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Brasil 2000

Comício pelas diretas-já na praça da Sé, em 25 de janeiro de 1984.

Vito Letizia (*)

Talvez as grandes manifestações de 1984 contra o regime militar por eleições presidenciais diretas tenham sido o último lampejo de ilusões populares na nação brasileira.

Elas apareceram pela primeira vez, como não poderiam deixar de ser, em 1822, quando muitos acreditaram que a proclamada independência significaria o início da transformação do empreendimento mercantil colonial em país apropriável por todos os seus moradores. Naquele momento, mesmo entre os escravos brotaram esperanças, em parte alimentadas pela libertação dos escravos no Haiti. Mas tudo foi submergido pela onda cafeeira, que veio reafirmar as relações sociais criadas na velha Colônia do açúcar. Entretanto, pode-se imaginar a força dessa primeira labareda pelo que custou apagá-la até 1845, apesar do impenetrável véu da catequese repressora que envolvia as forças vivas do país. Estas, em meio à penumbra reinante, chegaram a invocar o primeiro imperador como herói libertador. E até o mal desejado Sebastião encontrou seu altar nos espaços mais escuros.

A terceira oportunidade imperial americana

Charge de Carlos LatuffVito Letizia

Este artigo, escrito em 22 de abril de 2002, discute a ofensiva dos Estados Unidos contra o mundo islâmico, dentro de um contexto histórico.

Desde a Guerra da Secessão, as grandes guinadas na política externa dos EUA sempre foram deflagradas por explosões. A explosão do couraçado “Maine” em 1898, no porto de Havana (266 marinheiros mortos), abriu caminho à ocupação de Porto Rico e das colônias espanholas do Pacífico (mais a anexação do Havaí, reino nativo independente), logo seguida pela ocupação da zona do Canal do Panamá (1903), ao mesmo tempo em que antigas proclamações de certo direito ao lugar de potência hegemônica no continente americano entravam efetivamente em vigor.

Realidade e opinião sobre a URSS: no apogeu e após a queda


Vito Letizia

Um exame crítico da visão da esquerda sobre a URSS nos anos 1940, a partir de uma palestra de Mário Pedrosa.

Em 1946 o jornal “Vanguarda Socialista”, criado por um grupo de militantes ex-comunistas e ex-trotskistas, publicou uma série de palestras sobre a Revolução Russa e seus resultados, pronunciadas por Mário Pedrosa, jornalista e crítico de arte, antigo militante do Partido Comunista, depois da Oposição de Esquerda fundada por Trotsky, com a qual rompera em 1939.

Vale a pena comparar a impressão causada pela URSS triunfante do tempo de Stalin, mesmo entre militantes antistalinistas como Mário Pedrosa, com a perplexidade geral de hoje ante o desmoronamento inesperado daquela potência aparentemente imbatível.

A Era dos Extremos

Vito Letizia

Resenha do livro A Era dos Extremos – o breve século XX, de Eric Hobsbawm, publicada na revista O Olho da História em junho de 1996.

Talvez o maior mérito do livro A era dos extremos de Hobsbawm seja transmitir uma forte impressão do tamanho da catástrofe humana que foi o século XX. Catástrofe em relação às mortandades gigantescas, sem equiparação possível com qualquer período histórico anterior. Catástrofe em relação à desvalorização do indivíduo, ao qual, durante longos momentos do século, foram negados todos os direitos humanos e civis, que haviam sido arduamente conquistados durante o “longo século” precedente: 1789-1914.

Aliás, a impressão de catástrofe é forte justamente porque o período histórico anterior se marcara em todas as mentes como o século que colocara a ideia do progresso como inevitabilidade, não só em termos materiais, mas também em relação ao avanço das liberdades, apesar das monarquias e das forças conservadoras, que resistiam tenazmente desde a Revolução Francesa.