Grandes momentos da resistência em 1968

Embora o fim do Estado Novo e a redemocratização não tenham significado o fim do atrelamento sindical ao Estado, já em 1945 as organizações dos trabalhadores começaram um processo de fortalecimento que se traduziu em greves e ações cada vez mais expressivas em defesa de suas pautas e reivindicações. O golpe militar de 1964 interrompeu um movimento forte e bem organizado, que estava no auge de suas atividades.

Nos dias seguintes ao golpe, a polícia e o Exército ocuparam sindicatos, milhares de militantes e sindicalistas foram presos e organizações de trabalhadores urbanos e rurais foram proibidas. Só no mês de abril 350 sindicatos, 22 federações e 6 confederações de trabalhadores sofreram intervenção e tiveram suas diretorias destituídas.

Em junho, entrou em vigor a nova lei de greve, que ficou conhecida como Lei Antigreve, pois impunha tantas exigências legais que na prática impedia qualquer paralisação. A ditadura também eliminou vários direitos trabalhistas, como a estabilidade no emprego ao fim de dez anos. Ao longo de 1965, implantou a política de arrocho salarial, aprovando leis que favoreciam as empresas e dando-se o poder de fixar os índices de reajuste salarial, ignorando as negociações entre patrões e empregados. Em 1966, havia cerca de 600 sindicatos sob intervenção.

A retomada das mobilizações

Em apenas dois anos os salários perderam em média 20% de seu valor. A piora dos salários e das condições de trabalho, a promulgação da Constituição restritiva e autoritária dos militares e, em seguida, a decretação da Lei de Segurança Nacional provocaram a retomada das mobilizações populares a partir de 1967. Em São Paulo cerca de 40 sindicatos formaram o Movimento Intersindical Anti-arrocho (MIA). Em março do ano seguinte, mais de 2 mil trabalhadores mineiros criaram seu Comitê Intersindical Anti-arrocho, e outros se seguiram país afora. Criados para conter o movimento, e dominados pelos sindicatos pelegos, ainda assim esses comitês serviram como brechas para a organização das oposições sindicais.

Entre a forte repressão aos sindicatos e a extinção dos partidos políticos em 1965, o movimento estudantil, embora também clandestino, tornou-se o principal canal de expressão contra a ditadura. As manifestações e protestos, que vinham crescendo desde 1966, se radicalizaram em 1968. Em março, a morte do secundarista Edson Luís de Lima Souto num confronto com a polícia, que fora reprimir um protesto na frente do restaurante Calabouço, não só ampliou a mobilização entre os estudantes como passou a atrair sindicalistas, intelectuais, artistas e outros setores da sociedade.

Contagem cruza os braços

Em 16 de abril, cerca de 1.200 metalúrgicos da siderúrgica Belgo-Mineira, em Contagem, entraram em greve, reivindicando um reajuste de 25%. A contraproposta dos patrões, de aumento de 10%, a ser descontado do que seria ajustado na data-base da categoria, em outubro, foi rejeitada em assembleia. A partir do dia 19, os trabalhadores das outras indústrias da região aderiram à greve, começando pelos da Sociedade Brasileira de Eletrificação (SBE) e os da Mannesman. No seu ápice, o movimento envolveu cerca de 16 mil dos 21 mil metalúrgicos da cidade.

O então ministro do Trabalho, coronel Jarbas Passarinho, passou a intervir diretamente na negociação, e até participou de uma assembleia dos grevistas, mas suas ameaças não tiveram resultado. A ditadura então, partiu para a “guerra”, nas palavras do próprio ministro. Passarinho foi à TV dizer que a greve, além de ilegal, era um desafio ao governo e os grevistas podiam ser demitidos e enquadrados na Lei de Segurança Nacional. Com os patrões, ele acertou o não-pagamento dos dias parados e a busca de um por um em suas casas para convocá-los ao trabalho.

No dia 24, 1.500 policiais militares tomaram a região industrial de Contagem. PMs foram buscar em casa os operários, ameaçados de demissão sumária se não voltassem ao trabalho. Assembleias, distribuição de boletins e qualquer tipo de aglomeração foram proibidos. Dois dias depois, os últimos grevistas retornaram ao trabalho. Mas no dia seguinte, boletins inundaram a cidade industrial convocando os trabalhadores para transformar o 1º de Maio em um dia de protesto contra o arrocho. E no próprio 1º de maio o governo anunciou um abono de 10% nos salários de todos os trabalhadores do país.

O 1º de Maio na Sé

Em São Paulo, o movimento de Contagem foi um estímulo de peso. E a preparação do ato do 1º de Maio deixou claras as divergências dentro do MIA: a maioria dos sindicatos, com direções conciliadoras, defendia – e aprovou – a presença de autoridades no palanque, enquanto os dirigentes ligados às oposições sindicais queriam um palanque independente, só de trabalhadores, sem comprometimento com o governo.

As oposições, que se congregavam em torno do Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco, presidido por José Ibrahim, não aceitaram a decisão do MIA e resolveram expulsar as autoridades. No dia do ato, na Praça da Sé, o discurso do então governador Abreu Sodré foi interrompido por vaias. Paus e pedras começaram a ser arremessados e Sodré e os dirigentes pelegos se refugiaram na catedral. Em meio aos discursos contra o arrocho, o palanque foi tomado e acabou incendiado antes de que os manifestantes fizessem uma passeata empolgada pelo centro.

Naquele mês, houve paralisações em fábricas do ABC paulista, com negociações salariais. Em 26 de junho, o clima de resistência à ditadura na sociedade civil se cristalizou na Passeata dos 100 mil, no Rio, organizada pelas entidades do movimento estudantil como resposta à crescente violência policial.

A greve de Osasco

Em 16 de julho, cerca de 3 mil metalúrgicos ocuparam a Cobrasma, dando início à última grande greve do período inicial da ditadura. No total, cerca de 22 mil trabalhadores aderiram à paralisação, que atingiu 6 das 11 principais fábricas da região e durou cinco dias. Os grevistas exigiam 35% de aumento salarial, reajustes trimestrais e contrato coletivo de dois anos. O movimento, liderado por Ibrahim e organizado a partir de comissões de fábrica, teve a adesão quase imediata dos operários da Barreto Keller, da Lonaflex e da Fábrica de Fósforos Granada. Outras fábricas aderiram durante o dia.

A ditadura, que já vinha pressionando o Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco por causa do ato do 1º de Maio, não perdeu tempo em reagir. A greve foi declarada ilegal, e o Ministério do Trabalho acionou o exército ainda no dia 16. No início da noite, as tropas de choque da Força Pública, apoiadas por cavalaria e carros de combate, ocuparam militarmente a cidade e montaram barreiras para controlar as entradas e saídas de Osasco.

Em seguida, a Lonaflex foi cercada pelas tropas e os grevistas recebem ordem de desocupá-la. Depois de concluir que era impossível resistir, os operários negociaram sua saída.

Por volta das 21 horas, as tropas dirigiram-se para a Cobrasma e invadiram a fábrica. Os trabalhadores resistiram e só foram desalojados no fim da madrugada, depois de vários enfrentamentos. Muitos dirigentes foram presos.

Mesmo com a repressão, no dia 17 outras duas fábricas pararam, a Braseixos e a Brown Boveri. Para evitar choques com as tropas, os operários se concentraram no sindicato. O governo decretou a intervenção no sindicato, que foi cercado por tropas à noite. As negociações entraram madrugada adentro, mas às 3 horas as tropas receberam ordens para invadir o prédio à força e os grevistas, sem opções, aceitaram desocupá-lo, embora não conseguissem evitar novas prisões.

Os poucos dirigentes ainda livres tentaram reorganizar a greve nos dias seguintes, mas com Osasco transformada numa praça de guerra foi impossível manter o movimento. No quarto dia, 50% dos operários retornaram ao trabalho, porcentual que chegou aos 80% já no quinto dia. A greve terminou com mais de 400 presos, demissões em massa e a cassação de toda a diretoria do sindicato. Osasco passou uma semana sob ocupação militar. Ibrahim conseguiu fugir, mas foi preso no ano seguinte.

A repressão em Osasco não conseguiu paralisar o movimento operário. Outras greves menores ocorreram entre agosto e setembro, principalmente de bancários em vários Estados e dos trabalhadores de cana. Algumas paralisações obtiveram vitórias pontuais, mas o resultado geral foi de aumento da repressão, demissões em massa e mais sindicatos sob intervenção.

O cerco ao movimento estudantil

Não foi só contra o movimento operário que a repressão se intensificou. Sua cara mais visível foram as ações contra o movimento estudantil. A Universidade de Brasília foi invadida pela polícia em 29 de agosto. Em São Paulo, um estudante foi morto em 3 de outubro, durante os confrontos que ficaram conhecidos como a Batalha da Maria Antonia, que opuseram alunos da antiga Faculdade de Filosofia e membros do movimento estudantil aos estudantes conservadores da Universidade Mackenzie e pessoas ligadas ao Comando de Caça aos Comunistas (CCC).

Em 15 de outubro, foi desmantelado antes até de começar o Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), que ocorreria em Ibiúna, no interior paulista. Todos os cerca de setecentos universitários presentes foram presos, o que deixou o movimento estudantil praticamente paralisado.

A segunda greve de Contagem

No mesmo outubro, os metalúrgicos de Contagem iniciaram outra greve, mas a repressão, se possível, foi pior ainda. As prisões de dirigentes começaram ainda durante o período de preparação.

No dia 1º, data marcada para a paralisação, tropas de choque ocuparam a cidade industrial, invadindo as fábricas, todos os líderes do Comitê de Greve foram presos, o sindicato foi posto sob intervenção e centenas de operários perderam o emprego. No dia 3, a paralisação já fora sufocada.

Dez anos de silêncio

A violência crescente contra os movimentos sindicais e populares foi o sinal mais claro do endurecimento da ditadura, que em 13 de dezembro fechou o Congresso e editou o Ato Institucional n° 5 (AI-5), que mergulhou o país em um período de terrível repressão. Apenas dez anos depois o movimento operário voltaria a promover mobilizações do mesmo calibre das de 1968, com a paralisação da Scania, em São Bernardo do Campo, em 1978.