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Mário Pedrosa: uma vida dedicada à arte, à revolução e à emancipação dos trabalhadores

Mário Pedrosa em entrevista, em julho de 1959

Everaldo de Oliveira Andrade *

Ao recordar Mário Pedrosa, é impossível separar sua extraordinária contribuição à crítica de arte brasileira de sua longa trajetória de militância política. Militante inquieto, socialista e internacionalista, Pedrosa atravessou praticamente todo o século 20 apostando na capacidade criadora dos trabalhadores e dos povos de transformar a sociedade e abrir caminho para o socialismo.

Sua vida foi marcada pela militância política desde os primeiros combates políticos nas décadas de 1920 e 1930, quando formou a seção brasileira da Oposição de Esquerda. Passando pela oposição à ditadura de Getúlio Vargas e, posteriormente, à ditadura militar instaurada em 1964, Mário Pedrosa buscou caminhos para uma transformação socialista do Brasil.

Aos 70 anos, perseguido pela ditadura brasileira, Pedrosa foi obrigado a partir para seu segundo exílio. No Chile de Salvador Allende, encontrou um ambiente de intensa mobilização popular e se envolveu em uma experiência que também expressava suas convicções sobre a democratização da cultura: a criação do Museu da Solidariedade.

Allende e Pedrosa na abertura da primeira mostra do Museo de la Solidaridad, em maio de 1972.

Reunindo obras doadas por artistas de diversas partes do mundo, entre eles Picasso, Miró e Calder, o museu tornou-se uma expressão concreta da solidariedade internacional ao povo chileno e à experiência de transformação social em curso naquele país. O golpe militar de Pinochet, em setembro de 1973, interrompeu brutalmente essa experiência e obrigou Pedrosa a buscar novamente o exílio, desta vez na França.

Mas nem a idade, nem as perseguições, nem os sucessivos exílios interromperam sua atividade política. Ao analisar a crise da ditadura brasileira e a retomada das mobilizações populares, Pedrosa reconheceu nas novas lutas operárias, especialmente nas greves do ABC paulista a partir de 1978, o surgimento de uma força social capaz de abrir novos caminhos para o país.

Era a confirmação de uma percepção que defendera anos antes, ao escrever o livro A Opção Brasileira: a resistência mais profunda à ditadura nasceria nas fábricas, da organização dos trabalhadores e de sua capacidade de agir independentemente das classes dominantes. Pedrosa apostava que as próprias lutas poderiam produzir novas formas de organização e consciência coletiva. E era dessa experiência coletiva que poderia nascer um novo partido de massas da classe trabalhadora.

Foi assim que dedicou seus últimos anos a uma das batalhas políticas mais importantes de sua trajetória: a construção de um partido independente dos trabalhadores. Em sua histórica Carta Aberta a Lula, de agosto de 1978, procurou estabelecer uma ligação entre a nova geração de dirigentes operários e as tradições de luta do movimento socialista brasileiro e internacional. Para ele, a emancipação dos trabalhadores deveria ser obra dos próprios trabalhadores.

Em 10 de fevereiro de 1980, no ato de fundação do PT, Mário Pedrosa tornou-se o primeiro filiado do Partido dos Trabalhadores, assinando o livro de atas. Aos 80 anos, permanecia comprometido com uma transformação profunda e radical da sociedade brasileira. Via naquele novo partido uma oportunidade histórica de reunir a experiência das lutas populares, a autonomia política da classe trabalhadora e a perspectiva do socialismo.

Mário Pedrosa morreu em 5 de novembro de 1981, mas deixou uma herança que ultrapassa suas contribuições fundamentais à história da arte e da cultura brasileira. Sua trajetória nos lembra que a liberdade de criação, a democracia e a emancipação social não são dimensões separadas. São partes de uma mesma luta contra todas as formas de opressão e exploração.

Rememorar Mário Pedrosa é também recuperar a atualidade de suas inquietações: quem constrói a história? Quem deve decidir os rumos da sociedade? Como transformar a energia das lutas populares em força coletiva e consciente de transformação? A transformação da sociedade não será obra de outros em nome dos trabalhadores, mas dos próprios trabalhadores, organizados e conscientes de sua força histórica. A reeleição de Lula 45 anos depois é a afirmação de que segue nas mãos e na capacidade das massas trabalhadoras organizadas a possibilidade de que o futuro socialista será possível. Foi com esse sentido que Mário Pedrosa travou sua última batalha.

* Everaldo de Oliveira Andrade é diretor do Cemap, presidente da seção São Paulo da Associação Nacional de História (ANPUH) e professor doutor do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo. É um dos organizadores, com Francisco Alambert e Marcelo Mari, do livro Mário Pedrosa: Revolução Sensível, publicado pela Fundação Perseu Abramo.

Para quem quiser saber mais sobre a vida e a militância de Mário Pedrosa, aqui estão algumas boas leituras:

Mário Pedrosa e o Brasil, organização de José Castilho Marques Neto, Editora Fundação Perseu Abramo, 2001.

Pas de Politique Mariô! Mário Pedrosa e a Política, de Dainis Karepovs, Ateliê Editorial e Editora Fundação Perseu Abramo, 2017.

Solidão revolucionária: Mário Pedrosa e as origens do trotskismo no Brasil, José Castilho Marques Neto, Editora Paz e Terra, 1993 (nova edição ampliada: editora WMF Martins Fontes, 2022).

Mário Pedrosa Atual, organização de Izabela Pucu, Glaucia Villas Bôas e Quito Pedrosa, Museu de Arte do Rio (MAR) e Instituto Odeon, 2019.

Mário Pedrosa político, série de artigos de Manolo, publicada pelo site Passa Palavra em 2009.

Publicado em:Cemap,História,memória

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