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Incêndio no Arquivo Nacional

O prédio do Arquivo Nacional, no RioFoi um susto. Mais um daqueles que passamos nestes anos de desgoverno. Sábado, madrugada, os bombeiros são chamados para apagar um incêndio no Arquivo Nacional, no Rio. Desta vez não tivemos de sofrer com outra tragédia de destruição da memória do Brasil. O foco foi contido, ninguém se feriu ou morreu, o acervo documental não foi afetado, não houve danos sérios à estrutura do complexo arquitetônico.

Ufa? Não, sem ufas: este é mais um caso de negligência do governo com as instituições de cultura do país. Como no incêndio do Museu Nacional, em 2018, e o do galpão da Cinemateca Brasileira, em julho do ano passado, existe uma combinação de falta de verbas, obras estruturais a passo de tartaruga, quando existem, e gestão marcada pelo descaso e pela falta de profissionalismo.

“A área do incidente limitou-se a parte da recepção do térreo do bloco F, no complexo de prédios da sede da instituição”, informa a nota publicada no site do Arquivo Nacional e em sua conta no Facebook. “Ressaltamos que a integridade das pessoas, do conjunto tombado pelo Iphan e do acervo custodiado não foi atingida. Segundo os bombeiros, o incêndio foi iniciado por um curto-circuito nos nobreaks que se encontravam na sala do antigo PABX, recentemente substituído pelo sistema VoIP, que também não foi afetado”.

O Bloco F é um prédio de depósito, onde está guardada grande parte do acervo do Arquivo Nacional, que inclui documentos como a Lei Áurea e a Constituição de 1988. Ao repórter Pedro Stropasolas, do Brasil de Fato, fontes do Arquivo Nacional que pediram não serem identificadas, disseram que o incêndio foi “grave”. Algumas salas do 1º andar do prédio foram destruídas, mas o fogo não atingiu documentos.

Segundo essas fontes, os funcionários já vinham alertando que esse prédio vinha sendo usado como depósito de materiais, o que não é adequado. “Existem obras anti-incêndio sendo feitas há pelo menos dois anos nesse prédio, mas a execução delas está atrasada”, relatou uma das fontes. O Corpo de Bombeiros informou que foi chamado porque o sistema anti-incêndio do prédio não foi suficiente para debelar o fogo.

Desmonte

Nos últimos meses, funcionários e profissionais de áreas ligadas têm se mobilizado contra o que classificam de “desmonte do Arquivo Nacional” e realizaram uma manifestação de protesto na escadaria da instituição no início do anos. Eles relatam casos de perseguição e a existência de uma situação de “censura não escrita” quanto à divulgação de datas e documentos da ditadura.

Para o secretário-geral da Associação Nacional de História (Anpuh), o professor da Universidade Federal de Minas Gerais Luiz Carlos Villalta, o atual governo busca apagar a memória. “Essa é uma política deliberada. O que a gente vê no Arquivo Nacional não pode ser visto como algo casual, muito menos anedótico”, disse ele à Rede Brasil Atual.

Em novembro, o Ministério Público Federal chegou a abrir uma investigação sobre a nomeação de Ricardo Borda D’Água Braga para o cargo de diretor-geral. A escolha de Braga, que não tem nenhuma experiência na área, foi contestada por entidades ligadas à arquivologia, à ciência da informação e à história.

“Você não vai botar um historiador para construir uma ponte. Esse senhor não tem a menor experiência, é uma pessoa que vem da área de segurança, ligada ao ministro da Justiça, se gaba de participar de clubes de tiro. Essa pessoa administrando o principal arquivo da memória brasileira é trágico”, lamentou a historiadora Eloá Chouzal, da Associação Brasileira de Preservação Audiovisual (ABPA), em entrevista em janeiro. “Ele não poderia estar lá, porque não é apto. Como é que uma pessoa que não é da área vai administrar o maior acervo da história da administração pública?”

O Arquivo Nacional, criado em 1838, é o órgão central do Sistema de Gestão de Documentos e Arquivos da administração pública federal e faz parte da estrutura do Ministério da Justiça. Seu acervo, provavelmente o mais importante do país, reúne milhões de documentos textuais, cerca de 1,74 milhão de fotografias e negativos, 200 álbuns fotográficos, 15 mil diapositivos, 4 mil caricaturas e charges, 3 mil cartazes, mil cartões postais, 300 desenhos, 300 gravuras e 20 mil ilustrações, além de milhares de mapas, plantas arquitetônicas, filmes, registros sonoros e uma coleção de livros que supera 112 mil títulos, sendo 8 mil raros.

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