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Estão juntos e incomodados

Na medida em que o processo eleitoral de 2014 começa a tomar forma, os acordos vão se consolidando e cada um elege suas alianças. No Brasil do século XXI, já ficou mais do que claro que existem duas forças políticas agregadoras, em volta das quais os satélites orbitam.

De um lado o governo PT, que ainda guarda alguma relação com os movimentos populares, mesmo que seja uma relação até certo ponto conflituosa, por conta das outras alianças eleitorais que o partido faz, mantendo ativo o balcão de negócios construído por Pedro Alvares Cabral.

Do outro lado, permanece o PSDB, na figura de um Aécio Neves que tenta ser o porta-voz daqueles que antes operavam o velho balcão e tiveram que se conformar em jogar um papel cada vez mais secundário.

Sobre os atores principais, nenhuma dúvida, mas o que começa a clarear é a trajetória dos satélites. O caso mais importante é Eduardo Campos, a quem se agregou Marina Silva, diante da inviabilidade de regularizar sua “Rede”. Claro que os dois, sem se apoiarem no governo, terão que se juntar a alguém que tenha personalidade política. E já começam os “convites”. A revista Época publicou em coluna de Felipe Patury:

“Em evento no Instituto Brasileiro de Mercados de Capitais (Ibmec), no Rio de Janeiro, o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga concordou com as recentes declarações da ex-senadora Marina Silva de que o modelo econômico implantado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso foi deixado de lado. O economista disse: ‘Estamos numa trajetória perigosa. Se o tripé econômico ainda não morreu, está sendo imensamente fragilizado’.”

É interessante lembrar que o tripé é composto por câmbio flutuante, controle de gastos e metas de inflação. O câmbio passou por um período de grande especulação, mas parece que seu gás acabou. As metas de inflação têm sido usadas como pretexto para aumento dos juros, o que favorece o capital financeiro e os rentistas. Por fim, o controle de gastos destina-se exatamente a guardar dinheiro para pagar os juros da dívida. Ou seja, um tripé de medidas para um único beneficiário, o capital financeiro.

Então, para o bom esclarecimento de posições, temos hoje um alinhamento de posições de Marina Silva com um dos maiores mentores da política econômica de FHC.

Claro que, sem nenhum preconceito, podemos analisar se o alegado abandono do tripé é realmente ruim do ponto de vista da população. Para começar, a estatística do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), que apura o número de admitidos e demitidos mensalmente, para o mês de setembro de 2013, por setor.

EM 12 MESES
Setores Total admitidos Total desligados Saldo Variação empr. %
Extrativa mineral 57.325 54.652 2.673 1,18
Indústria de transformação 4.006.692 3.906.878 99.814 1,19
Serv. indust. de util. pública 110.893 105.803 5.090 1,33
Construção civil 2.858.929 2.793.604 65.325 2,01
Comércio 5.313.910 5.002.231 311.679 3,56
Serviços 8.369.017 7.852.713 516.304 3,18
Administração pública 117.154 120.137 -2.983 -0,33
Agropecuária 1.227.855 1.241.184 -13.329 -0,78
Total 22.061.775 21.077.202 984.573 2,47

Desse ponto de vista, se a situação não é a melhor possível, não é nada ruim se comparada à situação internacional, notadamente na Europa, já que tivemos a geração de quase 1 milhão de empregos nos últimos 12 meses, apenas com leve redução na agropecuária e no serviço público.

Além disso, a renda média também tem aumentado, conforme pesquisa feita pelo IBGE em Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre.

Especificação Estimativas
Habitualmente recebido por mês – trabalho principal setembro de 2012 agosto de 2013 setembro de 2013
Pessoas ocupadas R$ 1.866,60 R$ 1.888,50 R$ 1.908,00
Empregados no setor privado R$ 1.651,08 R$ 1.692,23 R$ 1.707,50
Empregados no setor público R$ 2.903,18 R$ 2.963,73 R$ 3.022,10
Efetivamente recebido no mês de referência – trabalho principal agosto de 2012 julho de 2013 agosto de 2013
Pessoas ocupadas R$ 1.865,23 R$ 1.880,52 R$ 1.900,14
Empregados no setor privado R$ 1.657,72 R$ 1.687,79 R$ 1.704,06
Empregados no setor público R$ 2.914,43 R$ 2.976,55 R$ 3.009,47

Se não é uma maravilha, também não podemos dizer que há uma situação de perda de renda dos trabalhadores, que levaria ao aumento da inadimplência, o que não se verifica, pois foram amplamente noticiadas há poucos dias pesquisas recentes que mostram, ao contrário, o recuo da inadimplência no sistema financeiro, conforme dados obtidos no sitio do Banco Central.

Se em março de 2011 a inadimplência total era de pouco mais de 5% sobre o total de crédito, que é de mais de 55% do PIB, houve um aumento que chegou ao pico de 6% em maio de 2012 e de lá para cá vem caindo constantemente até ficar próxima de 4,8% em setembro de 2013. O volume de crédito é de mais de 55% do PIB e tem crescido constantemente, ao mesmo tempo em que a inadimplência cai, demonstrando que o processo está longe de ser alarmante como veem Armínio Fraga e Marina Silva.

A Associação Comercial de São Paulo, também constatou em pesquisa que neste ano caiu significativamente o número de pessoas que vai usar a primeira parcela do 13º salário para pagar dívidas, de 32,6% em 2012 para 24,5% neste ano, ao mesmo tempo que 20,4% pretendem poupar, em comparação com 16,3% que declararam o mesmo em 2012.

Se o emprego e a renda não estão em declínio, também o PIB tem crescido e, mesmo que moderadamente, tem se refletido no aumento da massa salarial.

Diante dessa realidade, se os satélites começam a se agrupar com correntes à direita, inclusive incorporando suas críticas, que visam a volta a um modelo de concentração de renda e benefícios infinitos aos amigos do capital financeiro, além de terem transferido todo o patrimônio público para os monopólios privados, é porque estavam no governo por puro oportunismo.

Já o governo, quando vacila em tomar as medidas adequadas, pensando em atrair os oportunistas que balançam de um lado para outro, apenas fornece munição aos que não querem que se aplique de forma decente o dinheiro público, destinando-o aos que realmente precisam das políticas sociais para sair da situação de miséria a que foram submetidos nos últimos 500 anos.

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