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Ato em homenagem a Vladimir Sacchetta celebra o legado do ‘homem-memória’

Ato de homenagem a Vladimir Sacchetta no Sindicato dos Jornalistas de São Paulo em 15 de junho de 2026

“Já faz um mês e eu tenho muito medo de que o tempo passe e, com isso, eu fique mais longe da presença dele. Ao mesmo tempo, faz só um mês. Talvez seja justamente isso que a memória faz: ela desafia o tempo”, disse Paula Sacchetta durante o ato em homenagem à memória de seu pai, nosso brilhante conselheiro, o companheiro Vladimir Sacchetta.

Importante citar seu nome e sobrenome, pois, como lembrado por alguns dos vários oradores da cerimônia, organizada pelo Cemap e pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo, Vladimir tinha muito orgulho do sobrenome que o ligava ao pai, o jornalista e militante trotskista Hermínio Sacchetta, um dos fundadores do nosso centro.

Ato de homenagem a Vladimir Sacchetta no Sindicato dos Jornalistas de São Paulo em 15 de junho de 2026

Apesar do dia frio e chuvoso, o histórico auditório Vladimir Herzog ficou repleto de amigos, companheiros de trabalho e admiradores do “homem-memória” – apelido dado a ele pelo jornalista e também amigo Mário Magalhães, como mencionou Paula – na segunda-feira, 15 de junho, dia que marcou um mês de sua partida.

Os filhos, Paula e Felipe Sacchetta, e muitos companheiros fizeram questão de compartilhar lembranças de Vladimir, o que tornou um desafio limitar a homenagem às duas horas programadas, embora a restrição abrangesse, além dos motivos de praxe, um de ordem maior. O pequeno Leon, primeiro neto de Sacchetta, de apenas 5 meses, estava em casa à espera da mãe, Paula.

Paula Sacchetta no ato de homenagem a seu pai, Vladimir Sacchetta
Paula Saccheta.

Mesmo assim, ela fez questão de valorizar a importância de tantos relatos. “A memória, para ele, nunca foi um lugar de nostalgia. Era um jeito de entender o presente e imaginar o futuro. (…) Então, o que me resta é, por um lado, cuidar do legado dele e, por outro, manter a memória dele viva. (…) Enquanto houver gente lembrando, contando uma história dele, repetindo uma frase dele, sorrindo de um jeito que aprendeu com ele, o homem-memória continua fazendo aquilo que sempre fez: nos ensinando a lembrar para seguir vivendo.”

Missão, paixão e legado

A cerimônia foi aberta pela diretora-geral do Cemap, Babi Corrales, que chamou para compor a mesa com ela o presidente do Sindicato dos Jornalistas, Thiago Tanji, assim como Paula e Felipe. A homenagem foi transmitida pelo sindicato e pode ser acessada no seu canal no YouTube. Em sua fala, Babi recordou o último contato com Sacchetta, em sua posse como conselheiro na sede do Cemap, apenas quatro dias antes de sua partida.

“Naquela noite, ele chegou super feliz, mostrando pra todo mundo a foto do Leon, ele estava muito orgulhoso e, por outro lado, me falou: ‘Babi, a vida de pesquisador é muito solitária. Fazer parte do Conselho do Cemap, que carrega a marca do meu pai, e encontrar os companheiros pra trocar ideia, é algo que me renova’. O Cemap perdeu um conselheiro brilhante, o Brasil perdeu um de seus maiores guardiões da memória. Mas a gente celebra aqui, não o fim, mas a continuidade da missão dele, da paixão e do legado”, disse.

Paula e Felipe Sacchetta ao lado do ex-ministro Paulo Vannuchi na homenagem a Vladimir Sacchetta
Paula e Felipe com Paulo Vannuchi.

Tantos Sacchettas

O membro do nosso Conselho e militante pelos direitos humanos Adriano Diogo ficou encarregado de conduzir as falas da longa lista de oradores, que também incluiu a leitura de mensagens enviadas. “São tantos Sacchettas, tantas faces desse personagem da história do Brasil. Cada um vai contar uma face, um ângulo desse grande ser humano”, anunciou.

Tomaram a palavra, além dos filhos de Vladimir e do próprio Adriano: o arquiteto Marcos Cartum, o historiador Dainis Karepovs, diretor de acervo do Cemap, Misa Boito, militante do Diálogo e Ação Petista (DAP), Sebastião Neto, membro do Conselho do Cemap e Coordenador do Intercâmbio, Informações, Estudos e Pesquisas (IIEP), o historiador e ativista político José Luiz Del Roio, a psicóloga Tuta Magaldi, o escritor Fernando Morais, o ex-deputado do PC do B Jamil Murad, Miguel Yoshida, da Editora Expressão Popular (ligada ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST), os jornalistas Florestan Fernandes Júnior, Mouzar Benedito, Eugênio Bucci, professor da Escola de Comunicações e Artes da USP, Paulo Vannuchi, ex-ministro da Secretaria de Direitos Humanos, e Alexandre Linares, diretor do Sindicato dos Jornalistas e integrante do Conselho Fiscal do Cemap.

Miguel Yoshida, editor da Expressão Popular, no ato de homenagem a Vladimir Sacchetta
Miguel Yoshida, da Expressão Popular.

Ainda foram lidas as mensagens da historiadora da arte Vera d’Horta e da antropóloga e historiadora Lilia Schwarcz. Os membros do Conselho do Cemap Flávio Carrança e Francisco Foot Hardman também estiveram presentes, assim como os diretores Henrique Ollitta e Paulo Zocchi.

Disponibilidade

Felipe Sacchetta contou sobre o lado divertido, acolhedor, extremamente amoroso de seu pai, sobre o quanto sempre alimentou sua curiosidade pelo mundo, que era muito próximo e querido por seus amigos e ressaltou o grande elo que formaram por meio da música.

Felipe Sacchetta no ato de homenagem a seu pai, Vladimir Sacchetta
Felipe Saccheta.

“Hoje, olhando para trás, percebo o tamanho desse presente. Porque a música acabou se tornando a minha maior paixão. E boa parte dessa paixão nasceu dentro de casa, ouvindo discos, ouvindo histórias e descobrindo sons através dele”, disse.

E fez uma reflexão sobre a difícil despedida. “Meu pai viveu sua vida com dignidade. Construiu amizades, compartilhou ideias, contou histórias, lutou por um mundo mais justo e deixou marcas profundas em muitas pessoas. A saudade é enorme. Mas junto dela existe uma gratidão ainda maior. Gratidão por tudo o que ele construiu, por tudo o que compartilhou e por tudo o que me ensinou.”

A mesma disponibilidade que exercia na paternidade estava presente nas relações profissionais, tanto que as parcerias de trabalho se encaminharam para grandes amizades. Foi assim com o arquiteto Marcos Cartum. “Os santos bateram de cara. A gente constituiu quase que instantaneamente uma dupla. Ele no conteúdo e eu na forma. Ele na pesquisa, curadoria, eu no design. Aí não houve mais separação entre uma coisa e outra, o que é trabalho, o que é amizade”, disse.

O arquiteto Marcos Cartum no ato de homenagem a Vladimir Sacchetta
Marcos Cartum.

Cartum, que realizou com Sacchetta várias exposições e livros, destacou o conhecimento enciclopédico e o rigor máximo de comunicação do amigo, a quem chamava carinhosamente (e era chamado por ele) de brude, ou bru, segundo Cartum uma tradução carinhosa de irmão forjada do alemão.

“Identidade, empatia, diálogo permanente, convergência de ideias, incluindo as utopias e, como característica muito própria do Vladimir, generosidade, carinho e humor”, citou ainda, elencando um rol de particularidades que constituíram um consenso nos depoimentos sobre Sacchetta.

Irmãos de leite

“Ele era muito alegre, um homem muito culto, inteligente, afetivo”, disse bastante emocionado Florestan Fernandes Júnior, amigo de Sacchetta desde a infância. No caso deles, a relação de amizade veio antes da profissional. A primeira atividade de trabalho conjunta foi na campanha do seu pai, o sociólogo Florestan Fernandes, a deputado constituinte. “Meu pai foi eleito e ele acabou virando seu assessor”, contou.

Segundo Florestan, seu pai fazia questão que Sacchetta lesse, revisasse e discutisse com ele cada texto que escrevia, tanto para as suas colunas em jornais, quanto para os livros. “O Vladimir tem um trabalho fantástico como pesquisador. Ele era incansável. Possuía um talento raro para localizar fotografias, documentos e registros históricos que ajudaram a iluminar momentos decisivos da vida brasileira. Ele era um apaixonado pelo Brasil, pelas histórias do país e pela preservação da memória do Brasil”, ressaltou.

Ele também se referiu à mensagem de outra amiga de infância do homenageado, a historiadora da arte Vera d’Horta, que não pôde comparecer e enviou seu relato, lido por Paula. “Descobri hoje que tenho uma irmã de leite”, brincou Florestan, já que Sacchetta dizia que ambos, embora um não soubesse da coincidência em relação ao outro, eram seus irmãos de leite, porque as mães compravam o produto na mesma padaria.

O jornalista lembrou ainda várias atuações fundamentais do amigo para a construção da memória do país e, antes de encerrar sua fala bastante sentida, recordou a última mensagem pessoal que recebeu dele: um vídeo do Leon, “falando que o neto que havia chegado era a felicidade da sua vida”.

Hermínio e Leon

O historiador Dainis Karepovs, diretor de acervo do Cemap
Dainis Karepovs.

Nosso diretor de acervo, o historiador Dainis Karepovs, direcionou sua fala para uma questão muito cara ao homenageado. “Ele fazia questão de dizer que era filho de Hermínio Sacchetta. E, durante muito tempo, essa referência, no âmbito das relações do Vladimir, criou alguns problemas por conta naturalmente da filiação a que o pai dele se ligou”, contou.

Karepovs recordou o grande apoio dado por Sacchetta ao trabalho de pesquisa que realizou para esclarecer o processo referente à cisão de Hermínio com o Partido Comunista (PCB) em 1937, episódio que durante décadas alimentou distorções e calúnias históricas. “Quando terminei esse trabalho, consegui colocar o Sacchetta no lugar onde devia estar sempre, e não no lugar das infâmias e insultos em que ficou durante muito tempo”, destacou.

Alexandre Linares, diretor do Sindicato dos Jornalistas e do Conselho Fiscal do Cemap
Alexandre Linares.

Já Alexandre Linares, integrante do Conselho Fiscal do Cemap, diretor do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo e amigo pessoal de Vladimir, focou nos “causos da memória”, como definiu as histórias que ouviu do amigo, e num dia especial.

“A última vez que pude conversar longamente com ele, foi para fazer uma farda para uma pessoa que estava chegando ao mundo, uma camiseta de Leon Trotsky para o pequeno Leon. Ele contou muitas histórias ali para mim e abriu um sorriso quando a farda chegou.”

Sobre isso, Paula também lembrou de quando o pai lhe entregou a roupinha, feliz da vida, e ainda do momento em que, ao se deparar com a foto do pequeno Leon vestido com ela, disparou: “Bem-vindo à Revolução, baby.”

Sacis

O jornalista Mouzar Benedito no ato de homenagem a Vladimir Sacchetta
Mouzar Benedito.

Outra faceta de Vladimir, a de especialista em Monteiro Lobato, em sacis e como um dos fundadores da Sosaci, a Sociedade dos Observadores de Saci, comentada em vários momentos da homenagem, foi o destaque da abordagem do jornalista Mouzar Benedito, companheiro de empreitada.

“A gente resolveu (criar a Sosaci) como uma forma de militância pela cultura popular, de criar inclusive o dia do saci, não como um dia da pizza ou qualquer coisa, mas um dia de militância anti-imperialista mesmo”, discorreu, emendando que por vezes era chamado de sacizão pelo amigo, “por conta das coisas que eu aprontava”.

Benedito assinalou ainda que, como ambos sempre militaram pela causa dos presos políticos e na resistência à ditadura, a Sosaci surgiu também como contraponto à Sociedade dos Criadores de Saci, que tratava o personagem apenas como folclore.

Ouro puro

O escritor Fernando Morais no ato de homenagem a Vladimir Sacchetta
Fernando Morais.

“Ainda não me refiz do choque da ida dele”, disse, consternado, o escritor e biógrafo Fernando Morais. Contou, em seguida, que seu primeiro contato com o amigo foi quando se viu desesperado atrás de documentos que ninguém encontrava para a escrita do livro Olga. “O Sacchetta foi lá e trouxe ouro, ouro puro. Eu diria que metade das informações inéditas que o Olga publica foram desenterradas pelo Sacchetta”, ressaltou.

A partir daí, de acordo com o escritor, o trabalho de Vladimir Sacchetta se tornou fundamental para ele. “Essa parceria da gente, e, felizmente para mim, sobretudo como ser humano e como autor, não virou parceria em um livro.” Morais detalhou que todos os seus livros, com exceção de apenas dois, tiveram curadoria de imagens feitas por Vladimir, inclusive os dois mais recentes, os volumes um e dois da biografia do presidente Lula.

“Mais do que uma parceria entre dois profissionais, nasceu uma relação fraterna, afetiva, muito forte, que a morte não separou. E nós deixamos de ser o autor e o curador de imagens para nos tornarmos camaradas um do outro” contou. “E eu repito aqui o que eu disse ao Florestan (quando recebeu a notícia). Eu disse: meu Deus do céu, com quem vou fazer meus livros agora?”

Ao longo da noite, entre lágrimas, risos, memórias e histórias compartilhadas, consolidou-se uma certeza comum entre os presentes: Vladimir Sacchetta permanece vivo na memória coletiva que ajudou a construir, preservar e transmitir.

Ato de homenagem a Vladimir Sacchetta no Sindicato dos Jornalistas de São Paulo em 15 de junho de 2026
O ativista histórico José Luiz Del Roio brinca com a mesa durante sua fala.

Publicado em:Cemap,Cemap-Interludium,memória

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