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Apontamentos sobre o atual estado da luta de classes na França

Danilo Chaves Nakamura*

“Se a emancipação das classes operárias requer o seu concurso fraterno, como é que irão cumprir essa grande missão com uma política externa que persegue objetivos criminosos, joga com preconceitos nacionais e dissipa em guerras piratas o sangue e o tesouro do povo?”
Karl Marx, julho de 1870

No fim de 2010, massivas mobilizações populares contra a reforma da previdência social de Nicolas Sarkozy ocorreram em diversas cidades da França. A partir delas, e de acontecimentos similares em outros países da Europa, o historiador Danilo Nakamura vê a retomada da luta de classes e analisa a situação da classe trabalhadora nesta época de crise econômica e dominação do capital financeiro.

Luta de classes na Era da Emergência

“A devastação que a epidemia econômica causara no comércio e na indústria tornou ainda mais insuportável a dominação exclusiva da aristocracia financeira (…).”
“As oscilações da última crise comercial europeia ainda não se tinham dissipado. As bancarrotas ainda se seguiam umas às outras.”
“A presunção burguesa e a arrogância dos capitalistas despertaram subitamente ao verem a pressa escrupulosa com que se procurava comprar-lhes a confiança.”
“(…) A Bolsa rege o crédito do Estado como o sistema bancário [rege] o crédito comercial.”
“Aos operários não restava escolha: ou morriam de fome ou iniciavam a luta.”
Karl Marx, “As lutas de classes na França – 1848 a 1850”, Expressão Popular, 2008, p. 71-92.

Essas palavras de Karl Marx – deslocadas de seu tempo – parecem encaixar-se na paisagem da crise econômica mais recente. Na metade do século XIX já era possível presenciar os personagens do capital financeiro, o acúmulo de capitais ociosos nas bolsas de valores e nos bancos, a quebra do setor produtivo e comercial, o papel do Estado na salvaguarda dos interesses de grupos particulares, a confiança readquirida ao denunciar os altos proventos dos homens de negócio gananciosos e a tendência da crise de se espalhar pelo mercado. Também era possível definir o sentido último de toda crise capitalista: “(…) a pobreza e restrição do consumo das massas face ao impulso da produção capitalista a desenvolver as forças produtivas, como se seu limite fosse apenas a capacidade de consumo absoluta da sociedade” (MARX, K. 2003. p. 501).

Mas analogias forçadas à parte, o fato é que estamos diante de uma crise distinta daquela analisada por Marx na década de 40 do século XIX. A crise econômica, aberta em 2007 com o estouro da bolha imobiliária nos Estados Unidos, desenvolve-se num cenário de dominação do capital financeiro. No turbilhão de 1848, o setor financeiro ainda estava em gestação. O modo “natural” que o capital utilizava para sair das crises era: “destruição de grande massa de capital fictício e de capital-mercadoria invendável, acompanhada de um período de grande penúria dos trabalhadores, e cujo resultado final é a concentração do capital restante nas mãos dos grupos capitalistas sobreviventes” (LETIZIA, V. 2009. p. 2). Hoje, o capital ocioso está sendo preservado com o intuito de garantir arbitrariamente os direitos do capital financeiro. “A forma de ‘resolver’ essa crise tem jogado para a frente, de forma magnificada, o mesmo problema, pois busca salvar a riqueza financeira da fogueira que ela mesma provoca” (PAULANI, L. 2009).

Também é importante lembrarmos que a dominância financeira do capitalismo contemporâneo é produto da mundialização do capital. Na época de Marx, a periferia do capitalismo aparecia como apêndice das economias europeias, a entrada da China no mercado mundial era uma espécie de sonho/pesadelo dos capitalistas britânicos. Os países em desenvolvimento estavam deixando de ser colônias, na América, ou então, sendo transformados em postos avançados da corrida imperialista europeia na África e na Ásia. Hoje, a China – sob os olhos do Partido Comunista – é um espaço privilegiado do crescimento capitalista. Outros países asiáticos seguem o mesmo caminho chinês de crescimento econômico, ou seja, baseando-se na superexploração da população. No continente americano, o exemplo de uma (ex) periferia feliz, é o Brasil que aparece como modelo de sucesso na produção de commodities e como plataforma privilegiada na valorização de capitais especulativos. Enquanto os problemas de fundo não aparecem, devido à formação específica do sistema financeiro de cada um desses países e somados às intervenções estatais, decolamos, para falarmos como a revista The Economist, rumo a um horizonte incerto.

Faço essas rápidas ponderações sobre a economia mundial para arriscar alguns palpites sobre o horizonte da classe trabalhadora. Este também é incerto, mas nos interessa diretamente, quando o que procuramos é uma saída anticapitalista para uma crise que ainda rasteja. Se na introdução de 1895 a As lutas de classe na França – 1848 a 1850, F. Engels já apontava para a necessidade de repensar as estratégias da luta operária, devido ao lugar que ela conquistou após as jornadas de 1848 e a Comuna de 1871. Mas atenção, Engels defendia isso, mas sem abrir mão do que ele denominou de “direito à revolução”, único “direito” realmente “histórico”, o único em que assentam todos os Estados modernos sem exceção (ENGELS, F. 2008. p. 58). Passados mais de cem anos, é essa integração da classe operária com poder de barganha que deve ser repensada, assim como o “direito à revolução”, antes reconhecido como incontestável pela consciência universal.

Saltando alguns anos, temos, no imediato pós-Segunda Guerra Mundial, uma classe trabalhadora europeia capaz de arrancar das classes dominantes o papel de “parceira social” no processo de consolidação de uma nova sociedade. As mobilizações da classe trabalhadora, somadas ao espectro da Revolução de Outubro, permitiram à classe trabalhadora formas de acesso ao produto social e o reconhecimento do trabalhador como membro de um coletivo dotado de um estatuto social (CASTEL, R. 2003. p. 434). Se pularmos para os nossos dias, podemos perceber que o atual regime de acumulação de capital é subproduto da acumulação industrial anterior; “(…) a consequente expansão e diversificação das atividades financeiras no espaço mundial facilitou a circulação da enorme massa de capital que vinha se acumulando nos fundos de pensão – provenientes da prosperidade americana e do Estado de bem-estar social europeu após 1945 – que se somava à torrente de juros vinda dos países periféricos – que nessa época faziam sua industrialização impulsionada por endividamento externo –, assim como da massa de dólares depositados nos bancos ocidentais pelos países produtores de petróleo do Oriente Médio, que ganharam maior participação nos lucros durante os conflitos dos anos 60-70 nessa região” (LETIZIA, V. 2009. p. 3). Percebemos também que o desenvolvimento das finanças, que aparece no interior das relações econômicas e sociais, inviabiliza o compromisso de uma sociedade salarial, já que os “custos” do Estado de bem-estar começam a se chocar com a lucratividade do capital.

Então, é a partir da dissolução da sociedade salarial que devemos pensar a classe trabalhadora. A interrupção da “parceria” deixa claro que as chamadas “conquistas sociais” se apoiavam num progresso do qual os assalariados não controlavam nenhum dos parâmetros. Que a ampliação das proteções sociais teve como efeito a dissolução dos indivíduos na lógica do planejamento estatal de controle da segurança. E que o indivíduo está em contato direto com a lógica da sociedade salarial que se dissolveu. Portanto, se o Estado se retira, é o vínculo social que corre o risco de se decompor (NAKAMURA, E. 2009. p. 3).

Paralelo a isso, o “direito à revolução” que foi relegado à simples ilusão de um passado. Em parte essa renúncia é responsabilidade da esquerda que, presa em sua má consciência pelo despotismo e pelas atrocidades que defendeu durante os anos do socialismo de caserna soviético, hoje não vê outra saída a não ser a do capital (LETIZIA, V. 1996). Por outro lado, esse “direito” está esfumaçado por uma ideologia da emergência que se objetiva transformando tudo em urgência: decisões econômicas, políticas securitárias, políticas sociais (moradia, saúde, educação, meio ambiente) (ARANTES, P. 2008). Era da Emergência, cujo soar do alarme é o mesmo de 200 anos atrás. Só que lá o barulho era sinal de que o mundo deveria ser virado de ponta cabeça pelas classes oprimidas. Aqui, o “eminente fim do mundo” é a oportunidade estratégica para que o capitalismo sobreviva, desastre após desastre (KLEIN, N. 2007).

Enfim, chegamos onde queríamos chegar desde o início deste artigo. Felizmente, o percurso histórico não é linear, tampouco passível de previsões certeiras a partir de cálculos estatísticos e econométricos. Os recentes acontecimentos na Europa, principalmente na França, demonstram isso e apontam para o retorno da luta de classes num patamar ainda indefinido. O que se segue é apenas uma tentativa de procurar entender em que situações nós – anticapitalistas – nos encontramos. Partiremos dos estudos sociológicos sobre a condição operária francesa e de algumas análises divulgadas no último número da revista Carré Rouge sobre as lutas sociais deste fim de 2010.

‘Modernização’ capitalista

Michel Pialoux e Stéphane Beaud vêm há pelo menos duas décadas estudando a classe operária francesa (ver: Retorno à condição operária – investigação em fábricas da Peugeot na França, Violences urbaines, violance sociale: genèse des nouvelles classes dangereuses, 80% au bac… et après, Pays de malheur! Un jeune de cite écrit à un sociologue e outros). Eles fazem parte de uma geração de sociólogos franceses que têm contribuído muito na renovação dos estudos sobre o mundo do trabalho, sobre o processo de reestruturação do setor produtivo, sobre a desestruturação dos antigos vínculos de solidariedade, etc. Junto dessa dupla podemos incluir as boas análises de Danièle Linhart sobre a angústia e o sofrimento no trabalho. As sugestões de Luc Boltanski e Ève Chiapello sobre o que eles chamaram de Le Nouvel Sprit du Capitalism. E outros, como Christophe Dejours, que estudou os danos psicológicos causados no trabalho e Oliver Masclet que estudou a questão das moradias na França.

Vamos ao que interessa. Segundo Danièle Linhart, a reestruturação do trabalho está ligada à crise provocada pelas novas formas da concorrência e da evolução do mercado. Essa “modernização” começou nos anos 1970, como reação imediata aos acontecimentos de 1968; o intuito era inverter a relação de forças tornada demasiadamente desfavorável e ligada à expansão da classe operária. No caso do ramo produtivo estudado por Pialoux e Beaud – fábrica automotiva – isso significou “romper em poucos anos com a organização mais taylorista do trabalho e adotar o “modelo” japonês, que se tornara mais eficiente em termos econômicos” (PIALOUX, M; BEAUD, S. 2009. p. 25). Esquematicamente: “produção em fluxos tensos (‘estoque zero’, ‘pane zero’) e na imposição de normas de qualidade muito estritas (‘defeito zero’). A partir daí, a competitividade da indústria de automóvel baseia-se na rapidez de adaptação à demanda (diz-se que ‘o mercado entrou na fábrica’) e na confiabilidade dos carros. Nesse sistema de produção, em que um carro produzido é um carro encomendado na concessionária, o objetivo consiste em utilizar da melhor maneira possível as empresas subcontratadas (os chamados ‘fornecedores’) que entregam dia a dia as peças para a montagem dos veículos” (ibidem, p. 25).

Essas mudanças trouxeram também uma série de reformulações na relação capital/trabalho. Reformulações que não foram apenas causadas por um relativo enfraquecimento numérico do operariado. Novamente segundo Pialoux e Beaud, esse processo diz respeito a uma história social muito mais ampla, onde a classe operária perdeu sua autonomia simbólica. Os operários foram batizados de “operadores”, os horários foram individualizados através de jornadas flexíveis, os sindicatos ficaram desorientados, os antigos operários foram forçados a se adaptar à nova ordem produtiva em que os gestores impõem objetos quantitativos em curto prazo, os assalariados foram empurrados para um engajamento subjetivo em busca de baterem metas, etc. Como se não bastasse, soma-se que essa desestruturação atinge outras esferas da atividade social, como escola, moradia e família. Além de gerar um sentimento de angústia, insegurança e competitividade num país onde o nível de desemprego é de mais de 10% (aproximadamente 4 milhões de pessoas. Principalmente jovens com menos de 25 anos e pessoas de mais de 55 anos).

O descompasso entre as gerações

O interessante no trabalho de Pialoux e Beaud é a demonstração de que a dissolução do Estado de bem-estar não é uma simples retirada de direitos sociais, mas sim uma destruição deliberada de toda uma sociedade que se ergueu ao redor do mundo do trabalho: escola, moradia, sindicatos. E que essa destruição reflete o grau de desconexão entre pais e filhos das famílias operárias (CHESNAIS, F. 2000. p 35-36).

Pialoux e Beaud, em seus materiais de campo, recolheram inúmeras entrevistas nas fábricas, nos sindicatos, nas escolas e nas cidades e bairros empobrecidos. Promoveram também bate-papos entre três gerações de operários (1° – operários sindicalizados, politizados. Lutaram, conquistaram benefícios sociais e hoje, em sua maioria aposentados, sentem orgulho dessas lutas. 2° – geração que já tem 20 anos de trabalho. Ainda se orgulha de ter trabalhado duro, de ter lutado e transmitido valores de um movimento operário estruturado mental e politicamente. 3° – originários de cidades empobrecidas dos anos 1990 e filhos de imigrantes. Rejeitam a herança do mundo operário e sonham com um sucesso individual de pequeno patrão. São vítimas diretas da dinâmica de segregação social e espacial que há 15 anos provoca fraturas escancaradas no universo das classes populares).

O que chama nossa atenção é a revelação de como a reestruturação opera no grupo operário: pauperização material, sentimento de abandono e de desapego à hierarquia social, desmobilização do grupo e as mudanças no restante da sociedade. “As transformações dos anos 1990 na divisão do trabalho fizeram surgir subgrupos, os quais se tornaram tão vulneráveis, a ponto de não se saber mais se pertencem ou não à classe operária” (PIALOUX, M; BEAUD, S. 2002). Para os autores, a perda da autossuficiência, da identificação e da respeitabilidade de classe tem uma explicação. “Vinte anos de crise: os jovens, principalmente os de origem imigrante, foram quem suportou o peso maior e estão em vias de pagar por isso. Materialmente, através do desemprego e da precariedade. Mas também, em suas cabeças, através do refúgio na religião, da irritação devido à questão da identidade, da reafirmação do machismo, do ódio pelos ‘brancos’, etc., contribuindo para o desmoronamento do que havia de capital coletivo nas classes populares” (ibidem).

O que ouvimos é simplesmente o que poderíamos ouvir. Espanto seria eles ainda guardarem algum tipo de esperança em relação ao futuro, algum tipo de gratidão com as empresas, algum tipo de identificação com as ações dos sindicatos ou do PSF. O que temos é seu exato oposto: “A gente não quer depender de ninguém.” “Não queremos um chefe superior que nos dê ordens. Não queremos trabalhar na fábrica, queremos respirar, queremos ser patrão.” “Temos que evoluir.” “A gente é rebaixado, é preciso dizer as coisas como elas são… a gente é rebaixado quando é operário.” “De qualquer forma eu, com 19 anos, tenho consciência de que minha vida já era.” Sobre o Partido Socialista: “O laboratório experimental da sociedade destes 20 últimos anos (obrigado, socialistas de merda!) fecha e joga no lixo (ou na prisão) suas cobaias, mesmo contra a vontade destas últimas.”

Entre os muros

A consciência do fracasso começa cedo. No livro Pays de malheur!, Stéphane Beaud se corresponde com o jovem de origem magrebina Younes Amrani. Para o jovem, até o ensino primário tudo vai muito bem, “nossos dias felizes”. No liceu, as coisas complicam: “Tomamos consciência de que a concorrência é forte e que nós não temos as mesmas capacidades” (com relação aos franceses). O fracasso no bac agrava a situação. Soma-se a isso o serviço militar, o contato com o haxixe, o álcool, etc. A religião ameniza um pouco o uso de drogas, mas segundo o jovem, “o Islã às vezes representa um comportamento útil para o indivíduo, não oferece nenhuma solução coletiva”.

No bairro, Younes se lembra dos laços de amizade e dos destinos de seus companheiros: suicídio, depressão, loucura ou prisão. Para ele é insuportável: “Os caras estão desconsolados, a molecada gasta adoidado, as meninas se acham atrizes de cinema… E todo mundo está desempregado.” “Eu não acredito que a molecada de hoje seja mais feliz, acho que eles não são piores que nós; é o ambiente social que se tornou pior: menos trabalho que antes, colocados à parte os trabalhos temporários, mais tempo pra pensar e, quando sabem aquilo que alguns de nós vivemos, devem se dizer: ‘Nós somos mais espertos que eles, então faremos pior’” (in: HOLDER, S. 2006. p. 395-406).

O significado das palavras “aquilo que nós vivemos”. E que os meninos de hoje dizem “então faremos pior” são as revoltas. Younes viveu os acontecimentos de 1990-1995 de forma intensa e os últimos incidentes são ações de meninos mais jovens que Younes, que estão vendo as coisas piorarem nos seus bairros. Para que elas aconteçam, basta um detonador, pois a situação já é explosiva: o desemprego dos jovens com baixa escolaridade, a precarização sem saída, o agravamento da segregação urbana, o fracasso escolar, a pauperização e a desestruturação das famílias populares nos conjuntos habitacionais HLM (Habitação de Locação Moderada), a discriminação no recrutamento, o racismo ordinário, etc. (PIALOUX, M; BEAUD, S. 2006. p. 37). No outono de 2005, o detonador foi uma ação policial. Dois meninos de 15 anos, filhos de imigrantes malineses e tunisianos (lixeiros em Paris) que, perseguidos, se esconderam em uma central elétrica e morreram eletrocutados.

O discurso securitário – promovido pelo governo e seus intelectuais de plantão – procura encontrar microgrupos culpados, a fim de ocultar a gênese das atitudes dessa juventude, que sofre com os problemas estruturais de um país maldito. Esse discurso busca identificar os “meneurs”, “casseurs” ou “voyous”. Esse discurso, que busca a “ralé delinquente” no meio de possíveis “jovens verdadeiros”, faz parte de toda uma política que busca criar um estado de insegurança permanente. Na tentativa de tentar explicar esse estado de emergência como regra, Paulo Arantes escreve: “Nesse quartiers de tous les dangers, populações socialmente vulneráveis correm de fato o risco de se tornarem delinquentes, sendo, portanto, recomendável neutralizá-las antes de que passem às vias de fato. É quando os amálgamas estratégicos começam a despontar, pouco importa a procedência das ‘categorizações’, já que a luta contra a insegurança se generalizou: uma zona urbana sensível pode repentinamente se revelar uma zona de não-direito (numa e noutra direção jurídica), e logo numa zona de segurança, regida por uma lógica de guerra, conforme vai ficando patente no modo como se militarizam o vocabulário e as providências dos experts e agentes da ordem” (ARANTES, P. 2008. p. 33-34).

Um possível horizonte para as lutas futuras

Mesmo com reiteradas proclamações públicas do presidente Nicolas Sarkozy reafirmando que não mexeria na aposentadoria: “O direito à aposentadoria aos 60 anos deve permanecer.” Ou: “Eu não farei isso. Este é um compromisso que assumi perante os franceses. Portanto não tenho mandato para isso. E vocês sabem, essas coisas contam para mim” (HALAMI, S. 2010). Bastou o estouro da crise em 2007 e a chegada de pacotes de recomendações de instituições europeias e internacionais para que Sarkozy mudasse de ideia. Somam-se a isso as recomendações para que o governo congele os salários dos funcionários públicos, transferência de encargos financeiros acarretados por internações de longa duração, aumento da taxa de TVA (imposto sobre bens e serviços), além dos famosos ajustes fiscais. “Nós temos pela frente dez anos de rigor”, argumentou Jacques Attali, ex-braço direito do socialista François Mitterrand e hoje diretor de uma comissão do governo de Sarkozy cuja função é “liberar o crescimento”.

As manifestações foram massivas. Sete manifestações com aproximadamente 3 milhões e meio de pessoas, durante os meses de setembro e outubro. Todas as intersindicais estavam presentes: CFDT, CFTC, CGT, FSU, Solidaires e UNSA. Os partidos políticos de esquerda também estavam presentes nas jornadas de luta: PS, PC, NPA, Lutte Ouvrière e outros. E claro, os anarquistas, os “autonomes” e os san-papiers organizados. A reforma da previdência – que modifica a idade da aposentadoria de 60 para 62 anos (para quem trabalhou mais de 41 anos) e de 65 para 67 anos (para quem começou a trabalhar mais tarde, por conta dos estudos, do desemprego ou das licenças) – certamente foi o estopim do movimento. Mas outras coisas pesaram, como, por exemplo, a insatisfação em relação ao governo de Sarkozy, que sustenta os índices mais baixos de aprovação da história da Quinta República, os casos de corrupção como o affaire Woerth-Bettancourt, a tentativa do governo de tentar encobrir o tema da reforma com sentimentos xenófobos contra os romenos e os ciganos e outros.

Todavia, a novidade não estava nas bandeiras das organizações políticas dividindo o espaço das ruas, tampouco numa simples demanda de trabalhadores com espírito corporativo. O novo estava na participação de trabalhadores atomizados de diversas categorias e idades e na participação de jovens dos liceus (que já haviam se movimentado em 2006 por conta do CPE). Participações que, segundo algumas análises, demonstram que esse movimento era um movimento contra o mundo do trabalho pós-reestruturação, ou ainda, uma luta contra o neoliberalismo. As faixas e os gritos parecem revelar isso. A radicalidade dos bloqueios das refinarias que possibilitou (ou forçou) que outros setores paralisassem, também. E, o encontro de gerações de operários que, segundo a boa sociologia francesa, não se enxergavam como iguais, também aponta para essa direção.

Expressões contra o mundo do trabalho eram constantes durante as jornadas: “Melhor se matar de trabalhar do que morrer no trabalho!” “Por uma vida após o trabalho!” “Metrô, trabalho e túmulo”. Danièle Linhart argumenta que essas palavras revelam o que se tornou o trabalho na França. Para ela, a participação dos jovens, ao lado dos mais idosos, nos mostra a lucidez de uma juventude que sabe que a taxa de desemprego entre eles é uma das piores da Europa. Diante da batalha contra a reforma e contra esse assalariamento que causa angústias, sofrimentos e desmoralizações, apareceu outra expressão que chama nossa atenção: Je lutte de classes. Linhart interpreta que essa frase simboliza a continuidade, mas também a ruptura geracional da classe trabalhadora. Je lutte de classes seria “uma possível aliança entre o individualismo imposto pelo mundo do trabalho e uma tradição que dorme” (LINHART, D. 2010). Pierre Dardot e Christian Laval discordam; para eles “a fortuna desta fórmula é particularmente reveladora de uma nova configuração das forças sociais em que não mais as ‘vanguardas’ desempenham o papel reservado na formação de certas categorias. Mais amplamente, o ‘eu’ (“je”) expressa a consciência de que agora ‘luta de classes’ (“lutte de classes”) se refere ao campo subjetivo, devido às novas formas de poder no trabalho, de mobilização e formação da subjetividade” (DARDOT, P; LAVAL, C. 2010. p. 8).

Conclusões (necessariamente provisórias)

Sem querer plantar qualquer tipo de otimismo do tipo “Estamos vencendo!”, parece inevitável que a crise social avance com o desenvolvimento da crise econômica. Nosso exemplo aqui foi a França, mas países como Irlanda, Itália, Portugal, Espanha e Grécia vivem condições iguais ou piores que a francesa.

A situação dos movimentos de resistência é de extrema dificuldade. Atomização, desmoralização, angústia e sentimento de solidão marcam parte dos trabalhadores. Para quem considera isso algum tipo de exagero retórico, basta acompanhar o caso dos trabalhadores da ex-estatal France Telecom. Outra parcela perdeu qualquer tipo de esperança ou futuro dentro das atuais condições de trabalho. Esses são jovens da periferia, filhos de imigrantes árabes, que são perseguidos pelas políticas de segurança ou, quando não, se contentam com o espaço que foi reservado para eles, em trabalhos temporários e precários que exigem baixa qualificação. Incluem-se ainda os milhares de imigrantes clandestinos que buscam reconhecimento e/ou qualquer tipo de trabalho diante de uma economia de baixo crescimento. Condição operária sem classe operária, uma vez que o “mundo operário” passou – material e simbolicamente – por uma destruição deliberada.

No entanto, um horizonte emancipador parece se abrir. Claro, o caminho é tortuoso e nada garante que chegaremos a algum lugar. Os acontecimentos são muito recentes e ainda é difícil uma análise mais clara das forças sociais que se apresentaram nas Jornadas de Outono. Como defende François Chesnais, no movimento que irrompe “nosso desafio é identificar, com os trabalhadores e com os jovens que se politizam nas lutas, não o que nós (nós e eles) não queremos, mas o que queremos”. Um dia saberemos mais ou menos o que queremos implantar coletivamente. E sem delegação (CHESNAIS, F. 2010).

O alarme continua soando, mas ainda é cedo para anunciar o direito ao verdadeiro estado de emergência…

29 de dezembro de 2010.

* Danilo Chaves Nakamura é historiador, formado pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). Este artigo foi publicado na revista O Olho da História em dezembro de 2010.

 

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