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O recente anúncio do prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, em conjunto com o governador Geraldo Alckmin, do valor do bilhete mensal integrado de R$ 230,00, é uma afronta ao que foi expresso pelas manifestações de junho, que se colocaram claramente contra o sistema de transporte público vigente.

De forma absurda, o prefeito, demonstrando sua profunda incompetência e autoritarismo, na medida em que ignora reivindicações e não discute as medidas com a sociedade, faz parecer estar beneficiando o passageiro, mas está na verdade beneficiando os donos das empresas de ônibus, só para não perder o costume.

A origem do problema, e da armadilha lesiva aos cofres públicos, está na incompatibilidade entre o bilhete mensal e o pagamento às empresas por passageiro.

Para demonstrar, em números resumidos, a tabela abaixo reproduz o custo das empresas do transporte integrado na cidade, com base em balanços oficiais divulgados em seus sites:

Empresa Passageiros/mês Despesa mensal Custo passageiro
A – SPTrans (planilha de custo 2013) 125.000.000  R$ 516.000.000,00 R$ 4,13
B – Metrô 73.097.583  R$ 139.497.744,11  R$ 1,91(a)
C – CPTM 63.666.667 R$ 121.500.000,00 R$ 1,91(b)
D – custo real R$ 776.997.744,11
E – número de usuários (passageiros A/26 dias) 4.807.692 R$ 776.997.744,11
F – valor passe mensal R$ 161,62(c)

Observações:
(a) O valor da despesa do metrô feito pela média por passageiro da CPTM.
(b) Esse número de passageiros e despesas referem-se a 22 municípios, sendo 19 na região metropolitana.
(c) O valor do passe mensal é obtido dividindo a despesa total atual cheia pela média de pagantes por dia útil.

Evidentemente, só por esse calculo rápido, sem levar em conta a racionalização do sistema, já fica claro que o valor do Bilhete Único Integrado, que poderia ser próximo de R$ 160,00 – o que pagaria todo o custo das empresas e incentivaria sua aquisição –, é exagerado e acaba passando por baixo do pano o aumento que tentaram impor no primeiro semestre de 2013.

Mas o mais grave não está aí. O pior é o que está por trás dessa manobra.

Como o sistema se baseia em remunerar por passageiro, o fato de ter um bilhete único mensal deve aumentar o número de viagens. Por exemplo, os funcionários que recebem vale-transporte – que representam perto de 50% dos usuários do transporte público. Esse vale de 26 dias de ônibus mais integração custa para o empregador R$ 241,80. Se as empresas passarem a conceder o bilhete único mensal, conveniente pela redução de custo, esse funcionário terá à sua disposição transporte gratuito para outras atividades, por exemplo, de lazer.

É aí que está a armadilha!!

Como o sistema absurdamente remunera por passageiro, essas passagens “extras” serão pagas pela prefeitura às empresas particulares pelo valor de R$ 4,13, o que deve aumentar o custo da SPTrans, decorrente do aumento do número de passageiros transportados sem que haja receita correspondente.

Quem vai pagar a conta é o contribuinte, pois essa diferença sairá da arrecadação municipal, sem que haja qualquer justificativa para tanto, na medida em que a frota das empresas irá circular da mesma forma e com a mesma periodicidade, turbinando a receita das concessionárias.

Como ninguém será obrigado a usar o bilhete mensal, a artimanha deve ter sucesso na medida em que a transferência de fundos dos cofres da prefeitura para as empresas de ônibus ficará escondida em meio a números e mais números demonstrativos das finanças municipais.

E assim, em nome do povo, os empresários de ônibus serão beneficiados mais uma vez.

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1 Comentário

  1. Renata Miranda Filgueiras

    Olá. Não sei como funciona o bilhete único mensal, mas não entendi a lógica da conta do texto. Vocês dividem o número de usuários da sptrans (que são somente os ônibus, é isso?)por 26 dias (imagino que seja uma média de dias úteis trabalhados), encontrando assim o nº de usuários por dia (mas só da sptrans?)Em seguida dividem a despesa mensal de todos os sistemas (sptrans, CPTM e Metro) por esse nº de usuário mensal. Por quê? Gostaria de entender melhor a conta… Obrigada.

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