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Mas por que sardinhas?

Ato na Piazza San Giovanni, em Roma. Foto de Ivone Lobo.

Uma ideia modesta, contrapor-se a um comício da direita na campanha eleitoral em Bolonha, em pouco mais de um mês virou uma avalanche Itália afora e já ganhou espaço até em outros países. O Movimento das Sardinhas se reivindica antifascista, não se vincula a nenhum partido e pretende se opor aos métodos e à “retórica populista” e agressiva da direita. “Sem insultos, sem símbolos, sem partidos”, resume o cientista político Mattia Santoni, um de seus criadores. Mas de onde vem o nome do movimento?

Mattia conta, em entrevista ao jornal Resto del Carlino, que tudo começou porque ele e mais três amigos, Roberto Morotti, Giulia Trappoloni e Andrea Garreffa, não se conformavam que na Bolonha vermelha a Liga de Matteo Salvini conseguisse fazer uma campanha tão ruidosa para as eleições à presidência da região de Emilia Romagna, marcadas para o fim de janeiro – a Liga está na disputa com a candidatura de Lucia Borgonzoni, em oposição ao atual presidente regional, Stefano Bonaccini, que concorre à reeleição pelo Partido Democrático.

Dessa indignação surgiu a ideia de convocar uma contramanifestação para 14 de novembro, dia em que a Liga faria um comício no estádio de PalaDozza. Mattia diz que os quatro rodaram a noite discutindo e decidiram convocar um ato tipo flash mob na Piazza Maggiore, com a meta de superar o número de participantes do comício da Liga. A divulgação foi feita via Facebook, com a criação do evento “Seis mil sardinhas contra Salvini”, que convidava os bolonheses a comparecer à praça e explicava: “O PalaDozza tem uma capacidade máxima de 5.570 pessoas. Não se pode ir além por problemas de segurança e, sobretudo, problemas de espaço. É por isso que queremos lançar um flash mob: medimos e verificamos que até 6.000 pessoas cabem na Piazza Maggiore.”

O convite dizia: “Sem bandeira, sem partido, sem insulto. Crie a sua sardinha e participe da primeira revolução dos peixes da história.” Em que a “sardinha” representava a proposta de ficarem todos apertados como sardinhas em lata para mostrar que a praça estaria lotada. Próximos uns dos outros e silenciosos como peixes, para baixar o tom da “retórica populista” da Liga.

“Queríamos ter pelo menos uma pessoa a mais do que as que iriam à manifestação deles”, conta Santoni. Bom, não foram 6 mil a comparecer ao ato. Foram 15 mil pessoas que lotaram a Piazza Maggiore, armadas com sardinhas de papelão e espremidas como sardinhas em lata. A “revolução dos peixes” viralizou e se estendeu para outras cidades, num mês agitadíssimo, em que Mattia, Roberto, Giulia e Andrea funcionaram como pontes para ajudar a organizar eventos em todos os cantos. No dia 14, o movimento promoveu uma manifestação monstro na Piazza San Giovanni, em Roma, em que garante ter reunido 100 mil pessoas.

Além do formato pouco ortodoxo de seus atos, com sardinhas de papelão, jogos de palavras com todas as associações possíveis com sardinhas e os flash mob – em que a música mais ouvida é Bella Ciao, o hino da resistência italiana contra o fascismo de Benito Mussolini e as tropas nazistas durante a 2ª Guerra Mundial, o Movimento das Sardinhas tem uma presença pesada nas mídias sociais. Basta fazer uma busca na internet com a expressão “6000sardine” para encontrar as páginas do movimento no Facebook, no Twitter, no Instagram, com agendas, comentários, manifestos, receitas de como produzir sua sardinha, chaveiro ou penduricalho para a porta, etc, etc, etc.

As sardinhas, claro, sofrem uma chuva de acusações da extrema direita. Há também quem diga que o movimento não é tão espontâneo assim, que seus organizadores têm laços com o Partido Democrático, que seria seu verdadeiro organizador, agindo nos bastidores. Mattia e os amigos negam qualquer ligação partidária ou intenção de entrar nessa arena.

No domingo passado, o movimento fez sua primeira reunião nacional, para definir formas de organização, rumos e prioridades. Uma das principais conclusões do encontro foi manter-se como movimento e não criar um partido das sardinhas. Outra foi eleger como alvo central o decreto contra a imigração que o país herdou de Salvini. Além disso, as sardinhas se colocam contra a “violência verbal” na política, exigem “transparência no uso que a política faz das redes sociais” e fidelidade aos fatos nos meios de comunicação. Em entrevistas, Mattia diz que seu combate é antifascista, pró-igualdade, contra a intolerância e contra a homofobia. “As sardinhas são apenas pessoas que preenchem um espaço com suas ideias e lutam contra um inimigo – a simplificação dos assuntos pelos populistas.”

 

Com informações da revista online Panorama e do site Esquerda.net.

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