A memória, o conhecimento da história, é a maior arma de que dispomos para compreender acontecimentos atuais, não repetir erros e avançar. Apesar disso, quanto mais tempo passa, mais a ditadura brasileira parece uma coisa abstrata, algo “chato”, “triste”, que aconteceu, mas foi superado e acabou. Um período da história que já se encerrou, ficou para trás.
Essa impressão é muito estimulada hoje em dia, com todo tipo de discurso, a começar pelo da “ditabranda” de triste fama. E não é pra menos: com isso se esconde a realidade de que a ditadura deixou uma herança ainda muito viva, em especial no comportamento dos órgãos de repressão. Varre-se pra debaixo do tapete não só os mortos, presos e vítimas de tortura, mas todos aqueles que, mesmo sem nenhum vínculo com organizações de esquerda, foram prejudicados por um governo que censurava a liberdade de expressão, proibia qualquer manifestação contra ele, deturpava os currículos nas escolas para “vender” a história do Brasil que o favorecia e buscava impedir com todas as (muitas) forças de que dispunha qualquer investigação sobre massacres e corrupção.
Pensando nisso, reunimos uma série de filmes produzidos durante a ditadura e depois que discutem o tema. São documentários e obras de ficção que vão do drama à comédia mais escabrosa e oferecem uma reflexão sobre vários aspectos da ditadura e do que era viver debaixo dessa sombra. Dentro do possível, buscamos links para o filme todo ou pelo menos um trailer (clique nos títulos).
Aqui publicamos a primeira lista, das décadas de 1960 e 1970, organizada por ano. As demais virão nos próximos dias. Dentro do possível, buscamos links onde é possível assistir ao filme todo ou um trailer Se você lembrar de algum filme que não está aqui, use os comentários para avisar!

O Desafio (1965), de Paulo César Saraceni
Logo depois do golpe militar de 1964, a atmosfera era de depressão, medo e falta de perspectivas. Nesse contexto, o filme narra a impossibilidade amorosa vivida por Marcelo, um jornalista e intelectual de esquerda que tem um relacionamento extraconjugal com Ada, mulher de um rico industrial. A crise amorosa reflete e ecoa a crise política de Marcelo, que tem amigos que estão presos, respondendo a inquéritos militares e sofrendo torturas. Ele se sente culpado e impotente. O filme é literalmente o produto de “uma ideia na cabeça, uma câmera na mão”. Rodado em 14 dias em maio de 1965, é um “filme guerrilha” em que cada fala tinha de dizer ao espectador que houve um golpe de Estado no Brasil. O filme ficou retido por oito meses no Departamento Federal de Segurança Pública e só foi liberado para exibição comercial em abril de 1966.

A Derrota (1966), de Mario Fiorani
É a história de um homem encarcerado, cujo nome não é revelado em momento algum do filme. Também não fica claro quais são os motivos concretos de sua detenção. Ele sofre torturas físicas e psicológicas para que faça uma confissão, mas se nega a fazê-la. A pressão sobre o prisioneiro cresce, até que, numa reviravolta, ele consegue inverter a situação de vítima e tenta desesperadamente liquidar o bando que o aprisionou. Chega a matar alguns, mas acaba recapturado e é executado. Embora o filme não se situe de maneira explícita em nenhum momento específico da história brasileira, a prisão, as torturas e o clima de opressão de toda a narrativa são uma nítida referência ao regime militar instaurado em 1964.

Terra em Transe (1967), de Glauber Rocha
Eldorado, país fictício da América Latina, encontra-se entre o golpe de Estado e o populismo, entre a crise e a transformação. Paulo Martins é um jornalista que deposita nos políticos suas esperanças de mudar a situação de miséria e injustiça que assola o país. Na tentativa de influenciar homens poderosos, ele se alia ora a políticos conservadores, ora a populistas, mas só se desilude. Na época, o filme provocou bastante polêmica e chegou a ser rotulado de “fascista” por alguns intelectuais. Muito premiado, Terra em Transe teve grande influência na produção cultural do país. Em novembro de 2015, foi incluído na lista dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos, elaborada pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine).

Estudantes, condicionamento e revolta (1968) e
Os anos Passaram (1968), de Peter Overbeck
Um retrato da mobilização estudantil pela democracia no Brasil em 1967 e 1968. Mescla depoimentos de estudantes da USP com cenas do cotidiano dentro e fora do campus universitário, como passeatas e assembleias organizadas por grupos militantes de esquerda, e também faz uma ligação com os movimentos estudantis dessa época em vários países. Talvez se trate de um só documentário registrado com nomes diferentes, porque o ano e a temática dos dois documentários são os mesmos. Mas a Cinemateca Brasileira informa que Os Anos Passaram é um dos filmes que restaurou em seu projeto Marcas da Memória. E, segundo a Fundação Perseu Abramo, o original de Estudantes, condicionamento e revolta está no acervo de seu Centro Sérgio Buarque de Holanda de Memória e História (CSBH).

O Bandido da Luz Vermelha (1968), de Rogério Sganzerla
Baseado na história real de João Acácio Pereira da Costa, assaltante que ficou famoso pela ousadia e extravagância de seus crimes e por usar uma lanterna coberta com papel transparente vermelho em seus roubos – de onde vem seu apelido. Foi perseguido pela polícia durante seis anos, acusado de 4 assassinatos, 7 tentativas de homicídio e 77 roubos. Um dos destaques do chamado Cinema Marginal, o filme não tem uma ligação direta com a ditadura, mas é uma mostra de como a polícia agia no período. Assim como Terra em Transe, o filme entrou na lista feita pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos em novembro de 2015.

Blablablá (1968), de Andrea Tonacci
Em um momento de grave crise institucional, confrontado por revoltas e guerrilha na cidade e no campo, um ditador grava um longo pronunciamento sobre a situação para ser transmitido pela televisão. Enquanto ele denuncia a instabilidade, fala na necessidade de manutenção da ordem, defende uma uma paz ilusória, acusa inimigos de persegui-lo e comete outros chavões desse tipo de discurso, aparecem imagens de protestos, prisões, repressão e execuções sumárias por agentes da ditadura. Aos poucos, a realidade impõe-se à ficção do pronunciamento e o controle da situação lhe escapa das mãos. Sobra-lhe uma patética confissão antes de sair do ar.

Jardim de guerra (1968), de Neville D’Almeida
A paixão pela famosa atriz Maria do Rosário tira o jovem Edson de um estado mental de letargia e marasmo e ele decide seguir o grande sonho de se tornar cineasta. Na busca por financiamento, Edson acaba sendo acusado injustamente de terrorismo por uma organização da direita, e é preso e torturado. O filme foi interditado pelo Serviço de Censura de Diversões Públicas e só foi liberado para exibição dois anos depois, com 48 cortes – e demorou mais quatro anos para conseguir um lançamento comercial digno. A versão original, sem os cortes, foi dada como perdida por muitos anos até que uma cópia não adulterada foi encontrada na Europa. Hoje ela está sob a guarda da Cinemateca do Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro.

A Vida Provisória (1968), de Maurício Gomes Leite
Um jornalista mineiro radicado no Rio de Janeiro vai a Brasília para cobrir um pronunciamento do governo sobre a entrega do controle de jazidas de Minas Gerais a empresas estrangeiras. Também leva documentos que apontam corrupção na negociação das jazidas, que lhe foram passados por um general para que sejam entregues a um político. Na viagem, ele recorda sua militância política e dois amores do passado. Em Brasília, não consegue fazer chegar os documentos a seu destino, é detido por agentes da ditadura e executado. O filme, considerado um clássico do Cinema Novo, recria as manifestações contra a censura, tema central da resistência cultural em 1968, e sofreu vários cortes da censura.

O Bravo Guerreiro (1969), de Gustavo Dahl
O filme narra a trajetória de Miguel Horta, um jovem deputado de esquerda que muda de partido para se infiltrar no governo, pois acredita que só poderá fazer algo pela causa pública se estiver no poder. Enredado e comprometido por tramas dos direitistas e cada vez mais isolado, ele percebe que tomou a direção errada. Um dia recebe a visita de um cabo eleitoral dizendo que “pelegos” estão tentando derrubar a diretoria do sindicato graças a um projeto de lei de sua autoria. Apesar dos apelos de Clara, sua mulher, Miguel vai para o sindicato, onde os trabalhadores estão reunidos em assembleia geral. Quando o presidente do sindicato consegue administrar a situação, Miguel faz um discurso em que reconhece a falência do seu projeto de negociação e insufla os trabalhadores a partirem para o confronto por meio de uma greve geral.

Os Herdeiros (1969), de Cacá Diegues
A trama narra de maneira teatral e épica a história de uma poderosa família brasileira e suas relações com os governos do país entre o período que vai da Revolução de 1930 até pouco depois do golpe militar de 1964. Todas as mudanças políticas parecem só aumentar a influência dessa família, que se mantém sempre próxima do poder, trocando de “amigos” logo antes de os governos mudarem. O filme acaba por ser uma reflexão cinematográfica sobre o papel das elites intelectuais, políticas e econômicas brasileiras no processo de construção e controle da nação.

Manhã Cinzenta (1969), de Olney São Paulo
Em uma ditadura fictícia na América Latina, um casal de estudantes participa de uma manifestação e é preso. Os dois são torturados na prisão e sofrem um inquérito absurdo dirigido por um robô e um cérebro eletrônico. O média-metragem mistura documentário e ficção, com imagens inéditas dos protestos estudantis de 1968. Um dos primeiros filmes a serem censurados depois do golpe de 1964, seus negativos foram confiscados em 1969 e ficaram guardados na Cinemateca do Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro por 25 anos. Proibido no Brasil, “Manhã Cinzenta” foi exibido e premiado em vários festivais internacionais. Olney foi preso e processado pela ditadura por esse filme.

Meteorango Kid: o herói intergaláctico (1969), de André Luiz Oliveira
De forma anárquica e irreverente, o filme narra as aventuras de Lula, um estudante universitário de classe média, no dia de seu aniversário. Lula é um anti-herói, revoltado e em desacordo com a família e com qualquer outra instituição ou grupo social, e sua jornada vai das experiências mais prosaicas até as mais insólitas – com passagens oníricas, fantasias com super-heróis famosos e outras guinadas narrativas inusitadas. É um perfil despojado de um jovem desesperado, representante de uma geração oprimida pela ditadura militar e pela moral retrógrada de uma sociedade passiva e hipócrita. O filme foi restaurado em 2024 pela Cinemateca Brasileira.

Os monstros de Babaloo (1970), de Elyseu Visconti Cavalleiro
Babaloo, uma pequena república de bananas ao sul do Equador, é controlada pelo milionário Badu. Ele e sua família disfuncional e grotesca estão levando o país à bancarrota por conta de gastos extravagantes com carros, bebida, sexo e outras coisas do gênero e de maracutaias corruptas. Um circo dos horrores debochado que põe a burguesia na vitrina: o patrão infiel e fanfarrão, a esposa perua e “devoradora de dólares”, os filhos esquisitos, todos se envolvem com corrupção e não ligam para o fato de que Babaloo está afundando – um clima muito parecido com o que marcou o fim do nosso período ditatorial. O filme foi censurado pelo regime militar e foi exibido poucas vezes em espaços públicos.

Você também pode dar um presunto legal (1971), de Sérgio Muniz
Documentário sobre a ação do Esquadrão da Morte, grupo de extermínio formado por policiais e comandando pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury, do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) de São Paulo. Muniz usou várias fontes – recortes de jornais e revistas, imagens captadas diretamente da TV, transcrição de depoimentos de pessoas torturadas – para mostrar o impacto do esquadrão, acusado de pelo menos 200 execuções sumárias, a maioria de homens pobres e negros. Filmado clandestinamente, o documentário não foi exibido no Brasil na época pelo risco de vida que isso representaria para seu elenco e equipe de produção. Só em 2006, o diretor digitalizou o filme e passou a distribuí-lo.

Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (1977), de Hector Babenco
O filme relata a trajetória de Lúcio Flávio, criminoso que tomou as manchetes dos jornais nos anos 1970 por conta de seus roubos a banco audaciosos e fugas espetaculares (só de prisões, foram 17 vezes). Mas Lúcio Flávio também denunciou a corrupção e os laços com criminosos que dominavam a polícia do Rio de Janeiro na época e ajudou a desmascarar um grupo de policiais do Rio que pertenciam ao Esquadrão da Morte, acusando-os de extorquir bandidos e cometer assassinatos. Ele morreu assassinado em 29 de janeiro de 1975, com 28 golpes de faca, dentro de um presídio no Rio, pouco tempo depois de suas denúncias. Recorde de bilheteria nacional, o filme sofreu cortes da censura e é considerado uma peça histórica.

Leucemia (1978), de Noilton Nunes
Neste curtíssima de pouco mais de 8 minutos, a cientista política Maria Helena Moreira Alves narra um episódio que viveu em 1978, quando esteve em Lisboa para visitar o irmão exilado, o deputado cassado pela ditadura Márcio Moreira Alves. Ela conta que foi procurada por um casal de jovens exilados que pediu que ela levasse seu bebê para o Brasil, para ser criado pelos avós, já que os dois não podiam voltar ao país, não tinham mais condições financeiras de se manter e a mãe da criança estava com leucemia. Maria Helena aceitou a missão e as cenas do drama da separação no aeroporto são de cortar o coração. O filme foi proibido pela censura, mas passou a ser exibido em sessões clandestinas.

Paula, a História de uma Subversiva (1979), de Francisco Ramalho Jr.
Durante a ditadura, Paula, militante do movimento estudantil, é presa, torturada e morta pelos militares. Muitos anos mais tarde, Marco Antônio, seu namorado na época e também militante político, tem sua filha adolescente sequestrada ao sair de uma festa. Quando procura a polícia para denunciar o crime, ele se defronta com Oliveira, que fora delegado do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) e responsável pela morte de Paula. Ao fazer uma relação direta entre passado e presente, o filme aponta como as consequências da ditadura se estendem por várias gerações. Sua exibição foi liberada sem censura, apesar do fato de que o filme trata abertamente de questões como subversão e tortura.
Esta lista deve muito ao blog Assiste Brasil, de Fernanda Mendonça, que está fora do ar, ao blog da Biblioteca da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, à Cinemateca Brasileira, ao site Memórias da Ditadura, à Academia Brasileira de Cinema, à Cinemateca Paulo Amorim/Portal do Cinema Gaúcho e à Fundação Perseu Abramo.
