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De Jaurès a Mélenchon, a criação do inimigo público

Bandeira da França Insubmissa durante manifestação

A França Insubmissa é hoje a única força verdadeiramente de esquerda com forte apoio popular na França. Seus militantes e porta-vozes transbordam inteligência, abnegação e integridade. No entanto, desde que a LFI se posicionou contra o genocídio em Gaza, uma onda de loucura parece ter tomado conta da classe política e dos meios de comunicação do país. Uma espécie de “aliança sagrada” e heterogênea se formou com um único objetivo: destruir essa força do progresso a qualquer custo.

Todos os partidos que em geral são antagônicos de repente se veem unidos por esse mesmo objetivo; do Partido Socialista ao Reconquista, dos Verdes ao Reunião Nacional, passando pela direita e os partidários do presidente francês, Emmanuel Macron, é uma corrida para ver quem consegue ser mais rápido em condenar a França Insubmissa e seu fundador, Jean-Luc Mélenchon.

No campo dos meios de comunicação, encontramos o mesmo leque de críticas, do Libération ao Frontières, do Le Nouvel Observateur ao Valeurs Actuelles, do Franceinfo ao Franc-Tireur. Na Suíça francófona, os colunistas mais insossos seguem o exemplo e imitam os editoriais de CNews, L’Express e congêneres; o Tribune de Genève e o Le Temps reproduzem as acusações falaciosas de antissemitismo contra a LFI.1A França Insubmissa (La France Insoumise) é um partido de esquerda e seu programa político prevê a revisão dos tratados com a União Europeia e eventual ruptura, a convocação de uma Assembleia Constituinte e a saída da França da Otan. Fundado em 2016, o partido tem tido resultados eleitorais importantes: em 2022, Mélenchon ficou em terceiro lugar na disputa presidencial e em 2024 a coalizão de que participava, a Nova Frente Popular, conquistou o maior número de vagas na Assembleia Nacional, 193, das quais 72 da LFI. Nestas eleições municipais, o partido ganhou o comando de 9 cidades e elegeu quase 600 vereadores.

Jean-Luc Mélenchon, da França Insubmissa, em 2016
Mélenchon em 2016. Foto de Fred Marvaux/Centro Multimídia do Parlamento Europeu.

Essas acusações, obviamente, não têm nenhum fundamento. A LFI é um partido progressista, que se posiciona contra o racismo, contra o antissemitismo e contra a islamofobia; em suma, antifascista. No entanto, uma avalanche de propaganda delirante, que vai muito além da saturação, se abate sobre esse partido à medida que que o primeiro turno das eleições municipais francesas se aproxima2Este artigo foi publicado no jornal suíço independente Le Courrier em 11 de março, antes da realização do primeiro turno, no dia 15. Na tradução, optamos por manter os tempos verbais usados pelo autor.. Será que esse bombardeio implacável dará frutos? O nível de conscientização do povo francês e, de forma mais geral, da opinião pública mundial, é forte o suficiente para resistir ao ataque? Num cenário otimista, podemos imaginar que essa perseguição obstinada e grosseira tenha o efeito oposto; num cenário pessimista, podemos temer que, em um contexto de mentiras generalizadas transformadas em discurso oficial, a manobra de demonização tenha sucesso.

Um paralelo salta aos olhos: o do clima que precedeu o assassinato de Jean Jaurès3Jean Jaurès (1859-1914), foi um dos líderes mais importantes do socialismo francês em sua época e trabalhou pela unificação dos agrupamentos socialistas que deu origem à Seção Francesa da Internacional Socialista (SFIO), hoje Partido Socialista. Veja mais no fim deste artigo, em 1914. Líder da Seção Francesa da Internacional Operária (SFIO), Jaurès era, como Mélenchon, um homem de grande erudição e um orador excepcional. Filósofo de formação, oriundo de uma família camponesa modesta, era um intelectual completo, capaz de dominar qualquer assunto, e um militante pragmático, tão incisivo na tribuna da Assembleia Nacional quanto contundente em manifestações ou nos piquetes de greves. Seu objetivo de emancipação das massas, impregnadas de fé cristã, passava por uma produção intelectual brilhante e discursos galvanizadores.

Brilhante e carismático, Jaurès superava em muito seus adversários políticos. Ao crescimento de nacionalismos rançosos, ele opunha a solidariedade entre os povos; contra as explicações simplistas, racistas e essencialistas, ele apresentava análises irrefutáveis sobre as consequências mortíferas das desigualdades inerentes ao sistema capitalista. À medida que as classes dominantes corruptas e medíocres mergulhavam em uma espiral belicista e o fedor nauseabundo do racismo e do antissemitismo gangrenava a Terceira República, Jaurès e seus companheiros tornaram-se vítimas de um um complô inaudito, orquestrado tanto pela burguesia “de raiz” quanto pelos nacionalistas mais fervorosos. A campanha dos meios de comunicação estava em perfeita sintonia com esse desejo de demonizar um adversário brilhante demais para ser derrotado pelo debate. Nesse clima deletério, um pobre coitado, militante monarquista de origem humilde, acreditou na propaganda cegamente e pôs na cabeça que iria matar o “traidor da pátria”. Ele passou da ideia à ação em 31 de julho de 1914. A França entrou em guerra no dia seguinte.

O assassino de Jaurès foi absolvido quatro anos depois: a ignomínia foi total até o fim.

Um clima de loucura semelhante permeia a sociedade francesa hoje. Todos os valores estão invertidos. Antifascistas são acusados de serem fascistas; um jovem neonazista é aclamado como um mártir republicano; a extrema-direita, historicamente antissemita, acusa de antissemitismo a única força progressista que é radical e intrinsecamente antirracista; apresentadores de programas de entrevistas – dos veículos de mídia do grupo Bolloré aos do serviço público – repetem à exaustão a mesma ladainha.

Enquanto governos ocidentais (à exceção da Irlanda e da Espanha) apoiaram – e ainda apoiam – o genocídio em Gaza e continuam consumidos por essa tendência imperialista combatida por Jaurès no passado (o infame Macron arrasta a França para a guerra, seguindo a aliança americano-israelense), a LFI mantém o único discurso de resistência organizado e íntegro. As consequências de sua demonização são imensuráveis; elas impregnam o debate político para muito além da esfera francesa e afetam todos nós. Para pior.

Logotipo do partido La France Insoumise

Jean Jaurès discursa em uma manifestação em 25 de maio de 1913
Jaurès discursa em manifestação contra o projeto de estender o serviço militar obrigatório, em maio de 1913.

Quem foi Jean Jaurès

Um dos líderes mais importantes do socialismo francês em sua época, Jaurès (1859-1914) trabalhou pela unificação dos agrupamentos socialistas que deu origem à Seção Francesa da Internacional Socialista (SFIO), hoje Partido Socialista. Ele fundou e dirigiu o jornal do partido, L’Humanité, que com a cisão da SFIO, em 1920, se tornou o órgão central do Partido Comunista.

Parlamentar de destaque, Jaurès foi um dos maiores oradores do seu tempo – para Lunacharsky, primeiro comissário soviético da Educação, ele era o único a igualar o talento oratório de Leon Trotsky. Pacifista determinado, combateu de todas as maneiras o espírito militarista atiçado pelos imperialismos francês e alemão que desembocou na carnificina da 1ª Guerra Mundial. É famosa sua afirmação: “O capitalismo traz em si a guerra, como as grandes nuvens carregam em si a tempestade.”

Atacado furiosamente pelos militaristas, acusado de ser “o deputado do kaiser Guilherme II”, manteve até o fim o combate contra a guerra imperialista. E nesse combate tombou, assassinado por um extremista a favor da guerra, na exata véspera da sua deflagração.

Fontes: Arquivo Marxista na Internet; Opera Mundi; Infopedia; Max Eastman, Notas sobre o Autor, em Trotsky, História da Revolução Russa, volume I; e Stefan Zweig, Jean Jaurès, o socialista, em O Mundo Insone e outros ensaios (Zahar, 2013).


O dramaturgo Dominique Ziegler

Dominique Ziegler é escritor, dramaturgo e diretor de teatro suíço, filho do sociólogo Jean Ziegler. Defensor de uma forma de teatro política, histórica e lúdica, ele escreveu e encenou mais de uma dúzia de peças de teatro apresentadas com sucesso em Genebra, Paris, Bruxelas e Avignon, além de livros sobre o assunto, ensaios e romances. Dominique Ziegler também é um colunista regular do Le Courrier, jornal independente suíço de língua francesa.

O economista Roberto Vital Anav

O economista Roberto Vital Anav é professor concursado de Economia na Universidade Municipal de São Caetano dos Sul (USCS), mestre em Urbanismo e doutor em Planejamento em Gestão do Território, com pós-doutorado em História Econômica. Um dos fundadores da Central Única dos Trabalhadores, foi integrante da diretoria do Sindicato dos Bancários de São Paulo que foi cassada pela ditadura em julho de 1983 e dirigiu a Regional Grande São Paulo da CUT entre 1985 e 1986. Também é autor do livro O Retorno De Karl Marx (Editora Serpente/Fundação Perseu Abramo, 2017) e colabora com artigos para o site A Terra é Redonda.


Notas

1) A França Insubmissa (La France Insoumise) é um partido de esquerda e seu programa político prevê a revisão dos tratados com a União Europeia e eventual ruptura, a convocação de uma Assembleia Constituinte e a saída da França da Otan. Fundado em 2016, o partido tem tido resultados eleitorais importantes: em 2022, Mélenchon ficou em terceiro lugar na disputa presidencial e em 2024 a coalizão de que participava, a Nova Frente Popular, conquistou o maior número de vagas na Assembleia Nacional, 193, das quais 72 da LFI. Nestas eleições municipais, o partido ganhou o comando de 9 cidades e elegeu quase 600 vereadores.

2) Este artigo foi publicado no jornal suíço independente Le Courrier em 11 de março, antes da realização do primeiro turno das eleições municipais, no dia 15. Na tradução, optamos por manter os tempos verbais usados pelo autor.

Publicado em:debate,Opinião,política

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