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‘Só a união latino-americana permite enfrentar o império’, diz Chávez

José Arbex Jr.

Nesta entrevista a José Arbex Jr., publicada pela revista Caros Amigos em 2004, o dirigente político sul-americano Hugo Chávez nos oferece a oportunidade de entender as profundas transformações políticas e sociais colocadas em marcha na Venezuela nos últimos 20 anos pelo Movimento Bolivariano, seu forte apoio popular e o ódio que provoca na elite social e política do país, subserviente fiel dos interesses norte-americanos.

Sua morte prematura, no dia 5, inaugura uma nova etapa no processo político do país vizinho, com impactos importantes na América do Sul. Nas ruas, praças e avenidas de cada cidade venezuelana há manifestações de dor e pesar pela morte de Chávez. Num futuro não muito distante, seja por conta do processo eleitoral seja para preservarem e ampliarem conquistas sociais, políticas e econômicas, ocuparão esses mesmos espaços públicos na defesa da democracia e da independência nacional. Estamos com eles na dor e na luta.”

“E então, como estão as coisas no Brasil?”, pergunta Hugo Chávez no dia 25 de julho, uma bela tarde ensolarada, data do aniversário de Caracas (fundada em 1567) e quase a do libertador Simón Bolívar (nascido em 24 de julho de 1783, “mas dizem que foi à meia-noite de 24, ou logo nos primeiros minutos de 25”, afirma o presidente, revelando uma certa vontade cabalística de enxergar mais do que uma simples coincidência nas datas). Chávez, que fará 50 anos em 28 de julho, acaba de encerrar a 199ª edição do programa dominical Alô presidente, quando instala o seu governo em alguma praça pública de uma cidade qualquer da Venezuela, para ali ouvir críticas, queixas, elogios e promover debates sobre o seu governo, tudo transmitido ao vivo, pela rede de TV pública (Canal 8, e agora também o novo Canal Vive) e por emissoras de rádios comunitárias.

Alguns programas duram até 6 horas, mas batem recordes de audiência, em grande parte porque seu principal animador é uma figura extraordinária: entre uma análise política do imperialismo de George Bush e a defesa apaixonada da unidade latino-americana, Chávez conta anedotas, declama poesias, canta, recomenda a leitura de livros, conversa por telefone com gente que liga de todas as partes.

Ao receber a Caros Amigos, logo após o encerramento do Alô presidente, às 16h30, dessa vez realizado em Caracas, num parque ao lado do palácio presidencial de Miraflores, Chávez exibe olheiras profundas, tem a voz rouca e dá sinais evidentes de cansaço. Teve uma semana alucinante de trabalhos, que incluíram a reunião de cúpula com o presidente argentino, Nestor Kirchner, em Puerto La Cruz, na ilha Margarida, em 23 e 24 de julho, com a participação de 500 empresários (355 venezuelanos e 145 argentinos), e a assinatura de acordos que totalizaram 80 milhões de dólares, além dos preparativos para o plebiscito revogatório convocado para o dia 15 de agosto.

“Os acordos com Kirchner já foram um primeiro resultado da entrada da Venezuela no Mercosul, no dia 8 de julho”, afirma. “Eu já disse aos empresários venezuelanos: a partir do dia 1 de agosto, todos já vão sentir os benefícios. Poderão exportar vários produtos para o Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai sem pagar impostos. Isso vai estimular muito a economia nacional.”

José Arbex Jr. – O sr. espera continuar no governo após o dia 15 de agosto? Os representantes da oposição dizem que vencerá o “sim” (à revogação do mandato presidencial, previsto para terminar em janeiro de 2007).

Hugo Chávez – Olha, eu já falei ao meu grande amigo Fidel Castro: no dia 15 de agosto, tome muito cuidado ao caminhar por Havana, pois correrá o risco de ser atingido em cheio por um petardo (risos). Imagine que o referendo é um jogo de beisebol [esporte muito popular no país]. Eu te garanto que nosso bastão vai atingir a bola da oposição com tal impacto, que ela vai sair daqui da Venezuela, vai passar voando a uma velocidade alucinante por Havana e vai chegar até Washington, quando atingirá em cheio a testa de George Bush. Por isso eu digo: Cuidado, Fidel! Abaixa a cabeça! (risos). Nós estamos certos de que obteremos uma grande vitória. Mas não somos ufanistas. Estamos trabalhando arduamente para esclarecer o povo sobre o que está em jogo.

A oposição respeitará os limites constitucionais? Existem sinais de que se preparam atos de violência, como o recente assalto às instalações de um quartel e o roubo de uma carga de dinamite, fora a prisão dos 80 mercenários colombianos, no início de maio.

Nós já lançamos um desafio à oposição: estamos dispostos a assinar um documento público que nos compromete a respeitar o resultado do referendo, qualquer que seja, desde que a oposição faça o mesmo. Mas eles estão desesperados. Eles já se parecem ao lutador de boxe que se sente nocauteado, após receber vários golpes em pontos vitais do corpo. Hoje mesmo, o jornal El Nacional [o mais virulento veículo impresso da oposição] traz uma entrevista com o [ex-presidente] Carlos Andrés Pérez, em que ele propõe claramente a violência para derrubar o governo. Eu só posso dizer uma coisa aos setores mais racionais e sensatos da oposição – e eles existem: não se deixem levar pela tentação da violência. Todos os que tentarem essa via serão novamente derrotados, como foram no golpe de abril de 2002, depois na sabotagem que paralisou a indústria petroleira, entre o final de 2002 e janeiro de 2003, e novamente quando tentaram ações terroristas, em abril e maio de 2004. Serão derrotados pelo povo da Venezuela.

[É muito sintomático que Carlos Andrés Pérez funcione como uma espécie de embaixador informal da oposição nos Estados Unidos. Reflete a absoluta falta de alternativa e de qualquer espécie de projeto nacional por parte dos setores oposicionistas. Andrés Pérez foi responsável por um dos governos mais desmoralizados da história venezuelana. Vive no exílio, em Miami e Nova York, desde que sofreu impeachment, por prática de corrupção, em maio de 1993. Em 27 e 28 de fevereiro de 1989, sob o seu governo, aconteceu o Caracazo, um levante de trabalhadores e estudantes de Caracas contra as políticas neoliberais então implantadas por ele. Confrontos com a polícia, o exército e a guarda nacional deixaram, oficialmente, 300 mortos, cifra que pode chegar a 3.000, segundo organizações de defesa dos direitos humanos. Também contra o seu governo, em 4 de fevereiro de 1992, Chávez liderou uma rebelião militar. O levante fracassou e os rebeldes foram presos. Chávez assumiu publicamente a responsabilidade.]

A Casa Branca multiplica fortes sinais de que gostaria de ver o sr. fora de Miraflores. Foi óbvia a participação da CIA na organização do golpe de abril de 2002. O sr. acredita que Bush ficará de braços cruzados, à espera dos resultados do referendo?

Há uns dez dias, a imprensa venezuelana publicou, com grande destaque, uma declaração de Bush exigindo transparência no processo de referendo. Quem é Bush para exigir qualquer coisa? E o que aconteceu na Flórida? Os chefes do Comando Sul do Exército dos Estados Unidos vivem dizendo que “Hugo Chávez é uma ameaça à paz”. O antigo chefe do governo espanhol, José María Aznar, chegou a oferecer à Colômbia 40 tanques pesados de guerra. Aznar é pupilo de Bush, tanto quanto Andrés Peréz e [o ex-presidente argentino] Carlos Menem. Os senadores colombianos que pedem a expulsão da Venezuela da Organização dos Estados Americanos (OEA) fazem parte de uma conspiração política tramada por Washington. O Plano Colômbia, que é a máscara usada pelos Estados Unidos no suposto combate ao narcotráfico, abre a via de penetração do império na região. Os Estados Unidos criaram comandos militares e de inteligência ao longo da nossa fronteira com a Colômbia. Em abril, houve uma batalha entre um batalhão da Venezuela e paramilitares colombianos financiados pelo Pentágono. Mas muita coisa está mudando. Aznar, por exemplo, foi derrotado e o seu sucessor, o socialista José Luis Rodríguez Zapatero, retirou as tropas espanholas do Iraque e já deu muitos sinais de que quer se aproximar da Venezuela. Marcamos até uma reunião para setembro, no quadro da Assembleia Geral das Nações Unidas. Também estive recentemente com o [presidente colombiano] Álvaro Uribe, que quer manter novos encontros de cúpula ao longo do segundo semestre, com isso admitindo implicitamente que vamos nos manter no poder após a consulta de 15 de agosto.

E Bush está mais desmoralizado do que nunca…

Eu recomendo a todos que assistam o documentário Farenheit 9/11 [de Michael Moore, vencedor do Festival de Cannes de 2004 e grande sucesso de público nos Estados Unidos]. É muito bom. Bush é um assassino. Olhe o que eles estão fazendo no Iraque. Eles atacam os povos do mundo. Nós não estamos dormindo no ponto. Estamos alertas. Sabemos do que eles são capazes e estamos preparados. Mas nossa maior força é o povo venezuelano. É a consciência política. Veja o que aconteceu em abril de 2002. Foi o povo que tomou a praça pública para defender o seu governo. O golpe foi derrotado em 24 horas, pois o povo se colocou de pé quase de imediato. Não para defender Hugo Chávez. Eu não sou nada. Sou, quando muito, um instrumento dessa grande revolução bolivariana. É fundamental a organização popular. Simão Rodrigues [mestre e tutor de Simon Bolívar] dizia: “A força material está na massa e a força moral, no movimento da massa.” Eu acrescentaria a necessidade da consciência e organização, em movimento acelerado e permanente.

[Durante o programa Alô presidente, Chávez diz que Bush é o demônio, e explica que em inglês demônio é “devil”. Como em espanhol o fonema “ve” pronuncia-se como “be”, a expressão “devil” soa como “débil”. Chávez, o tempo todo, refere-se a Bush como “el débil”. Também faz repetidas menções a uma pequena história popular, intitulada Florentino y el Diablo, escrita como poesia, em 1957, por Alberto Arvelo de Torrealba (1905-1971), e agora transformada em filme. Conta a história do jovem e ingênuo Florentino, desafiado a participar em um duelo de poesia por uma figura sombria, que mais tarde descobre ser o próprio “devil”. O encontro entre os dois ocorre na localidade de Santa Inês, onde, em 10 de dezembro de 1859, as tropas republicanas federalistas do general Ezequiel Zamora (1817-1860) derrotaram as forças de uma oligarquia que rejeitava qualquer perspectiva democrática para o país. Chávez adota o poema e o local histórico-geográfico de Santa Inês como metáfora da luta da nação venezuelana (representada por Florentino) contra o “débil” Bush. E aproveita para provocar a oposição, ao recitar um de seus versos diante das câmaras de TV: “Los escuálidos espinos / desnudam su amarillez, / las chicharras atolondran / el cenizo anochecer” (“Os esquálidos espinhos / desnudam sua amarelidez, / as cigarras atordoam / o cinzento anoitecer”). Os opositores são conhecidos como “esquálidos” (e se assumem como tal), desde que assim foram qualificados por Chávez, por organizarem manifestações pequenas, quando comparadas às realizadas pelos “chavistas”.]

Acontece na Venezuela um fenômeno muito raro na história da América Latina: uma forte união entre os militares e o povo mais pobre. Como se explica isso?

Nem sempre foi assim. Em 1989, em Caracas, vi quando os soldados foram enviados por Carlos Andrés Pérez para massacrar o povo que se levantou no Caracazo. Descarregaram a fuzilaria sobre os bairros pobres. Foram milhares de mortos lançados em fossas comuns, que nunca apareceram. No décimo aniversário daquela tragédia, quando completávamos 25 dias no poder, começamos o “Plano Bolívar 2000”. Os militares foram convocados para fazer trabalho humanitário. O significado era simbólico: as Forças Armadas saem dos quartéis para ajudar seu povo a enfrentar a miséria e a fome. Isso, aliás, é o mais natural, já que 99% dos militares da Venezuela vêm dos bairros pobres, do campo. Eu mesmo nasci em casa de palha. O processo revolucionário bolivariano resgatou as raízes militares de nossas Forças Armadas. Agora estamos organizando os reservistas do Exército. Já temos 80 mil inscritos e aprovamos recursos extraordinários para uniformizá-los, para armá-los e para treiná-los. E não é só. Acabo de receber a informação de que o nosso Hospital Militar Carlos Rabelo fez 2.600 intervenções cirúrgicas em pacientes pobres apenas na terceira semana de julho. É uma demonstração de como, neste país, as Forças Armadas estão ao serviço do povo. Bolívar afirmava: “Maldito seja o soldado que ergue as armas contra o seu próprio povo.” Este é um princípio sagrado para a revolução bolivariana.

O programa de saúde pública é um dos principais investimentos de seu governo, e conta com a ajuda de Cuba. Como é feito isso?

Nós aqui o denominamos Missão Bairro Adentro: equipes médicas visitam os bairros mais miseráveis de Caracas e do país, casa a casa, com o objetivo de prestar assistência médica e dar orientações sobre alimentação, higiene e hábitos saudáveis. Milhares de médicos cubanos nos auxiliam nisso. Em um ano, foram atendidos 65 milhões de casos. Dando prova de burrice ou de má-fé, alguns jornalistas dizem que Chávez está mentindo, pois a Venezuela tem apenas 27 milhões de habitantes. Ora, esses imbecis não sabem, ou fingem não saber, que uma mesma pessoa pode ser portadora de várias doenças, e cada uma dessas doenças é tratada como um caso, assim como uma empresa privada cobra cada consulta. Então, em apenas um ano foram 65 milhões de casos, 43 milhões de consultas, realizadas 22 milhões de atividades educativas (ou de medicina preventiva), 13 milhões de prescrições terapêuticas homeopáticas e naturalistas. Além disso, enviamos mil venezuelanos para fazer operações de catarata em Cuba. Note que nós estamos falando de gente que nunca teve a oportunidade de ver um médico na vida. É extraordinário. Essa experiência já está atraindo médicos venezuelanos. Em Ciudad Bolívar, acaba de nascer uma rede de assistência popular formada por 25 médicos venezuelanos.

[Na sociedade polarizada venezuelana, essa adesão de médicos é muito importante, do ponto de vista cultural e político. A divisão de classes é muito evidente na Venezuela, tanto pelo aspecto físico “europeizado” da minoria rica, em contraste com a mistura de negros e índios dos mais pobres, quanto por suas roupas, carros e locais que frequentam em Caracas (particularmente, o bairro de Altamira). Pior ainda: envenenados por uma propaganda incessante da mídia, grandes setores de classe média experimentam uma combinação de medo e ódio ao governo Chávez, mais ou menos como os extratos mais “remediados” que, no Brasil, participaram, em 1964, das marchas contra a “ameaça comunista” convocadas por senhoras católicas. A pressão ideológica e cultural é tão grande que se formou uma camada de “chavistas de armário”, isto é, intelectuais, estudantes universitários, empresários e profissionais liberais que apoiam o governo, mas temem assumi-lo publicamente, para não serem “mal vistos”. A adesão pública dos médicos de Ciudad Bolívar adquire, por isso, um significado especial. Por isso, também, o esforço feito pelo governo para integrar os empresários venezuelanos ao Mercosul ganha uma conotação forte, em termos de construção de uma cultura política nacional, pois ajuda a isolar os setores mais extremistas da oposição.]

O sr. atribui uma grande importância ao contexto latino-americano, em oposição ao imperialismo estadunidense. Nesse sentido, a incorporação da Venezuela ao Mercosul teve uma grande significação política, não?

A nossa união latino-americana é a única arma efetiva que temos contra o poder do império. É preciso, mais do que nunca, fortalecer a nossa consciência unitária. Na reunião que mantive com o presidente Nestor Kirchner, criamos um foro de integração econômica entre os dois países, além de uma série de acordos em matéria de cooperação naval, financeira e comercial, incluindo um Fundo Latino-Americano de Garantias Recíprocas, com o objetivo de financiar a formação de pequenas e médias empresas nos dois países. Se hoje o comércio entre nós atinge algo em torno de 100 milhões de dólares, em 2005 essa cifra poderá atingir 1 bilhão de dólares. Também foi muito importante o tratado de cooperação energética entre a Petróleo da Venezuela (Pdvsa) e a Enarsa (da Argentina), como um dos passos para criar a Petrosur, combinando as reservas de Venezuela, Brasil, Peru e demais países da região. Já estamos operando segundo o conceito da Petrocaribe, que visa a fornecer petróleo a preços mais baixos para os países do Caribe. Juntos, podemos ser uma potência mundial em petróleo. No quadro do Mercosul, estudamos a proposta de criar o Banco de Desenvolvimento Econômico e Social do Sul (Bandesur). Por isso, eu digo aos empresários venezuelanos: vocês são convidados a fazer negócios. Não percam as oportunidades que se abrem, e que serão ampliadas com as viagens que vamos fazer, em outubro, para a China, a Índia e países árabes.

Em que medida esses acordos e tratados favorecem a estratégia de criação da Alternativa Bolivariana para a América Latina e o Caribe (Alba)?

Nós propomos a Alba como alternativa ao projeto neocolonial da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), dentro do conceito bolivariano de articular a América Latina como força política consciente de seu destino. Quando houve a paralisação da indústria petroleira venezuelana, no final de 2002, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e depois o presidente Luís Inácio Lula da Silva nos deram uma grande ajuda. Depois, quando Kirchner me disse que estava com dificuldades no setor energético, enviei-lhe imediatamente petróleo. São demonstrações do que podemos fazer juntos. Cuba e Venezuela desenvolvem esse modelo de integração, que pode ser estendido a todo o hemisfério. Mas ainda falta decisão política para criar alternativas reais ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e ao império.

Mas se a economia doméstica não ajudar, todos os esforços podem ser inúteis…

A economia venezuelana está indo muito bem, apesar de todos os percalços e sabotagens. Mesmo os oposicionistas reconhecem isso. No primeiro semestre de 2004, o Produto Interno Bruto cresceu algo entre 10% e 12% quando comparado ao do ano passado. Além disso, estamos promovendo uma vasta reestruturação da economia, graças aos ingressos obtidos com a venda do petróleo. Apesar das críticas da oposição, criamos um fundo petroleiro para, entre outras coisas, financiar obras de infraestrutura e construção civil. Só em Caracas existe um déficit de um milhão e meio de residências, e os chineses já mostraram interesse em nos ajudar no programa habitacional. Você já viu como são construídas as casas no morro do Petare [o bairro mais populoso e pobre de Caracas, com população estimada em 2 milhões de habitantes]? É um desafio à engenharia. Não entendo como não desabam. Vamos fechar um pacote com os chineses, mas já deixamos claro que os trabalhadores e as matérias-primas serão venezuelanos. Só esse programa vai gerar milhares de empregos e ativar setores inteiros da economia. Além disso, cresce rapidamente a rede de supermercados populares, Mercal (Mercado de Alimentos), também criada com dinheiro do petróleo. Pela primeira vez, as camadas mais pobres têm acesso a carne, frango (aliás, importado do Brasil), queijos, verduras e frutas frescas. Isso estimula os pequenos produtores e empresários, tanto em escala local quanto nacional. Também vamos ampliar e melhorar o sistema penitenciário nacional. Hoje, as prisões estão superlotadas e infectas. Isso não pode continuar assim. Todos os venezuelanos, ricos e pobres, livres ou presos, têm direito ao tratamento digno. É claro que melhor seria se não fossem necessárias as prisões, mas se a necessidade existe, então é obrigação do Estado zelar pelo bem-estar do preso. A economia tem tudo para deslanchar, em consonância com as necessidades do nosso povo.

É incrível: esse quadro nada tem a ver com aquilo que se lê todos os dias na imprensa. Temos a impressão, a partir da leitura dos jornais e dos telenoticiários, de que há uma crise imensa, que o país está fora de controle.

Infelizmente, a imprensa na Venezuela é muito partidária e partidarizada. Não se preocupa com a objetividade dos fatos, mas sim com a campanha permanente contra o meu governo. Os donos dos meios de comunicação foram os principais articuladores do golpe de abril de 2002. É por isso que incentivamos a multiplicação de veículos comunitários, em todo o país. Criamos a TV Vive para funcionar como uma espécie de vitrine nacional de tudo o que se produz em termos de cultura na Venezuela. Sua meta é dar visibilidade à produção das comunidades étnicas, dos movimentos sociais, dos trabalhadores e jovens que jamais apareceriam nos canais privados. A TV Vive também tem a ambição de promover a integração dos povos latino-americanos, no contexto da criação da Alba. Queremos formar uma Rede Sul de televisão, para oferecer uma alternativa ao noticiário deturpado da rede CNN e dos veículos controlados pelo grande capital. Já estamos em fase adiantada de negociações com a Argentina sobre isso. E muita gente no Brasil está interessada em participar nesse projeto.

Mas os jornalistas acusam o governo de agredir repórteres, utilizar meios violentos para intimidar as redações, recusar informações. Afirmam serem obrigados a trabalhar com coletes à prova de bala.

Nosso governo nunca agrediu nenhum jornalista, nunca fechou um jornal nem impediu a circulação de nenhuma edição. Ao contrário. A única emissora fechada na Venezuela foi o Canal 8 (estatal), tirada do ar por eles durante o golpe de abril de 2002. Pecamos, aqui, por excesso de liberalidade. Em qualquer outro país, os donos dos meios de comunicação teriam sido presos após o fracasso de um golpe de Estado que eles ajudaram a articular. Aqui não aconteceu nada disso. Ao contrário, na semana passada mantive uma reunião com Augusto Cisneros, o maior empresário da comunicação neste país, e um dos maiores do mundo. O que eles dizem é um absurdo.

[A jornalista Soraya Castellano, responsável pelo telenoticiário da RCTV, um canal que ataca o governo com especial virulência, diz a Caros Amigos nunca ter recebido qualquer orientação de seus chefes no sentido de dar “tratamento editorial” às reportagens, e afirma não haver censura à produção dos jornalistas. Norma Garcia, jornalista de El Mundo, o mesmo que entrevistou Carlos Andrés Pérez, faz afirmações semelhantes. Ela é diretora do Sindicato dos Jornalistas da Venezuela, entidade não exatamente reconhecida por sua combatividade (seu presidente, Gregório Salazar, apoiou o golpe de 2002). Já o jornalista Aram Rubén Aharonián e as professoras universitárias Maryclen Stelling (socióloga) e Olga Dragnic (jornalista), fundadores de um recém-criado Observatório da Imprensa, afirmam, categoricamente, que existe uma poderosa censura dentro das redações. Segundo Olga, o tema é motivo de grande preocupação entre os alunos de jornalismo. Mas nem é necessário teorizar muito sobre o assunto. Basta assistir por alguns minutos à programação dos canais privados, ou ler durante dois dias os jornais para concluir que há uma guerra permanente dos meios de comunicação contra o governo.]

Como o sr. espera resolver esse conflito com a imprensa?

Nós estamos sempre abertos ao debate honesto e construtivo, que visa o bem do país. Nós aceitamos a divergência e o pluralismo das ideias, nos marcos do debate democrático e não na perspectiva violenta e golpista apontada por Carlos Andrés Pérez. Quando a oposição aceitar, finalmente, o caminho constitucional e entender que será trabalhar em termos construtivos, a relação com a imprensa tenderá a melhorar, como reflexo de um novo equilíbrio no país. É claro, também, que vamos prosseguir o nosso caminho de construção de uma imprensa independente, popular, plural e identificada com os nossos valores culturais. O caminho, portanto, é o do diálogo e da luta política democrática.

O sr. teria mais alguma coisa a dizer aos brasileiros?

Completo 50 anos no dia 28 de julho. Como dizia o grande poeta Pablo Neruda, confesso que vivi. Sim, sofri muito, como todos, mas também tive muitas alegrias, graças à minha família, às mulheres que amei, aos meus filhos e amigos. Mas, principalmente, é o vínculo com o povo pobre que me dá energia e a sensação de estar vivo, a certeza de que todo esse caminho percorrido valeu a pena, assim como enfrentar os desafios que o futuro apresentará. Estou também muito contente porque na próxima semana o Alô presidente festejará sua 200ª edição. Vamos fazer um megaconcerto no dia 1º de agosto, com artistas venezuelanos e internacionais, parece que o cantor cubano Sílvio Rodríguez já confirmou a sua participação, será uma festa muito bonita. Então, basicamente, é isso: confesso que vivi. E envio minhas saudações a todo o povo brasileiro, especialmente aos que lutam por uma América Latina livre e soberana.

[Ao deixar Caracas, no caminho para o aeroporto, de noite, pergunto ao motorista do táxi, Rigoberto, o que acontecerá na Venezuela no dia 15 de agosto. Ele aponta para a profusão de luzes que brilham no Petare e outros morros em torno de Caracas e diz: “Cada uma daquelas luzinhas representa uma família de 4 ou 5 venezuelanos. De cada 4 ou 5 venezuelanos daqueles, 10 votarão por Chávez no dia 15. É isso o que vai acontecer.” Ao chegar no aeroporto, Rigoberto se despede com o “grito de guerra” mais ouvido nas ruas de Caracas nestes dias: “Uh, ah, Chávez no se vá!” Oxalá também no Brasil os governantes despertassem esse entusiasmo na população pobre, ainda mais no final do quarto ano de seu mandato. Oxalá…]

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