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Eu sei o que deve ser feito com o presente

Emmanuel Nakamura

Conheci Vito Letizia no segundo semestre letivo de 2001 de minha graduação em Economia na PUC-SP, mas não numa sala de aula e sim voltando para casa. Vito e eu pegávamos o mesmo ônibus e numa das viagens conversava com minha irmã sobre a última aula, quando um senhor corrigiu alguma coisa que falava sobre o economista Alfred Marshall. Foi apenas a primeira de uma série…

Meu segundo contato com o Vito foi nesse mesmo ônibus. Gabriel havia me proposto formar um grupo de estudos sobre o pensamento de Marx e sabia que o Vito era um grande conhecedor. Fizemos então durante a viagem a proposta, imediatamente aceita pelo Vito.

Vito, Gabriel e eu começamos lendo os Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844. O grupo cresceu: Ana, Luiz, Renata, Caio, Rogério, Fernando, Joana, Olívia, Danilo, Rafael, Luciana…

Devo ao Vito minha formação intelectual e política. Parte do que sou hoje como homem, devo a ele também. É nele que me espelho e, se conseguir ser um pouco do que ele é, já terei dado um bom sentido a minha vida.

Com o Vito e com essas pessoas, passei os melhores momentos de minha vida. Eles são hoje meus melhores amigos e sei que estaremos sempre juntos.

O Vito sabia que ali não estava nascendo um grupo de estudos, mas um grupo de discussão política ou uma verein, como ele gostava de lembrar, remetendo à tradição alemã. De maneira informal, nos denominávamos Sociedade Marxista Buarquista, simplesmente porque o nome remete aos nossos laços políticos e de profunda amizade.

Quando terminamos nossas graduações, passamos a frequentar semanalmente a casa do Vito para fazer discussões políticas. Quando ele se aposentou e voltou a morar no Rio Grande do Sul, mantivemos nossas discussões usando a internet.

Com a doença, passamos a frequentar a sua casa em Gramado, agora com novos integrantes, militantes da Libelu, com o intuito de tornar público um balanço abrangente sobre essa palavra tão vazia hoje em dia – esquerda.

Sempre me recordarei com imensa alegria dessas viagens, das recepções sempre calorosas da Cida e da imensa disposição do Vito em ficar horas gravando “entrevistas”, mesmo com o seu estado se agravando.

Hoje, dia 8 de julho de 2012, ele se foi e sinto um enorme vazio. Sei que isso é impreenchível. Sua presença é o que há de mais significativo na minha formação. Será mais difícil encarar o mundo sem poder recorrer a uma opinião muitas vezes dura, mas confortante pela lucidez.

Para o grupo, ele deixou uma tarefa hercúlea: organizar e publicar as “entrevistas” de Gramado. É no mínimo um dever moral nosso, até que a esquerda saiba o que fazer com elas.

“O que deve ser feito com o passado eu não sei. Eu sei o que deve ser feito com o presente. Deve-se acabar com o poder que nos subjuga. Isso significa acertar as contas com o passado também…” Vito Letizia (19/12/1937-8/7/2012).

Berlim, 8 de julho de 2012.

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9 Comentários

  1. Isabel Loureiro

    Emmanuel e Danilo,
    fiquei muito triste com a notícia e ao mesmo tempo contente de saber que o Vito deixou raízes profundas em vocês. Aqui vai um abraço apertado a todos do grupo, Isabel

  2. Alexandre

    Puxa… É com tristeza que recebo a notícia, Manu. Cabe a nós ter força e usar a contribuição do Vito para continuarmos sua luta que é de todos nós. Abraços

  3. Danilo Nakamura

    Pelo grupo Interludium, eu agradeço a todas as manifestações carinhosas. Sentiremos muita falta do Vito, mas continuaremos nossas atividades da melhor forma possível. Estando junto dos movimentos, divulgando as contribuições do Vito e, claro, continuando com nossas próprias formulações.

    Foi um privilégio para o grupo ter convivido tantos anos perto dele. Agora cabe a nós continuar o que deve ter continuidade.

  4. Jean

    Guardo de Vito

    el recuerdo de un militante “à visage humain”, quien siempre supo preservar el calor humano, la capacidad de escucha, la ternura… justamente cuando llegò un momento, en medio de los años 80, en que solìamos tratarnos con rudeza… por si llegara a contaminarnos el maldito “revisionismo”… El siempre con discreciòn sabìa manifestar su disconformidad con estos modales esos, tratos brutos, queriendo emprender el diàlogo profundo, argumentado, con un examen permanente con la experiencia històrica… uno piensa que siempre hay tiempo para sacar juntos el balance del movimiento que reuniò a tanta gente valiosa y que devorò a tantos … y cuando llega la noticia se confirma que la vida es imperfecta, que algo faltarà, que hubiesemos tenido que ser màs perseverentes .

    Jean

  5. Jorge Nóvoa

    Caros amigos,

    Segue mais um depoimento, desta vez de Jean Puyade. Acho que seria a mais singela das homenagens que poderíamos lhe prestar a de afixar esses depoimentos em alguma parte do site de INTERLUDIUM. Acho que cada um de nós teve uma experiência com Vito e por mais discreto que ele tenha sido (e era), dificilmente ele se deixaria escapar a oportunidade para deixar a marca de sua cultura excepcional e de sua inteligência cortante !

    Uma das coisas que seguramente mais o incomodava (como a muitos de nós mesmos) era a extraordinária destruição de talentos que a militância promovia. Suas críticas não pouparam o próprio movimento trotskysta. Os rachas, as expulsões, as manobras e as manipulações existentes nos movimentos políticos e sindicais de um modo geral, mas também no movimento trotskysta levou-o a buscar outras vias para a emancipação humana e as reflexões sobre a história política das revoluções, particularmente as do século XX o fez repensar as responsabilidades de Trotsky no processo que culminou com a derrota da revolução política anti-burocrática. Essas reflexões seguiram uma via própria e original que muito pacientemente ele foi introduzindo nas discussões com seus companheiros de longa data. A primeira vez que se pronunciou de público sobre o assunto, o fez em A Comuna, os Sovietes e a democracia operária (1993), publicado no livro A história à deriva: um balanço de fim de século. (Salvador, UFBA, 1993), livro que organizamos, e nesse texto ele já se mostra avesso a famosa tese da ditadura do proletariado e critica a dissolução que os bolcheviques fizeram à Assembleia Constituinte de janeiro de 1918 que havia dado mais de 80% aos deputados do Partido Socialista Revolucionário fortemente implantado no seio dos camponeses.

    Em julho de 2007 em Gramado ele não apenas reafirmou as reflexão que veio desenvolvendo à partir de suas leituras históricas, como também, aprofundou-as descartando totalmente a possibilidade de seguir defendendo a tal Ditadura do Proletariado, como ainda afirmando na discussão sobre esse período sua grande simpatia por Rosa Luxemburgo e por Victor Serge. Este ano me disse num dos últimos telefonemas que troquei com ele da importância extrema do livro de François Chesnais sobre As Dívidas ilegítimas – que ele considerava muito bom livro porque não perdia, além de tudo, o caráter militante de seu autor. Ao mesmo tempo falou da importância do livro de Denis Collin La longueur de la chaîne ao qual se referiu dizendo que, se para publicar este livro em português tivessem que deixar de lado tudo que ele escreveu, ele sustentou que deveria ser feito porque ele, Denis, havia conseguido resolver a dialética entre democracia, revolução socialista e crise do capitalismo. Para ele, Vito, colocar a questão pura e simplesmente da defesa do socialismo seria não reconhecer que os processos de aceleração da história não estavam ocorrendo conscientemente nessa direção. Eis aí um traço da personalidade de Vito! Ele pretendia escrever algo fazendo o balanço das questões democráticas das revoluções árabes discutindo o Programa de Transição. Mas não creio que tenha conseguido realizar este desejo.

    Tinha uma curiosidade extraordinária que ia das baleias aos tigres ou aos caminhões trucados, ou ainda à psicanálise, às filosofias e às culturas orientais, etc. Conheci muitos historiadores e cientistas sociais eruditos. Vito Letízia para mim figurava entre eles e teria podido – se assim o quisesse, ter feito uma carreira acadêmica brilhante e rica. Morreu quase cego corroído pelo glaucoma, ele que tinha na leitura uma das chamas de sua existência. Isto sempre me impressionou em Vito e ao mesmo tempo a certeza de que sua cultura e inteligência eram muito especiais. A consciência de seu valor, entretanto, ao longo de anos de militância, desenvolveu nele certo desprezo “obreirista” por uma carreira acadêmica! Sem dúvida isso tudo lhe cobrou um preço alto porque ele poderia ter sido um intelectual respeitado e influente. Mas isso passava a milhares de quilômetros de suas motivações subjetivas. A chama que alimentava todas as suas paixões era a política e mesmo os estudos mais aparentemente inocentes terminavam levando-o à dimensão da política!

    Contudo, a coisa que mais me impressionou em Vito foi nesses dois últimos anos sua luta desesperada para viver mais. Uma luta na qual ele se superou. Nas discussões que tivemos em novembro último quando do lançamento do site INTERLUDIUM de Reflexões anticapitalistas, ele não queria perder um minuto. Era o que menos se cansava. Ele não queria deferência. O respeito às suas ideias se impunha pela força delas. A consciência de que a morte era certa e próxima ajudou-o a romper e a superar muitas amarras que aparecerão nos textos e nas centenas de páginas que seus abnegados estudantes colheram ao longo de dois anos nos quais travou o mais determinado de seus combates resistindo à pior espécie de câncer que se pode ter. A força que ele conseguiu para resistir veio de um aprendizado de mais de 50 anos de luta contra o câncer social que esta corroendo o que de melhor as civilizações produziram até agora. Foi o que lhe vez dizer:
    “O que deve ser feito com o passado eu não sei. Eu sei o que deve ser feito com o presente. Deve-se acabar com o poder que nos subjuga. Isso significa acertar as contas com o passado também…” Vito Letízia (19/12/1937 – …08/07/2012).
    É preciso, entretanto, que se preste uma homenagem mais que merecida a alguém que esteve com Vito e que seguramente foi um importante pilar de sustentação de Vito, muito particularmente nesses 2 últimos anos: Cida, Aparecida Duran foi sua companheira ao longo de mais ou menos 40 anos.

    Vito Letízia: dados biográficos, acadêmicos e produção científica.

    Foi Diretor do Centro de Estudos do Movimento Operário Mário Pedrosa, Professor do Departamento de Economia da PUCSP, notório saber em vários domínios e integrante do Conselho Editorial das Revistas O Olho da História, Crítica Marxista (até bem recentemente…), dedicou a maior parte de sua vida à militância junto aos movimentos políticos e sociais. Foi preso político tendo cumprido pena de dois anos e meio.

    Dentre os seus artigos mais importantes encontramos os seguintes:

    . A moderna elite golpeada: a curta história do neoliberalismo na versão Collor (1993),
    . A Comuna, os Sovietes e a democracia operária (1993),
    . A era dos retrocessos: as esquerdas e as guerras no século XX (1995),
    . Conquistas sociais versus neoliberalismo: o povo francês trava a primeira grande batalha (1996),
    . A era dos extremos de Eric Hobsbawm (1996),
    . A mundialização do capital de François Chesnais (1997),
    . Afeganistão: a revolução às avessas (2001).
    . Marx, os marxistas e a relação sindicato-partido-socialismo: seu passado e seu futuro (2007).
    . Apreender Marx. Uma leitura crítica de Compreender Marx de Denis Collin (2010),
    . Histoire et conscience de classe (2010).

    É autor de longos estudos inacabados como:

    . A difícil construção do saber econômico (2003),
    . Movimento das contradições na evolução do valor segundo Marx (2003),
    . A terceira oportunidade imperial americana (2003), Brasil 2000. In: Marlene Paula Marcondes e Ferreira de Toledo. (Org.). Cultura brasileira: o jeito de ver e viver de um povo. São Paulo: Nankin Editorial, 2004.
    . Viabilidade do desenvolvimento capitalista na periferia. In: Rosa Maria Vieira; Rubens Rogério Sawaya. (Org.). Brasil e América Latina: impasses e desafios para o desenvolvimento. 1ª ed. São Paulo: Departamento de Economia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2006, v., p. 49-71.
    . China: o salto para o capitalismo (2006)

    Jorge Nóvoa
    Universidade Federal da Bahia
    Editor da Revista O Olho da História http://www.oolhodahistoria.org
    Coordenador da Oficina Cinema-História
    Currículo: http://lattes.cnpq.br/5518432165910556

  6. Sylvio Nogueira

    Caros compamheiros/as, para mim o falecimento do Vito dificilmente vou poder superar. Foi meu mestre,camarada e amigo. Conheço o Vito desde abril de 1964, quando nos reuniamos nos porões da FAC de Direito da UFRGS para a confecção de um panfleto do Movimento Estudantil contra o golpe de 64.Depois militamos juntos no POR-Posadista, rompemos e fundamos a FBT-Fração Bolchevique Trotskista do POR, posteriormente a OSI-Organização Socialista Internacionalista.Estivemos, inclusive, presos no DOPS~POA. A Libelú foi uma tendência estudantil da OSI. E posteiormente, com as indecisões da OSI/Libelú em apoiar a fundação do PT, rompemos e fundamos a Avalu-Avançar a Luta que participou do Congresso de fundação do PT. Mas, apesar desses caminhos as vezes contraditorios com o objetivo de construirmos uma nova sociedade, mantivemos relações de amizade e camaradagem até hoje. Mas, certamente, ele nos deixou exemplos de vida e ensinamentos que nos manterão na luta por uma nova sociedade. ET. Vou ver se nos meus arquivos não tenho algum texto do Vito que eventualmente vocês não tenham. Saudações militantes.

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