissimulado
Diante de qualquer, mas qualquer mesmo, qualquer, qualquer
Plano de educação que pareça fácil
Que pareça fácil e rápido
E vá representar uma ameaça de democratização
Do ensino do primeiro grau
E se esse mesmo deputado defender a adoção da pena capital
E o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto
E nenhum no marginal…”

* Walter Takemoto é psicólogo e consultor educacional para Secretarias de Educação. Foi diretor de Política da Educação Fundamental do Ministério da Educação.

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