José Castilho Marques Neto *

Em 5 de novembro de 1981 morria no Rio de Janeiro Mário Pedrosa. Deixava uma obra de crítica de arte reconhecida internacionalmente e uma trajetória política sem uma única concessão. Poucas vezes vida e obra formaram uma unidade tão indissolúvel.
Conheci Mário em 1979, quando preparava a edição de Arte, forma e personalidade para a valente Editora Kairós. Fui ao seu apartamento quatro ou cinco vezes. As visitas, que deveriam durar pouco, viravam conversas de cinco, seis horas. Eu tinha 25 anos e ainda não havia saído do Brasil. Mário tinha uma presença no mundo, e não num lugar particular. O que encontrei nele foi independência intelectual radical, insubordinação às ortodoxias e a convicção de que a política se faz formando comunidades de sujeitos. E o dom da escuta: sabia ouvir, refletia sobre o que ouvia e saía sempre com um raciocínio além – maroto, impertinente, nunca esnobe.
Sua formação política nasceu do maior acontecimento do século. Em 1917, quando Lenin assumia o poder, Mário e Lívio Xavier tinham 17 anos. Foi essa geração que fez da Revolução Russa o farol de sua militância. Com Lívio, com as leituras orientadas por Edgardo de Castro Rebello e com a correspondência com Pierre Naville, Mário construiu no Brasil o primeiro agrupamento oposicionista de esquerda, aderindo ao internacionalismo contra a teoria do socialismo em um só país. Em abril de 1930, o grupo declarava ao Secretariado Internacional Provisório sua adesão às posições de Trotsky em três questões decisivas. Foi essa a matéria de minha tese, publicada em 1993 pela Paz e Terra e reeditada em 2022 pela WMF Martins Fontes: Solidão revolucionária – Mario Pedrosa e as origens do trotskismo no Brasil. O título não é metáfora – aquele grupo agiu com autonomia quase absoluta, isolado, mas nunca provinciano.

Seria mutilar Mário separá-lo da arte. Pioneiro da crítica moderna no Brasil, tratou a obra como forma de conhecimento, não como ornamento. Atuou no Museu de Arte Moderna (MAM) carioca entre 1952 e 1958, na gestão de Niomar Muniz Sodré. Dirigiu o MAM de São Paulo entre 1961 e 1963 e, nessa condição, a VI Bienal de 1961, quando rompeu os cânones ocidentais e abriu o pavilhão à produção africana e aos grupos marginalizados. Foi duramente contestado – e é aí que se vê o intelectual orgânico: preferiu o rigor ao conforto da aprovação.
Asilado no Chile em outubro de 1970, criou e dirigiu, a convite de Salvador Allende, o Museu da Solidariedade, inaugurado em maio de 1972, com obras doadas por artistas de todo o mundo ao povo chileno. Internacionalismo não era palavra de ordem: era obra.
Aos 45 anos de sua morte, celebrá-lo é trabalhar vivamente com seu pensamento. Mário nos ensinou que olhar o mundo de maneira simplista é furtar-se à análise necessária.
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* José Castilho Marques Neto foi um dos fundadores do Centro de Documentação do Movimento Operário Mário Pedrosa (Cemap), em 1981, e hoje integra seu conselho consultivo. Professor aposentado da Universidade Estadual Paulista (Unesp), pesquisador de temas relacionadas à formação do pensamento de esquerda e marxista, é autor do livro Solidão revolucionária – Mário Pedrosa e as origens do trotskismo no Brasil e organizador de Mário Pedrosa e o Brasil, da Fundação Perseu Abramo. Com uma longa história de militância na defesa da democratização do acesso ao livro, à literatura e à biblioteca, este ano ele lançou a coletânea de artigos O poder das palavras e outros poderes – Leituras compartilhadas. Castilho dirigiu a Biblioteca Mário de Andrade de 2002 a 2005 e foi um dos idealizadores do Plano Nacional do Livro e da Leitura, que serviu de base para a lei que instituiu a Política Nacional de Leitura e Escrita. Também presidiu a Editora da Unesp por mais de 20 anos, a Associação Brasileira das Editoras Universitárias (Abeu) e a Asociación de Editoriales Universitarias de América Latina y el Caribe (Eulac).