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A perda de Raimundo Pereira

O jornalista Raimundo Rodrigues Pereira, um dos nomes mais emblemáticos da história da imprensa de resistência à ditadura militar, morreu neste sábado, no Rio de Janeiro, aos 85 anos. Editor do jornal Opinião e fundador do jornal Movimento, Raimundo dedicou-se por toda a vida um jornalismo combativo, à construção de uma imprensa comprometida com a verdade e a democracia.

Raimundo começou a carreira em veículos da grande imprensa, como a revista Realidade e o jornal O Estado de S. Paulo, onde se destacava pela qualidade das reportagens e pela profundidade de suas análises. Mas foi na imprensa alternativa que deixou sua verdadeira marca. Primeiro no Opinião e depois no Movimento, que fundou em 1975, com um modelo autofinanciado, de uma sociedade anônima, com ações distribuídas entre seus jornalistas e apoiadores.

O ponto forte de Movimento eram as denúncias contra a ditadura e as campanhas pela anistia e pela libertação dos presos políticos. O semanário foi submetido à censura prévia da sua primeira edição até o nº 153, de 5 de junho de 1978. Em muitas edições, espaços em branco denunciavam a violência do regime contra a liberdade de imprensa.

Com o fim da censura, sofreu pressões da receita federal e cisões que afetaram sua circulação. Em 1981, os atentados da extrema direita, com invasões de sucursais e bombas em bancas que vendiam jornais alternativos foram a gota d’água. Muitos jornaleiros deixaram de vender o jornal, que acabou por fechar em novembro de 1981, depois de 334 edições.

Em 1985, Raimundo desenvolveu o projeto Retrato do Brasil, coleção publicada em fascículos que traziam reportagens extensas e análises estruturais do país, em um balanço dos 20 anos de ditadura. Sempre alinhado a uma visão de imprensa independente, em 1998 lançou a revista Reportagem, com linha editorial de combate à política neoliberal do governo FHC.

Em 2005, retomou a publicação de Retrato do Brasil, primeiro para cobrir as mudanças ocorridas entre 1984 e 2004 e depois como revista mensal de reportagens e artigos, que durou até 2015. Durante anos suas revistas circularam mensalmente, sempre levantando fatos relevantes em reportagens sobre economia, política nacional, temas sociais e culturais e assuntos internacionais, com a colaboração de uma pequena e engajada equipe. Assuntos mais importantes, como o chamado Mensalão, se transformaram em séries e depois em livros. Mais tarde, Raimundo ainda fez parcerias e colaborações com as revistas Caros Amigos, Carta Capital e Piauí e com o site Brasil 247.

O livro ContraCorrente – A história de Raimundo Rodrigues Pereira, de Júlia Rabahie e Rafael Faustino, pode ser baixado gratuitamente na biblioteca da Fundação Maurício Grabois.

O Centro de Documentação do Movimento Operário Mário Pedrosa (Cemap) tem a coleção completa de Movimento, que pode ser consultada na sede do Centro de Documentação e Memória (Cedem) da Unesp, que abriga seu acervo, ou pelo mecanismo de consulta do Cedem na internet, pois os números do semanário estão digitalizados.

Em 2019, Cemap-Interludium foi uma das dez entidades selecionadas pelo edital de Apoio à Digitalização de Acervos da Secretaria de Cultura da Prefeitura de São Paulo, com seu projeto Memória de uma Imprensa Alternativa, que previa a digitalização e a divulgação das coleções de Movimento, Opinião e Versus.

O Cedem fica na Praça da Sé, número 108, no centro de São Paulo. Interessados em consultas presenciais aos acervos podem entrar em contato pelo telefone (11)3116-1701 ou pelo e-mail pesquisa@unesp.br.

* Com informações dos sites da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo e da Revista Fórum.

A imprensa de resistência à ditadura

O rolo compressor da ditadura contra os jornais que não se alinhavam levou muitos jornalistas a se unirem para fundar pequenos jornais em que pudessem expressar suas opiniões e discutir o país. Os jornais alternativos, como ficaram conhecidos, eram publicados no formato tabloide, mais barato, e juntavam a análise política e econômica a matérias culturais e ao humor, criando um modelo que se disseminou por todo o país – centenas de jornais de vida mais ou menos breve foram publicados. O site Memórias da Ditadura faz um breve apanhado sobre essa história.

Ainda hoje é interessante ler as matérias publicadas, pela grande qualidade de seus textos e para ter uma perspectiva histórica. Corrupção, violência, abuso de direitos humanos, demagogia são problemas muito mais antigos do que as turbulências políticas dos últimos anos sugerem. Mesmo submetida à censura, a imprensa alternativa foi capaz de discutir muitas das mazelas do Brasil real que os grandes jornais não podiam, ou não se atreviam a publicar.

Publicado em:memória

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