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É permitido enganar um povo?

Emmanuel Nakamura*

A essa pergunta Hegel tinha uma resposta paradoxal: “Um povo não se deixa enganar acerca da sua base substancial, da essência e do caráter determinado do seu espírito, mas que ele é enganado por si mesmo acerca do modo como ele sabe desse espírito e como julga as suas ações, os acontecimentos, etc., segundo esse modo.”1HEGEL, G. W. F. Grundlinien der Philosophie des Rechts oder Naturrecht und Staatswissenschaft im Grundrisse. GW 14,1. Hamburg: Felix Meiner: 2009, § 317 (Tradução de Marcos Lutz Müller). Aceitar essa resposta de Hegel significa ter como ponto de partida indivíduos livres e emancipados que não precisam nem aceitam nenhum tipo de tutela: um povo não se deixa enganar, ele engana a si mesmo. Logo as instituições sociais e políticas são um resultado de suas próprias ações e da maneira como as julga.

Hoje em dia, o cidadão médio brasileiro tem como bandeira libertar o Brasil da corrupção. Ele não tem nenhum interesse concreto, apenas uma ideia puramente abstrata de justiça vingativa que é uma segunda lesão ao direito. Se os políticos lesam o direito através de práticas corruptas, a justiça vingativa da classe média justiceira é uma segunda lesão ao direito. Assim como os políticos corruptos, ela está aquém de qualquer representação moral que exigisse uma justiça legal. Como se trata de uma ideia abstrata de justiça vingativa, ela é uma abstração de qualquer interesse particular concreto. Logo, a classe média vingativa se volta com violência contra qualquer opinião contrária, solapando um dos pilares do Estado de direito: a liberdade de opinião.2Quem está incendiando o Brasil? Guilherme Boulos. In: Folha de S. Paulo. Acesso em 04/04/2016.

Fim da linha

Danilo Chaves Nakamura*

Para entendermos a atual crise em que o Brasil está inserido, precisamos de um esforço intelectual muito mais amplo do que o varejo das análises da política parlamentar ou da conjuntura social e econômica. Sem esse esforço, ficamos apenas no nível de boas opiniões sobre as negociatas parlamentares, que desde o início da democracia brasileira têm o PMDB como o fiel da balança para garantir a chamada governabilidade. Ou então, de análises econômicas que mudam a cada semana de acordo com o sobe e desce das bolsas de valores ou de relatórios das agências de classificação de riscos.

O silêncio ensurdecedor da ‘esquerda’ não-petista

Ou se entende o que é o PT ou não se entende nada do que está se passando. A construção de uma organização de massa é algo bem diferente do que seguir uma receita de bolo. Não se trata de colocar uma pitada a mais de leninismo ou tirar algumas gotas de luxemburguismo e ir provando o bolo até que fique bom. Trata-se do processo de luta de classes, e o que a classe operária brasileira, o povo oprimido brasileiro, conseguiu erguer é o PT. E, cá entre nós, não é pouca coisa. É o que as condições objetivas e subjetivas, a maturidade das discussões doutrinárias e programáticas e, principalmente, a realidade da luta de classes permitiram. Deu para fazer isso, não deu para fazer outra coisa.

Por isso, por seu significado concreto, o PT e seu dirigente histórico precisam ser destruídos. Para a classe dominante é uma necessidade. O que parte da esquerda não quer entender, a burguesia entende perfeitamente. Não se trata, perdoe-me sr. Boulos, de fazer o PT capitular. Isso não basta mais. O PT já capitulou, mas o capital quer mais. Levy não basta. O ajuste fiscal não basta. A reforma da Previdência não basta, a mal disfarçada entrega do pré-sal não basta. É preciso destruir o PT e dessa forma dispor do Brasil e de suas riquezas sem resistência, fora alguns espasmos. E espasmos, nossa elite que já arrasou os Sete Povos das Missões, Palmares, Canudos, os Malês, etc., e que hoje, só em SP, tem uma PM que mata no mínimo dois por dia, sabe muito bem como enfrentar.

Em poucas palavras, precisa-se destruir o PT para poder impor uma completa derrota ao povo brasileiro. É disso que se trata.

O pensamento prático da liberdade

Uma resenha de ‘Contradições que movem a história do Brasil e do continente americano’, de Vito Letizia.

Emmanuel Nakamura

Uma amiga e colega do grupo Interludium costuma dizer que somos – refiro-me à “ala jovem” do grupo Interludium – “filhotes do Vito”. Talvez por esse motivo seja para mim tão difícil escrever uma resenha sobre o livro do Vito Letizia:1Primeiro volume de “Diálogos com Vito Letizia”, Contradições que movem a história do Brasil e do continente americano foi lançado em 28 de outubro de 2014. falta-me talvez um distanciamento crítico não apenas em razão dos nove anos de amizade com ele, mas fundamentalmente porque fui educado pelo Vito Letizia a pensar a política. Assim como a educação que recebemos de nossos pais tem o objetivo de que seus filhos possam viver uma vida universal ao prepará-los para a vida em sociedade, foi com o Vito Letizia que recebi a educação para pensar essa vida universal em seu âmbito político. Por isso, resenhar esse livro tem para mim também o difícil significado de distanciamento autocrítico.

Mais debates sobre livro de Vito Letizia

Cemap-Interludium promoveu debates na Universidade de São Paulo (USP) e na Universidade Católica do Salvador (UCSAL) este mês para lançar o livro Contradições que movem a história do Brasil e do continente americano, de Vito Letizia. Primeiro da série “Diálogos com Vito Letizia”, organizado a partir de quase cem horas de entrevistas do grupo com o professor, o livro analisa a história do Brasil e de outros países do continente à luz dos movimentos populares e a contrapõe ao discurso oficial.

Diálogos com Vito Letizia 1

Debate marca publicação de ‘Contradições que movem a história do Brasil e do continente americano’

Contradições que movem a história do Brasil e do continente americano foi lançado em 28 de outubro, com um debate na Associação dos Professores da PUC-SP (Apropuc). É o primeiro livro da série “Diálogos com Vito Letizia”, organizado por Cemap-Interludium a partir de quase cem horas de entrevistas. Nelas, Vito preferiu partir da gênese da Revolução Francesa de 1789 para explicar todo o processo histórico subsequente, até chegar ao Brasil atual.

Ao editar a série, Cemap-Interludium optou por “iniciar pelo fim”, atendendo ao imperativo da necessidade: os tópicos abordados são da mais absoluta urgência para a esquerda brasileira. Referem-se ao caminho aberto pela empreitada colonial que resultou, cinco séculos depois, na formação do Partido dos Trabalhadores (PT) e da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e na condução de Luiz Inácio Lula da Silva ao posto de presidente da República.

Sobre avestruzes, abutres e outros bichos

C. Andrés

As recentes decisões tomadas pelo STF e as condições de aprisionamento dos 11 primeiros condenados do “mensalão” repercutem de forma intensa na sociedade e permitem observar com riqueza de detalhes os resultados de um processo que, para além dos aspectos jurídicos e legais envolvidos, revela de forma magistral as tensões, desesperanças e rancores presentes no país nestes 30 anos de “democracia”.

As redes sociais estão entupidas por manifestações de ódio e rancor contra “os mensaleiros”, “os corruptos”, os “petralhas”, ao lado dos inevitáveis “apoios”, “solidariedade” e glorificação da “bravura”, da “independência” e da habilidade de Joaquim Barbosa.

Diante dessa quase unanimidade nacional, resta-nos parabenizar aqueles que a construíram, o PT e seu governo e a grande imprensa conservadora, sempre atuante na defesa dos interesses econômicos hegemônicos no país.