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Cemap recebe documentação de Arkan Simaan em cerimônia com muita história

A atriz Gabriela Rabelo, que militou no 1º de Maio e foi companheira de Chico Solano, fala no ato de doação do acervo de Arkan Simaan (na tela ao fundo). Na mesa, Bárbara Corrales, Walter Paixão e Edmar Macedo

O evento realizado para formalizar a doação do fundo documental do físico, escritor e ativista Arkan Simaan ao Centro de Documentação do Movimento Operário Mário Pedrosa (Cemap), ocorrido na sede do Centro de Documentação e Memória da Universidade Estadual Paulista (Cedem/Unesp) em 7 de novembro, foi marcado pela sensação de dever cumprido e pela reunião de histórias.

A começar pela da própria chegada do arquivo Arkan Simaan-Chico Solano ao Cemap, que só foi possível graças à união dos esforços de Walter Paixão, ex-militante da Organização Comunista Primeiro de Maio, e do pesquisador Edmar Macedo, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), responsável pela intermediação da doação dos documentos. Isso sem falar, é claro, do próprio Arkan, que reuniu e conseguiu manter preservado o material que acumulou a partir de sua atividade política.

“Esse arquivo cobre o período de 1968 a 1973, em que eu fui militante, mais ou menos da direção do Primeiro de Maio, que na época era ainda o Movimento Estudantil Primeiro de Maio. Ele virou Organização Comunista Primeiro de Maio quando eu já estava na França”, destacou Simaan, em sua participação virtual, realizada diretamente de sua casa na França, onde vive desde que se exilou, em 1970, após ser preso no Brasil no auge da ditadura militar.

Em seguida, falou sobre sua participação no Grupo Outubro e apresentou seu fundo. “Fui o elemento motor da criação desse grupo e assegurei a correspondência com os companheiros do Brasil e com o Chico Solano, quando ele veio para a França. Os documentos são as cartas que trocamos, mais alguns documentos impressos, que são os cinco números de Outubro, faltando só um, que é o número 3”, explicou, citando ainda que está à procura do volume perdido da revista e que pretende, um dia, poder incorporá-lo.

Compromissos

Bárbara Corrales e Edmar Macedo no ato de doação do acervo de Arkan Simaan. Na tela uma das cartas
Edmar Macedo ao lado de Bárbara Corrales, diretora-geral do Cemap.

Já Edmar Macedo discorreu brevemente sobre o processo que o colocou no circuito. “Esse contato começou pelo Facebook. O Walter me procurou, disse que tinha lido alguma coisa que eu tinha escrito sobre trotskismo e me propôs a entrega do arquivo sob dois compromissos: que eu o encaminhasse para uma instituição de pesquisa e que o tornasse público”, contou o pesquisador.

Segundo ele, a primeira providência que tomou foi a de digitalizar todo o material, para que pudesse divulgá-lo antes mesmo de definir o local de guarda e preservação. Criou, então, o arquivo virtual Arkan Simaan-Chico Solano, disponível no endereço eletrônico https://arkansimaanchicosolano.blogspot.com.

“Tem um grande material aqui que, espero, sirva pra muitas pesquisas. Essa documentação registra sonhos, dificuldades e um determinado momento da história política do Brasil, da vida pessoal, da trajetória particular tão interessante desses atores. Por tudo isso eu acho que é um material inspirador e sensacional”, ressaltou.

Destinos cruzados

A atenção para o arquivo também motivou alguns participantes a darem depoimentos a respeito da reorganização do trotskismo brasileiro nos anos 1970, que mais tarde resultaria na formação da Organização Socialista Internacionalista (OSI). Contaram, com riqueza de detalhes, os processos vivenciados por eles.

Walter Paixão, ex-militante da Organização Comunista Primeiro de Maio
Walter Paixão.

É o caso de Walter Paixão, que, aos 84 anos, rememorou sua militância no período abrangido pelo acervo de Simaan. E, embora tenha atuado nos mesmos grupos e concomitantemente com ele, só o conheceu pessoalmente há alguns anos. Foi aí que colocou o processo de resgate arquivístico do material em curso.

“Eu achei um contato dele, mandei uma mensagem, e acabei recebendo uma ligação sua, na qual me convidou para visitá-lo na França. Fui ver meu filho, que também mora lá, e juntos formos conhecer o arquivo. Só aí vi Arkan pessoalmente pela primeira vez”, contou. A partir de então, não só trouxe parte do material de Simaan para o Brasil, como se empenhou em fazer com que seu arquivo fosse destinado à pesquisa pública.

Paixão também escreveu um livro de memórias e histórias da Organização Comunista Primeiro de Maio, chamado Relatório Leôncio, seu codinome político na época. A obra, publicada pela Editora Insular, relata muitos dos fatos presentes no fundo de Arkan, e foi lançada no mesmo dia da cerimônia de doação do acervo.

Correspondência contínua

Markus Sokol fala na cerimônia de doação do acervo de Arkan Simaan ao Cemap
Markus Sokol.

Francisco Solano, o principal interlocutor das cartas que compõem o acervo e já falecido, foi muito lembrado. Sua companheira na época da militância, a atriz Gabriela Rabelo, participou da cerimônia. “Eu fui militante do Primeiro de Maio, mas não atuava muito”, contou ela, explicando que achava difícil conciliar a atividade política com a profissão que escolheu, seu foco principal.

“Mas estive com o Francisco na França e pude ver a formação do grupo, junto aos estudantes, alguns meus amigos até hoje, e ver como eles tinham aquela ideia de trabalhar e de ser um militante no seu ambiente de trabalho”, disse Gabriela Rabelo.

Também ator profissional, Chico Solano, como era conhecido, foi para a França com uma bolsa de estudos em 1968, e aproveitou sua permanência por lá para estabelecer contato com grupos trotskistas de fora do Brasil, sob orientação de Arkan. Ambos mantiveram correspondência contínua nesse período, e novamente quando o ator retornou da Europa e Simaan já estava exilado. Essas trocas de cartas aconteceram até 1973, ano em que Arkan deixou a militância política. Solano encerrou suas atividades políticas em 1974, quando, em nova viagem à França, entregou as cartas que havia recebido ao companheiro.

Francisco Foot Hardman fala no ato de doação do acervo de Arkan Simaan (na tela). Na mesa, Bárbara Corrales
Francisco Foot Hardman.

Somaram, ainda, suas memórias à reunião de histórias impulsionada pela cerimônia, os militantes trotskistas Markus Sokol, que foi do Grupo Outubro e é dirigente da Corrente O Trabalho do PT – Seção Brasileira da 4ª Internacional e integrante do Comitê Nacional do Diálogo e Ação Petista (DAP) , Júlio Turra, assessor político da Central Única dos Trabalhadores (CUT), e o professor e pesquisador da Unicamp Francisco Foot Hardman, que exaltou a importância da chegada da documentação ao Cemap.

“Foi um final feliz. Isso nem sempre acontece no caso de arquivos de memória do movimento operário e dos movimentos sociais de forma geral, ainda mais dos movimentos que têm de viver, em maior ou menor tempo (no caso do Brasil, em longuíssimo tempo) na clandestinidade. E às vezes numa precariedade enorme em termos das condições de preservação desses acervos”, destacou Foot Hardman.


Redação de Simone de Marco, diretora de Comunicação de Cemap-Interludium. Na foto de abertura, Gabriela Rabelo fala de suas experiências, observada por Bárbara Corrales, Walter Paixão e Edmar Macedo, na mesa, e Arkan Simaan na tela ao fundo. Todas as fotos são de Simone, exceto a de Francisco Foot Hardman, que foi tirada por Alexandre Linares, diretor do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo e membro do conselho fiscal da oscip.

Publicado em:Acervos,Cemap,Cemap-Interludium,História,marxismo,memória

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