ARROCHO SALARIAL E CAMPANHAS

Jornal O Trabalho, edição de 1978 e 1979.

Embora o fim do Estado Novo e a redemocratização não tenham significado o fim do atrelamento sindical ao Estado, já em 1945 as organizações dos trabalhadores começaram um processo de fortalecimento que se traduziu em greves e ações cada vez mais expressivas em defesa de suas pautas e reivindicações. O golpe militar de 1964 interrompeu um movimento forte e bem organizado, que estava no auge de suas atividades.

No início de 1978 uma força maior começa a borbulhar pelos arredores do Estado de São Paulo. A repressão, o medo e a insatisfação perante a conjuntura atual conceberam um novo movimento sindical sólido e íntegro. Em 12 de maio de 1978, uma assembleia reunia mais de 2 mil operários, professores, motoristas, médicos e trabalhadores autônomos na fábrica da Saab-Scania em São Bernardo do Campo (SP). Começava a greve contra o arrocho salarial da ditadura. Os trabalhadores entraram nas fábricas, baterão os cartões e permaneceram de braços cruzados. A repressão não se fez esperar. O Decreto-Lei nº 1.632, de 4 de agosto de 1978, dispunha sobre “a proibição de greve nos serviços públicos e em atividades essenciais de interesse da segurança nacional”, e redefinia as atividades consideradas essenciais. No entanto a repressão não conseguia deter o avanço do movimento operário, e as greves não cessaram e foram retomadas nos anos seguintes.

A greve contra o arrocho salarial foi um movimento criado pelos sindicalistas para melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores de fábricas e demandar melhores condições de salário. Apesar dos trabalhadores já terem respaldo pela CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), era de direito dele realizar paralisações e greves, já que com a alta taxa de inflação do governo militar, os salários dos trabalhadores foram reduzidos drasticamente.

No ano seguinte, em 15 de março, toma posse o último presidente militar, João Batista de Oliveira Figueiredo. Ao mesmo tempo, 400 mil trabalhadores pararam as fábricas do ABC e de outras grandes cidades indústrias do estado de São Paulo. Não se tratava apenas de salário e do direito à vida digna, mas sim, a existência da ditadura vista como responsável pelo arrocho e pela repressão. Em sua edição de 23 de março, o jornal O Trabalho relatava a situação:

“TODOS CONTRA O ARROCHO – No dia da posse do general Figueiredo como quinto presidente da ditadura, 400 mil trabalhadores levam em frente a vigorosa campanha salarial dos últimos. Seis categorias querem um salário melhor, o direito de greve, um sindicato livre, liberdade para lutar por suas aspirações sem qualquer ameaça da polícia. Tudo aquilo, enfim, que lhes vem sendo tomado por diversos governos dos patrões, principalmente pelo regime militar instaurado em março de 1964, e que se ergueu sobre o arrocho salarial, as péssimas condições da vida e nenhum respeito pela vontade de mais de 90% da população brasileira. Parando as máquinas, a classe operária obriga o regime e os patrões a ouvirem sua voz” (Jornal O Trabalho. Edição de 23 de março, 1979).

Greve e ditadura: de Osasco e Contagem ao ABC

A greve do ABC de (1978-1980) pode ter sido uma das mais barulhentas do século XX devido as conjunturas políticas e sociais da época, mas não foi a primeira a questionar e sacudir a atenção do sistema brasileiro.

Em 1968 os metalúrgicos de Contagem (MG) e Osasco (SP), fizeram as primeiras grandes greves de resistência á ditadura militar. Naquele momento o Brasil vivia os anos de chumbo do regime, marcados pela falta de democracia, supressão de direitos constitucionais, perseguição política e repressão aos opositores do governo. Nas fábricas a situação era ainda pior. As condições de trabalho pioravam e os salários eram cada vez menores graças a uma política criminosa de combate a inflação por meio do arrocho salarial, adotado desde 1964.

Desde o início do regime militar, as cestas básicas tiveram um aumento exponencial, subindo 250%, enquanto o salário mínimo havia crescido em apenas 150%. Nos sindicatos, até mesmo dirigentes “pelegos” mostravam insatisfação com a política salarial do governo. Mas, com a atuação limitada e enfraquecida, as entidades sindicais pouco podiam fazer para buscar melhores salários e condições de trabalho para a classe operária.

Mesmo assim, nas cidades industriais de MG e SP, graças a pequena política de liberação sindical prevista pela CF de 1967, dirigentes de oposição haviam sido eleitos democraticamente por seus trabalhadores. Entretanto, no município de Contagem em MG, Ênio Seabra e sua futura diretoria para o sindicado foi destituída pela Ministério do Trabalho. O acontecimento enfraqueceu demasiadamente a organização sindical, já que, portanto, a nova diretoria posta não adotaria medidas radicais como as propostas por Seabra.

Contudo, a luta dos trabalhadores em Contagem ganhou força dentro da articulação dos trabalhadores nas fábricas. No dia 19 de abril de 1968 despontou-se uma greve no setor de trefilação da Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira. Cerca de 1200 trabalhadores pararam suas tarefas e reivindicaram 25% de aumento salarial. Este acontecimento surpreendeu fortemente o governo militar e ainda mais a própria diretoria do sindicato, que não buscava mais acordos financeiros por temerem a repressão governamental.

As mobilizações expandiram-se às demais regiões de Contagem (MG) até Osasco (SP), envolvendo aproximadamente 16 mil operários. Foi a primeira grande greve durante a ditadura militar no Brasil. A paralisação só acabou dez dias depois, após a oferta de 10% de reajuste salarial feito pelo então ministro do Trabalho, Jarbas Passarinho. Mesmo abaixo dos esperados 25%, a proposta foi imediatamente aceita pelo sindicato, não pelos operários, que só aceitaram os 10% depois da intervenção policial-militar na cidade e de ameaças de “guerra” do governo. Em junho, o aumento foi estendido a todos os trabalhadores do país.

Com o passar dos anos e a derrocada das políticas fiscais e inflacionárias, o Brasil viu de perto uma das maiores crises econômicas surgir. Sucateamento das esferas trabalhistas e sociais ao longo do tempo deu início ao novo período de greves, tendo como protagonista as indústrias e fábricas do ABC paulista, além de novas figuras sindicais que surgiram neste momento.

Tribuna Metalúrgica 

O Jornal Tribuna Metalúrgica, fruto dos órgãos de notícias e articulações dos sindicatos, transitava em seus boletins semanais, que eram distribuídos em fábricas e regiões onde predominavam os operários. Nas cartilhas entregues aos trabalhadores, muitas, contavam com charges e caricaturas críticas ao sistema salarial e político, e davam um passo a passo de como realizar uma união de trabalhadores, como reivindicar e protestar por seus direitos de forma clara e explicativa aos que recebiam essas cartilhas.

Contudo, neste período, como mencionado anteriormente, a Lei de Imprensa vigorava fortemente para todos os jornais brasileiros. Dessa forma, jornais como os citados aqui assumem uma posição marginalizada devido ao conteúdo. Sendo assim, apenas os jornais hegemônicos como O Estado de São Paulo e a Folha de S. Paulo narravam o cotidiano brasileiro, de maneira distorcida e censurada.

Jornal O Trabalho

O papel do jornalismo contra-hegemônico na época ditatorial e principalmente, na cobertura das greves como a de Osasco e Contagem e futuramente o ABC paulista, desempenhou uma enorme diferença no processo de disseminação de informações e articulações de trabalhadores em fábricas. Como os boletins da Tribuna Metalúrgica e como propagador de notícias e colunas de opiniões, por serem uma imprensa “livre”, porém, ilegal na época devido ao contexto. Jornais como O Trabalho, Movimento e Tribuna Metalúrgica foram alvo de monitoramento e perseguição como diversos outros.

O Trabalho, por exemplo, contava com um editorial de notícias relacionados a esquerda brasileira e mundial. Apresentavam colunas de opinião livres e ferrenhamente críticas ao governo militar. Sua forma de fazer jornalismo ia além das notícias de interesse público, o jornal fazia uma espécie de sociologia dos acontecimentos, sempre explicando e demonstrando as estruturas e relações de poder por trás dos fatos.

UNE e ditadura militar 

A União Nacional dos Estudantes tem sua história marcada na década de 30, e ao longo de seus 70 anos, marcou presença nos principais acontecimentos políticos, sociais e culturais do Brasil. Desde a luta pelo fim da ditadura do Estado Novo, atravessando a luta do desenvolvimento nacional e os anos de chumbo do regime militar.

Em 1964, a primeira ação ditatorial foi invadir e incendiar a sede da UNE no Rio de Janeiro, na fatídica noite de 30 de abril. Além de destruir e colocar na clandestinidade a entidade estudantil através da lei Suplicy de Lacerda, o regime perseguiu, prendeu, torturou e executou centenas de estudantes ao longo dos anos. A exemplo disso, em 1966, um protesto em Belo Horizonte, na Faculdade de Direito é brutalmente reprimido. No mesmo ano, também na capital mineira, a UNE realizou um congresso clandestino no porão de uma igreja. Já no Rio de Janeiro, na Faculdade de Medicina da UFRJ, a ditadura reprimi com violência os estudantes no episódio conhecido como Massacre da Praia Vermelha.

Apesar da repressão, a UNE continuou a existir nas penumbras da ditadura, em firme oposição ao regime, como ocorreu no ano de 1968, marcado por revoluções culturais e sociais em todo o mundo, como o movimento Hippe. Foi quando estudantes e artistas engrossaram a passeata dos Cem Mil no Rio de Janeiro, pedindo democracia, liberdade e justiça. Entretanto, os militares endureciam a repressão em episódios como o assassinato do estudante secundarista Édson Luís e a invasão do Congresso da UNE em Ibiúna (SP), com a prisão de cerca de mil estudantes. No fim do mesmo ano, a proclamação do Ato Institucional nº 5 (AI-5), indicava uma violência ainda mais forte.

Ao final dos anos 70, com os primeiros sinais de enfraquecimento do regime militar, a UNE começou a se reestruturar. O Congresso de reconstrução da entidade aconteceu em Salvador no ano de 1979, reivindicando mais recursos para as universidades, defesa do ensino público e gratuito, assim como pedindo a libertação de estudantes presos do Brasil.

O jornal O Trabalho retratou durante todo esse tempo o papel da UNE e das manifestações estudantis em prol da democracia. Tanto quanto na relevância para os movimentos grevistas dos trabalhadores do ABC paulista e de outras regiões do Brasil.

1º de maio de 1978 e 1979 

Após a nota publicada no jornal O Trabalho sobre o arrocho salarial e as campanhas pela vida, a situação nas fábricas do ABC paulista se mantinha conturbada. Depois de dez dias de greve, com manifestações, atos e mobilizações, as negociações entre patrões e empregados chegaram num impasse. O TRT-2 (Tribunal Regional Trabalhista da 2º Região) declarou ilegal a greve, os três principais sindicatos, que passaram a ser controlados pelo Ministério do Trabalho e seus respectivos diretores, foram exonerados.

Com a decretação da intervenção nos sindicatos, o governo intensificou a repressão. Tropas da polícia militar ocuparam São Bernardo do Campo. Com o fechamento do sindicato, as reuniões passaram então a ser feitas em igrejas.

Em paralelo, desenvolveu-se na sociedade um amplo movimento de solidariedade à greve, com recolhimentos e doações de alimentos e dinheiro. Essas atividades eram coordenadas principalmente por entidades sindicais, religiosas e estudantis.

Nesse quadro, Luiz Inácio Lula da Silva, o Lula, presidente do sindicato dos metalúrgicos de São Bernardo do Campo, defendeu a suspensão da greve por 40 dias, e a retomada das negociações salariais. Em maio, foi assinado um acordo entre o sindicato e a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) e, no dia seguinte, com o Grupo 14 da FIESP (formado por 22 sindicatos patronais da indústria metalúrgica), o acordo concedia 63% de aumento, sem escalonamento, determinando que, acima desse teto, seria aplicado o índice oficial de reajuste de 44%.

O acordo foi aprovado pelas assembleias, que agruparam cerca de 60 mil operários em São Bernardo do Campo, 3 mil em Santo André e 500 em São Caetano do Sul. Em junho, o ministro do Trabalho, Murilo Macedo, permitiu o retorno da antiga direção do sindicato.

Direito à greve

É do conhecimento de todos que viveram ou estudaram este período da história brasileira, compreendido pela grave violação de diretos trabalhistas, tanto quanto, os diretos humanos, que o direito à greve e a paralisações nos locais de trabalho, como fábricas, eram proibidos desde o início da ditadura em 1964. Através dos atos institucionais foi sendo sucateado pouco a pouco diversos sindicatos e organizações trabalhistas.

Mesmo neste contexto violento e opressor, a partir da década de 70 e dos antecedentes das greves de Contagem (MG) e Osasco (SP), decorreu assim uma maior liberdade e articulação sindical nas fábricas de São Paulo e de outras regiões brasileiras.

É claro que este posicionamento do governo militar não fora espontâneo acerca das greves, mas compreende um grande processo histórico de conquista de direitos no Brasil. Em primeiro lugar foi apenas em 1890, no Código Penal que foi considerado o direito a greve e manifestações como crime, e tendo punições de até 1 a 3 meses de cadeia. Já na CF de 1937 em pleno governo Vargas, estabeleceu no artigo 139 que – “a greve e o lockout são declarados recursos antissociais, nocivos ao trabalho e ao capital e incompatíveis com os superiores interesses da produção nacional”. Também de antemão, a CF de 1946 dizia no artigo 158 – “é reconhecido o direito de greve, cujo exercício a lei regulará” e a CF de 1967, elaborada durante o regime militar, trilhou o mesmo caminho, não permitindo a greve nos serviços públicos e atividades essenciais, porém, punindo a greve seguida de perturbação da ordem pública ou contrária ao interesse coletivo posto no artigo 201 com pena de detenção de seis meses a dois anos.

Mesmo nessa conjuntura, as greves de 68 e as futuras greves do ABC paulista e de Diadema, foram o gatilho para se dar início ao fim da ditadura militar. Seu papel de mobilização e articulação foram muito importantes na abertura democrático do país nos anos seguintes.

Sendo assim, o jornal O Trabalho publicou uma nota em 1979 intitulada QUANDO O DIREITO DE GREVE É CONQUISTADO:

“Para fazer greve havia uma receita: estava nessa célebre lei 4.330, e ninguém poderia deixar de obedecê-la se quisesse, como esse costuma dizer, andar na linha. Mas tal receita era impossível de ser satisfeita. Por isso, a lei não tinha nenhuma validade. Fora feita para inglês ver, ou melhor, para impedir mesmo a greve. E existia o medo funcionando como tabu, que segurou todo mundo durante dez anos (a última greve contra essa lei em 1968, foi violentamente reprimida). Ninguém se atreveria a passar por cima da legislação, certo e que as consequências desse gesto seriam extremamente danosas ao o movimento operário. Mas convenhamos que uma lei deve ser imparcial e funcionar de fato. Se não preenche tal requisito deve ser substituída. Mas quem haveria de ar outra lei aos trabalhadores? Não seria o governo, evidentemente; muito menos os empresários. Ninguém esperava que eles colocassem na CLT: “é permitido fazer greve”. Este é um direito que deveria ser conquistado pelos próprios interesses em exercitá-lo. Nem poderia ser tentado pelos sindicatos, pois estes, apesar de representantes legais dos trabalhadores, estavam atoados a legislação proibitiva. Se tentassem rompê-lo sofreriam intervenção ministerial. Estava então, na mão dos operários e de suas articulações.”

Foi só então com as greves que levaram posteriormente e alavancado com outros movimentos democráticos por justiça que, em 1989, a criação da CF cidadã dispôs na Lei 7.783 de 28 de junho – Art1º” É assegurado o direito de greve, competindo aos trabalhadores decidir sobre a oportunidade de exercê-lo e sobre os interesses que devam por meio dele defender. – Parágrafo único. O direito de greve será exercido na forma estabelecida nesta Lei.”

O novo sindicalismo

A resistência sindical durante a ditadura militar de 1964, que se consolidou no ABC Paulista a partir de 1978-1980, teve na base metalúrgica um de seus principais expoentes que marcaram esse período inovando o formato e o grau de organização e mobilização dos trabalhadores. Em suas características podemos citar o trabalho de base, mesmo sob vigia e repressão governamental. A solidariedade gerada por esse movimento que alavancou outros movimentos sociais, com ajuda de igrejas e entidades. A crítica ferrenha ao autoritarismo e a legislação trabalhista, acabou tendo efeito multiplicador das ações sindicais. Essa nova onda ganhou o nome de; novo sindicalismo.

O Novo Sindicalismo, ou “sindicalismo autêntico”, como também se tornou conhecido, desafiou a legislação antigreve e começou a romper as amarras da organização sindical subordinada ao Estado, modelo implantado no país desde a década de 1940. Os trabalhadores impulsionaram a luta pela redemocratização não somente por meio de greves: iriam criar seu próprio partido, o PT (Partido dos Trabalhadores), em 1980, e a Central Única dos Trabalhadores (CUT), em 1983. Articulado com outros movimentos sociais, o Novo Sindicalismo levaria a pauta dos trabalhadores às ruas e à Assembleia Constituinte (1987-1988), conferindo nova qualidade à luta política na transição da ditadura para o regime democrático.

Criação do Partido dos Trabalhadores - fevereiro de 1980

Jornal O Trabalho, edição de 1980 nº15

Diante deste cenário marcado pelo início das articulações sindicais em 1978 nas fábricas da região industrial do ABC Paulista, e da nova forma de realização de um trabalho de base sindical, nasce, junto á figuras marcantes da época, o PT.

Foi neste contexto político, econômico e social, marcado por intensas mobilizações que o líder sindical e principal fundador do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, mais conhecido como Lula, tornou-se um dos protagonistas da história de luta contra as injustiças existentes no país. O PT nasceu no dia 10 de fevereiro de 1980, no Colégio Sion, em São Paulo.

Naquela época, o que impulsionou a criação de partido foi a extrema necessidade de promover mudanças significativas na vida dos trabalhadores das cidades industriais e do campo. Além do próprio Lula, militantes de esquerda, intelectuais e artistas, fizeram parte da criação do PT, entre eles estão Apolônio de Carvalho, Mario Pedrosa, Antônio Cândido e Sergio Buarque de Holanda.

E claro, a primeira conquista do partido veio com seu reconhecimento oficial pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral), tendo como registro no tribunal apenas em 1982. No mesmo ano em que o partido foi reconhecido oficialmente pelo Tribunal Superior de Justiça Eleitoral, nas eleições decorrentes, o PT elegeu o seu primeiro representante. O ferramenteiro Gilson Menezes, que se tornou prefeito de Diadema, cidade da Grande São Paulo.

Prisão do líder sindical, Lula: 19 de abril de 1980

Em abril de 1980, o sindicato dos metalúrgicos voltou a parar o ABC depois das greves de 1978 e 1979. Para o Ministério da Justiça, o movimento era ilegal, mas os trabalhadores se recusaram a suspendê-lo. Logo pela manhã do dia 19 de abril, o Departamento de Ordem Política e Social, o DOPS, decidiu agir, e mandou dezessete líderes sindicais para a cadeia – entre eles, Lula.

Como mostram os documentos da época, acessados pelo Cemap-Interludium no Acervo Mario Pedrosa e Sérgio Buarque de Holanda, as acusações foram atentar contra “a paz e a prosperidade nacional”, realizar “guerra psicológica adversa” e empreender “ações no campo econômico e social”.
Para o governo militar, Lula incitava os trabalhadores a parar. No inquérito policial, o metalúrgico e seus companheiros também foram acusados de atacar os juízes do Tribunal do Trabalho, alegando-os de serem corruptos e acometendo com violência o Ministro do Trabalho, bem como o próprio Governo Federal como Instituição.

Em vez de acabar com a greve, a prisão de Lula pareceu ter dado força aos manifestantes. Os trabalhadores ficaram parados por 23 dias depois da ação do DOPS, totalizando 41 dias de manifestações. “Na época os empresários não queriam negociar. Mas a prisão se tornou uma motivação a mais para a greve continuar”, disse Lula, em 2014, em seu depoimento à Comissão Nacional da Verdade (CNV).

Lula e outros companheiros permaneceram 31 dias no cárcere. Devido à conjuntura de repressão de época, Lula recebeu um tratamento um tanto quanto atípico. Realizaram uma greve de fome por 4 dias, Lula foi liberado para acompanhar o enterro de sua mãe, pôde assistir a uma partida do Corinthians e ainda fez uma assembleia com funcionários. Eles foram sentenciados a penas entre dois e seis meses, condenados por "incitação à desobediência coletiva das leis". Ainda assim, o Superior Tribunal Militar (STM) anulou o processo, fazendo com que todos detidos fossem liberados.

Em uma entrevista à BBC Brasil, em 2014, Isais, um dos companheiros presos com Lula, relata uma conversa tida com ele: “Lula me disse que não sabia se a gente sairia vivo ou morto, mas que entraríamos para a história. Ele disse que nossos netos ou bisnetos chegariam no governo um dia. Ele não disse que ele seria o governo, o presidente, mas sim os nossos netos.”

Lula e seus companheiros foram liberados do DOPS por volta das 20h no dia 20 de maio. O juiz Nelson da Silva Machado Guimarães considerou que não era mais necessário manter a prisão dos sindicalistas depois do fim da greve. "A ordem pública não se acha mais perturbada", afirmou o juiz.

1º de maio de 1980 - Vila Euclides

Jornal O Trabalho, edição de 1980 nº27

Conhecido anteriormente como Vila Euclides, o estádio municipal de São Bernardo do Campo, em seu 1º de Maio, teve seu nome alterado em homenagem às grandes manifestações e greves que passaram por seus gramados durante a década de 1980.

Há 40 anos, mais de 150 mil metalúrgicos tomaram o estádio da Vila Euclides em São Bernardo do Campo (ABC). Nesse período atravessado por sucessivas paralisações nos anos anteriores, a deflagração da ditadura militar implantada em 1964, abriu caminho pela luta por direitos trabalhistas, aumento salarial e melhores condições de vida. Assim, diante de uma conjuntura danosa aos operários, nasceu uma das maiores mobilizações do país até então.

Neste momento, após a soltura do líder sindical, Lula, e seus companheiros, a situação era outra, e ainda mais sobrecarregada. Quando o 1º de Maio daquele ano chegou, os metalúrgicos já estavam em greve há 34 dias. A campanha salarial se dava sempre às vésperas do Dia do Trabalhador. Sem comparecerem às fábricas, os metalúrgicos se concentraram na igreja do Largo da Matriz, no centro de São Bernardo do Campo, onde o sacerdote Cláudio Hummes dava abertura para que o grande salão de festas abrigasse os mantimentos recolhidos pelo Fundo de Greve. Quando chegaram para a missa em homenagem ao Dia do Trabalhador e iniciar a caminhada até a concentração marcada para Vila Euclides, os metalúrgicos encontraram a praça tomada por 8 mil policiais militares.

A situação era de enfrentamento. Uma viatura policial tentou estacionar no meio da concentração de trabalhadores, de modo a dispersá-los, como retrata o com o jornal O Trabalho. Mas, o que ocorreu foi diferente: a polícia é que teve de sair. Vencida a repressão, os trabalhadores rumaram para o estádio e lá, realizaram o maior 1º de Maio de protesto que o Brasil já assistira, com mais de 150 mil trabalhadores concentrados na Vila Euclides para dizer “abaixo a ditadura” e ouvir o discurso de Lula:

“Agora companheiros, depois de dois dias de ausência nós voltamos aqui, a Diretoria do Sindicado volta para assumir a greve que nós começamos no dia 13. Todos vocês sabem o que fazer. Existe um trabalho a ser feito nos bairros, nos pontos de ônibus, e o que é mais importante, ninguém ir à porta da fábrica. Agora, é um pedido que faço, não saiam em passeata, saiam daqui direto para suas casas.” (ABC de Luta, 1º maio, 1980.)

No mesmo dia o Jornal “Movimento”, lançou na primeira página de seu editorial:

“8 mil policiais tomam conta da cidade fortemente armados enquanto as vias de acesso são bloqueadas. Mesmo assim, 100 mil pessoas, de toda a região, reúnem-se ao redor da Igreja Matriz, dispostas a fazer uma passeata. Diante da multidão, a polícia recua novamente, possibilitando a realização da maior passeata desde o AI-5, em 1968. A multidão vai até Vila Euclides, reconquistá-la. Mas nos dias seguintes, a polícia voltará as ruas, cada vez mais violenta (Jornal “Movimento”, nº 255, p.13).

A História estava sendo feita, a mudança estava posta, e os 40 anos que se seguiram trazem as memórias daquele dia relembrável, no campo da Vila Euclides.

Fim da greve: mudanças e reabertura política

Ao final dos anos 80, a população se solidarizou com os grevistas arrecadando recursos para os fundos de greve e alimentos. Mesmo com o governo enfraquecido, a repressão aos manifestantes foi dura, com mortes e intervenções nos sindicatos mais ativos, como o dos bancários de Belo Horizonte, Porto Alegre, e o dos Metalúrgicos de São Bernardo.

As consequências das greves foram o enfraquecimento ainda maior do regime militar e o surgimento de um polo unido das forças de esquerda, fraturadas durante a ditadura. Em torno da CUT e do PT, que se tornariam fenômenos de organização extremamente influentes nas décadas seguintes.

Dessa maneira, a queda da ditadura está intrinsecamente ligada com as mobilizações de massas ocorridas no país durante a primeira metade da década de 1980, que tiveram nas greves do ABC seu pontapé inicial. Apesar da transição democrática ter se dado através de um acordo entre as frações da burguesia que disputavam o poder no momento, a mobilização dos trabalhadores foi determinante para decretar o fim da ditadura, ainda que não tenha sido suficiente para impor uma derrota mais decisiva ao regime.

Para além disso, as lideranças sindicais surgidas durante tais greves se consolidaram como grandes referências políticas durante o regime democrático, especialmente Lula, que de representante dos trabalhadores em luta passou a ser o representante da conciliação de classes, atingindo, com isso, a presidência da república em 2002. Esses elementos são mais que suficientes para comprovar a importância histórica das greves do ABC como um dos fatores que geraram a crise final da ditadura civil-militar brasileira.