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Pragmatismo econômico, miopia política

Merkel e Sarkozy, no Congresso de 2011 do Partido Popular Europeu (PPE), em Marselha (PPE, 8/12/2011).

Há cerca de dois anos as principais lideranças políticas europeias se comprometiam com uma estratégia econômica, para enfrentar os impactos da crise “americana”, baseada na ideia de que a austeridade fiscal e a depreciação interna de salários resolveriam os problemas dos Estados nacionais endividados.

Tal formulação – defendida por Merkel, secundada por Sarkozy – se fundamenta na convicção de que a crise ganhou terreno e profundidade em função da atuação irresponsável dos governos do sul da Europa, pela recusa obstinada destes em aceitar sua existência (Zapatero e Berlusconi) combinada com a aceleração do processo de comprometimento de parte dos orçamentos nacionais em iniciativas de redução dos impactos sociais da crise (seguro-desemprego; ampliação das ações da rede de proteção social para com os segmentos mais fragilizados; subsídios à atividade industrial e de serviços).

O exemplo grego – a voracidade do capital ataca os Estados

Manifestantes protestam na frente do Parlamento grego, em Atenas, em 29 de junho de 2011. Foto de Georgios (Ggia, WikiMedia Commons).

Não é mistério para ninguém que, embora as empresas reclamem da alta carga tributária, todo e qualquer imposto tem origem no cidadão. Os tributos pagos pelas empresas estão embutidos no preço dos produtos e serviços. só sendo devidos quando efetivado o consumo. Há uma classificação básica que pode dar conta de grande parte dos tributos existentes no Brasil: os gerados pela produção/circulação de produtos, os decorrentes da prestação de serviços, os impostos sobre a renda e as contribuições sociais. Em todos os casos, o imposto pode ser considerado como uma parte da mais-valia que não fica na mão do empresário.

As dívidas ilegítimas


François Chesnais (*)

Na primavera de 2010, os grandes bancos europeus, em primeiro lugar os bancos alemães e franceses, convenceram a União Europeia e o Banco Central Europeu de que o risco de falta de pagamento da dívida pública da Grécia colocava em perigo o seu orçamento global. Eles pediram para serem postos ao abrigo das consequências da gestão das referidas instituições. Os grandes bancos europeus foram fortemente ajudados no outono de 2008, no momento em que a falência do banco Lehman Brothers em Nova York conduziu a crise financeira ao paroxismo. Após o seu salvamento, eles não depuraram todos os ativos tóxicos das suas contas. E continuaram, ainda, a fazer colocações financeiras de alto risco.

Para certos bancos, a mínima falta de pagamento significaria a falência. Em maio de 2010, um plano de salvamento foi montado, com uma vertente financeira e uma vertente de austeridade orçamentária drástica e de privatização acelerada: fortes baixas nas despesas sociais, diminuição dos salários dos funcionários públicos e redução do seu número; novos ataques ao sistema de pensões, sejam elas por repartição ou por capitalização.

O trabalho dos motoristas de caminhão

A relação entre atividade, vínculo empregatício e acidentes de trabalho

Luna Gonçalves da Silva*

Apesar dos diversos estudos realizados com motoristas de caminhão, poucas pesquisas analisaram o trabalho desses profissionais baseando-se na descrição da atividade feita por eles mesmos. O conhecimento dos próprios motoristas sobre sua atividade, assim como dos acidentes, pode contribuir para a elaboração de medidas para a redução de acidentes, bem como ações que visem à promoção de saúde destes trabalhadores. O objetivo da presente tese foi conhecer e analisar a atividade, os aspectos da organização do trabalho e acidentes de motoristas de caminhão com diferentes vínculos empregatícios, partindo do relato dos próprios trabalhadores.

Enfrentar a grande crise

Vito Letizia, 2009*

Segundo Clément Juglar (1819-905), o teórico dos ciclos econômicos, a riqueza das nações pode ser medida pela violência das crises que atravessam. Sendo assim, pode-se dizer que desde agosto de 2007 os EUA estão demonstrando que continuam sendo a nação mais rica do mundo. E em setembro do ano seguinte, o mundo percebeu que não será mero espectador dessa demonstração. Também percebeu que a serenidade de Juglar não é comum entre os economistas de hoje, pois o que mais se vê são comentários indignados sobre os riscos assumidos por bancos e grandes empresas do planeta, e sugestões de novas regras de avaliação e controle das atividades financeiras.

Trabalho informal e redes de subcontratação

Dinâmicas urbanas da indústria de confecções em São Paulo

Carlos Freire da Silva*

Este estudo discute as redes de subcontratação e o trabalho informal no circuito das confecções em São Paulo. A partir de uma região periférica na zona leste da cidade tratou-se de averiguar as relações entre trabalho e o espaço urbano no qual essas confecções têm se instalado. O processo de reestruturação produtiva da indústria de confecções durante a década de 1990 fez multiplicar as chamadas oficinas de fundo de quintal e o trabalho a domicílio nos bairros das ex-costureiras das fábricas pelas vias de redes de subcontratação e do trabalho informal.

As ex-operárias mobilizam familiares e vizinhos no trabalho, estabelecendo redes sociais pelas quais circulam as encomendas de costura. Associado a esta dinâmica, esse circuito também vem mobilizando os fluxos da migração clandestina dos bolivianos, que já podem ser encontrados nos locais mais distantes do extremo leste da cidade.

Vem aí uma catástrofe biopolítica sem precedentes

Emmanuel Z. C. Nakamura*

O segundo grande acontecimento econômico, que acelerou a erupção da revolução, foi uma crise geral do comércio e da indústria da Inglaterra; já anunciada no outono de 1845, durante a derrota maciça dos especuladores em ações de caminhos de ferro, estendida durante o ano de 1846 através de uma série de pontos incidentes como a iminente abolição da alfândega de cereais, eclodiu finalmente no outono de 1847 nas bancarrotas de grandes mercadores coloniais londrinos, as quais sucederam sobre os pés a falência de bancos do país e o fechamento das fábricas em distritos industriais ingleses. Ainda não estava esgotada a consequência dessa crise sobre o continente quando a revolução de fevereiro eclodiu.1MARX, K. Die Klassenkämpfe in Frankreich 1848 bis 1850. In: MARX, K.; ENGELS, F. Ausgewählte Werke. Digitale Bibliothek Band 11. Berlin: Directmedia, 1998. CD-ROM. p. 10.

Começo com esta citação do texto de Marx As lutas de classe na França de 1848 a 1850 não com o objetivo de fazer uma digressão histórica sobre o período de nascimento do movimento dos trabalhadores franceses e europeus, mas apenas com o objetivo de tecer algumas considerações, sem rigor sistemático e apenas com a intenção de contribuir para um debate, sobre a contemporânea “crise do subprime”, que tem seu epicentro no mercado imobiliário norte-americano, mas abarca todo o sistema financeiro mundial. Meu objetivo não é, no entanto, fazer uma reflexão interna sobre os mecanismos de gestão da crise da chamada Ciência Econômica, mas sim, de um ponto de vista anticapitalista, refletir sobre os primeiros desdobramentos políticos da crise nessa “situação inédita”, como escreveu M. Nobre:

Pela primeira vez o capitalismo enfrenta uma crise global sem adversário. Não há movimento social e político de importância a confrontar o capital e a sua forma de distribuir a riqueza. E, nesse momento, a premissa de toda encenação desmorona: não há harmonia preestabelecida entre capitalismo e democracia.2NOBRE, M. E agora, liberais? Folha de S. Paulo, 30 de setembro de 2008, A2.